NOTÍCIA

Bett Brasil

Autor

Redação revista Educação

Publicado em 07/05/2026

Educar para reparar

Enquanto o bullying é instrumento de repasse de uma opressão que visa a atenção dos outros, tendo plateia, o racismo é direcionado, explica Janine Rodrigues, especialista em relações étnico-raciais

Por Mariana Brito, estudante de jornalismo na FIAM-FAAM* | No contexto escolar, para o desenvolvimento de uma luta antirracista eficaz é necessário entender quais são os educadores que estão formando os alunos e quais profissionais formaram esses educadores. Nessa cadeia, é fundamental saber se foi estabelecida uma política antirracista e se a mesma foi repassada a cada um desses estudantes, para, assim, quebrar o ciclo de preconceito no ambiente escolar.

O contexto acima é consenso entre Janine Rodrigues, educadora especialista em relações étnico-raciais e fundadora da Piraporiando, e Luana Smeets, gerente de políticas educacionais do Todos pela Educação. Elas participaram da roda de conversa Educar para reparar: quando a inteligência coletiva constrói futuros mais justos, que teve mediação de Sandra Seabra Moreia, editora digital deste portal, no terceiro dia da Bett Brasil**, 7, em São Paulo.

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Janine afirmou que qualquer ação individual pode ter impacto no coletivo, mas não é o suficiente. Por outro lado, “a inteligência coletiva não serve de nada se ela não se tornar consciência coletiva”.

Já Luana Smeets defendeu que políticas públicas são sim, eficazes, porém, destacou que é preciso focar na execução das propostas, e não apenas na aprovação das leis. O trabalho mais difícil é a implantação dessas políticas públicas em todas as instituições de ensino, como a Lei 100639 de 2003, que inclui no currículo a obrigatoriedade da temática de história e cultura afro-brasileira.

 

luta antirracista

Da esq. para a dir.: Janine Rodrigues, Sandra Seabra e Luana Smeets (foto: Maisa Silva/FIAM-FAAM)

O poder do pensamento na construção de cenários racistas

Tendo o imaginário coletivo o poder de reproduzir preconceitos, é necessário entender como essa visão pode construir e perpetuar ideias racistas que transparecem no cotidiano. Por exemplo, ao colocar pessoas negras em um lugar de subserviência, é imposto uma rejeição naquele ambiente que a deslegitima, conforme disse Janine Rodrigues:

“Em que lugar no nosso imaginário a pessoa negra está? Ela está no lugar de ‘não ter’. Se no nosso imaginário ela já ocupa um lugar de ‘não ter’, a pergunta se ela tem ou não, nem acontece”.

 

A diferença entre igualdade e equidade

Compreender a diferença entre igualdade e equidade é essencial dentro do ambiente escolar e na construção de uma luta antirracista. Enquanto a igualdade discute o amplo acesso para todos, a equidade questiona quem são essas pessoas e foca nas especificidades que compõem esse cenário. Janine e Luana propõem analisar, a partir dessa perspectiva, esse impacto dentro da educação.

Segundo o Anuário Brasileiro de Educação, entre 2013 e 2023, 91,5% dos estudantes brancos concluíram o ensino fundamental na idade adequada. Só que esse número cai, 83,5%, para estudantes pardos e 80,9% de estudantes negros. A respeito da conclusão do ensino médio, o número é ainda menor. Cerca de 79,4% dos alunos brancos finalizaram o ensino básico, 66,6% de alunos pardos e apenas 62,1% de alunos negros.

 

Bullying e racismo: diferenças que afetam o ambiente escolar

É preciso saber diferenciar bullying de atos racistas, pontuou Janine. Toda atitude discriminatória deve ser investigada e endereçada, mas o conceito de bullying carrega uma americanização que diverge da realidade brasileira, explicou a especialista, pois engloba, nos Estados Unidos, o racismo.

No Brasil, é necessário avaliar qual a origem da agressão. Tratar desses momentos como casos isolados não é eficiente. A luta antirracista consiste em uma análise do ambiente e contexto para direcionar os devidos cuidados, seja com o aluno, ou com os responsáveis, orientou Janine.

O bullying, segundo ela, é um ato de repetição que reúne o agressor, o agredido e a plateia, sendo um dos fatores que o diferencia do preconceito racial. O bullying é um instrumento de repasse de uma opressão que visa a atenção dos outros, por isso tem plateia. O racismo é direcionado.

Janine Rodrigues aproveitou seu espaço na Bett Brasil para lançar seu novo livro Por que não existe flor preta?. Narrado a partir da perspectiva lúdica de uma criança, a obra contrapõe uma resposta dada pelo Google, dizendo que “flor preta não é flor que se cheire”. Sua venda também acontecerá no site oficial da Piraporiando.

Bett Brasil

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Nossa cobertura jornalística tem o apoio das seguintes empresas: FTD Educação, Santillana Educação e Multiverso das Letras.

 

*Esta matéria foi produzida numa parceria entre a revista Educação e o curso de Jornalismo da FIAM-FAAM.

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