NOTÍCIA
“A escola é o primeiro lugar em que as crianças pretas vivenciam o racismo. Isso acontece na escola pública e privada. Mesmo em região periférica, em que a maioria é preta e parda, há a reprodução do racismo pelo aluno, professor e gestor”, afirma a especialista Elizabete Scheibmayr
A desigualdade racial da sociedade brasileira incide sobre a vida escolar de crianças e jovens negros. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024, mais de 8 milhões de jovens de 14 a 29 anos não haviam completado o ensino médio no Brasil. Desse total, 72,5% eram negros.
O Censo Escolar 2025, divulgado em fevereiro deste ano, aponta que a distorção idade-ano — o atraso de dois anos ou mais — reduziu, mas ainda existe e incide mais sobre jovens e crianças negras. No ensino médio, a distorção atinge 19,3% dos estudantes negros e 10,9% dos alunos brancos.
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Escola que se abre para o entorno tanto aprende quanto ensina
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As barreiras são muitas, entre elas, a reprodução do racismo na escola, um fenômeno nem sempre detectável pela comunidade escolar, mas que persiste e afasta os estudantes das oportunidades que realmente podem mudar suas vidas.
“É preciso mudar a cultura, o comportamento. E mudança assim não se faz da noite para o dia, é um processo, são anos para que aquilo seja incorporado”, afirma Elizabete Scheibmayr, fundadora da Uzoma Diversidade, Educação e Cultura
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Elizabete Scheibmayr palestrará na Bett Brasil, que acontece no Expo Center Norte, em São Paulo. Ela participa do painel Educação e território: a desigualdade que a escola ainda não quer ver, no último dia do evento, em 8 de maio, às 13 horas, na plenária.
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Confira a entrevista com Elizabete Scheibmayr a seguir:

“Falar em diversidade é fácil, mas quanto se está disposto a incluir?”, questiona Elizabete Scheibmayr (foto: arquivo pessoal)
O Brasil é um país em que 55% da população se declaram pretos e pardos. Essa população está, em sua maioria, na periferia. Então há a incidência de raça e de classe. O jovem negro não se enxerga no espaço escolar. Além de não se enxergar, tem outras necessidades primárias — se manter, ajudar a família — e ele não enxerga na escola um lugar onde pode ter um crescimento profissional rápido, inclusive porque, hoje em dia, para os jovens é tudo muito imediato.
A educação transforma, muda a vida, é consistente, mas esse jovem não quer esperar. A escola, então, não consegue mais atrair esse jovem. Tudo lá fora parece ser muito mais ágil do que a escola.
Sim, mas o impacto na população periférica e negra é diferente. Veja, eu sou mãe, acompanhava meu filho na escola porque tinha essa disponibilidade. Eu trabalhava, mas sempre enxerguei a importância da educação e estava alí o tempo todo. Mas o dia a dia massacra a família desse jovem negro. Você acha que uma mãe que sai às cinco da manhã, pega ônibus, vai trabalhar, sofre violência, consegue dar o respaldo de que a criança precisa, de falar ‘tem lição? Tem trabalho? Vamos fazer juntos?’. Essa família é mastigada e espremida pela sociedade o tempo todo. A família não tem energia para fazer a criança permanecer na escola. É muito desafiador isso.
A escola é o primeiro lugar em que as crianças pretas vivenciam o racismo. Isso acontece na escola pública e privada. Isso afeta muito, muito. Mesmo na escola periférica, em que a maioria é preta e parda, há a reprodução do racismo pelo aluno, professor, gestor. Na escola, há um estrato da própria sociedade, portanto, o racismo se reproduz.
Não deveria. A escola era para ser um lugar em que a inclusão fosse vista efetivamente. Ali não é um espaço para reprodução do racismo, homofobia, não é um lugar para preconceitos. Mas se reproduz o que se vivencia e o racismo é vivenciado dia a dia — na loja, no ônibus, no mercado.
Veja como a história reproduz esse lugar da pessoa preta. O lugar da pobreza, da carência, da pouca inteligência. É isso que é reproduzido. Por exemplo, eu e minha irmã fizemos matemática. As pessoas se espantam quando sabem que há pessoas negras formadas em matemática, como se fosse algo totalmente desconexo.
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Cérebro e escrita à mão, fina sintonia
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Exatamente. E as pessoas não enxergam, mas a reprodução do racismo na escola sempre existiu. Lembro muito disso na minha infância. Levantava a mão, o professor ignorava, não respondia a pergunta; quem senta na frente, quem sai na foto da escola, quem é a rainha não sei de onde, quem vai falar, quem vai ler o poema… Essas reproduções ainda existem hoje. Venho de uma família de ativistas do movimento negro, meu pai é um dos fundadores do Movimento Negro Unificado. Então, meu pai me perguntava ‘professor falou o quê?’, via foto tirada na escola e indagava ‘por que você não está na frente? Não vem com a desculpa de que você é alta’.
Fiquei internada num hospital por volta dos oito, nove anos. Na época, os pais não ficavam junto na internação. Meu pai chegou pela manhã para me visitar. A primeira pergunta dele foi ‘quantos médicos passaram aqui para te ver? A enfermeira passou?’. Ele já trazia para nós a existência do racismo, do ficar largada, esquecida.
Pais deve atentar às falas, aos comentários. As denúncias aumentaram porque hoje o filho chega em casa e conta, a mãe vai lá tomar satisfação e cobra da escola um posicionamento. Isso vem muito do empoderamento das pessoas negras. Você começa a valorizar quem você é, a sua força, e não tem medo.
É necessária a inclusão da família dentro do processo da escola. Às vezes, é a escola também que leva a discussão da questão racial para a família, pois nem toda família tem letramento racial. Não é porque é negro que tem letramento racial, e muita gente não tem.
Faço parte do Conselho Municipal de Promoção de Igualdade Racial da prefeitura de São Paulo. Acompanho e há material, treinamento. Há, sim, um trabalho para a valorização da cultura afro-brasileira e indígena, para o cumprimento da lei. Mas ainda é pouco. Penso que esse trabalho precisa começar no professor, na sua formação. Por exemplo, a cultura afro não se restringe à capoeira. É muito além.
Sim, porque começa com o professor, para ele entender como trazer essa cultura em tudo, inserir essa população em tudo. O Geledés [Instituto da Mulher Negra] tem uma cartilha de como o professor pode agir no dia a dia. Como inserir a cultura, os brinquedos, bonecas, então tem ali um trabalho profundo. Mas ainda precisamos de muito.
É preciso mudar a cultura, o comportamento. E mudança assim não se faz da noite para o dia, é um processo, são anos para que aquilo seja incorporado. Percebemos que o aluno que teve essas questões durante sua formação chega à universidade com uma consciência racial maior, um olhar para o outro, um olhar não só para a diversidade, mas para a inclusão. Porque falar em diversidade é fácil, mas quanto se está disposto a incluir?
Total, a mudança é gigantesca. Hoje vemos o que as cotas trouxeram de mudanças nas universidades federais, nas públicas. É impressionante. E abriu uma perspectiva para o jovem negro que hoje entra na escola pensando ‘vou fazer uma federal’.
Hoje, a base de pesquisa vem se ampliando cada vez mais. Meu filho estuda economia na Unicamp. Lá, os professores cobram autores africanos, outras fontes, para entender economia de outra forma. Mas é um processo, e que não pode parar. Processo de aprendizado, de mudança de consciência. Inclusive no processo de entendimento de que aquele conhecimento que não veio de uma escola europeia é importante. Vamos mudando a cultura, dando valor aos conhecimentos produzidos por outros corpos, outras vivências.
Nas escolas privadas, há iniciativas como a contratação de professores negros e bolsas para alunos negros. Mas não adianta só colocar o aluno lá dentro da sala de aula e não incluí-lo no espaço. A inclusão tem de ser constante porque as realidades são diferentes. Quando coloco esse aluno dentro da escola privada, por meio de bolsas de estudos, é tudo: uniforme, material, lanche, a festa, as amizades, porque faz parte o convívio.
Sim, mas temos de tomar cuidado para não cair no assistencialismo. Acontece de se trazer o mesmo peso — estou fazendo um trabalho social e assistencial e estou falando de questão racial. Precisa tomar cuidado para não se transformar nisso. As pessoas têm histórias diferentes. Se está combatendo o racismo, pode até ter uma questão social, mas estamos falando de raça. Carrega-se muito na questão do assistencialismo — estou fazendo um favor.
Por exemplo, nas empresas, às vezes em projetos de Jovem Aprendiz, escuto ‘ah, eu quero muitos jovens negros aqui dentro’. Eu pergunto — para quê? Você vai dizer que aquele lugar é para ele, que ele tem uma possibilidade de crescimento, transformação de vida, complementação de formação, ou está fazendo trabalho social, em que dá bolsa, paga um salário e depois manda embora?
Novamente, tem de ter esse cuidado e não confundir com assistencialismo. Porque será uma intervenção que fará uma transformação, que vai afetar a questão social, logicamente, mas que está associada à possibilidade de aquele jovem sonhar com coisas que ele nunca sonhou: ser CEO numa empresa, ser executivo, ter uma carreira internacional. A possibilidade de ter esse espaço para construir sua carreira, seus sonhos. Se não for assim, não há mudança.
Dividiria em algumas etapas. A primeira etapa é a gestão realizar seu próprio letramento, depois vai para a parte pedagógica, revisão de currículo e então começar a incluir as pessoas.
Importante: tolerância zero para qualquer tipo de preconceito. E fazer o letramento para os pais também. Não adianta a escola falar e, em casa, o racismo ser reproduzido dia a dia. Em casa está a empregada negra, o porteiro negro. Assim a chave não vira, porque fica só no discurso.
As pessoas falam ‘eu sou antirracista’. Eu digo ‘que bom, porque precisamos de aliados’. Mas daí eu pergunto — no seu dia a dia, por exemplo, na festa de aniversário, vamos ver a foto, quantas pessoas negras aparecem? Seu médico, seu dentista, ou o pediatra do seu filho são negros? É preciso buscar ativamente. Isso muda. Um professor particular? Busca o professor particular negro. É o movimento ativo que fará a transformação.
*A Bett Brasil é um dos maiores eventos de inovação e tecnologia para a educação da América Latina. Acontece de 5 a 8 de maio, no Expo Center Norte, capital paulista. E nós, da Educação, estamos fazendo uma cobertura especial. Clique aqui para ficar por dentro de tudo.
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