Cosméticos geram riscos no desenvolvimento infantil

Substâncias presentes em maquiagens e produtos de cuidado pessoal podem afetar no diagnóstico de autismo, déficit de atenção e hiperatividade

Por Mariah Gomes, Gustavo Santos, Anderson Andrade, Fernando Louzada*: Maquiagens, cremes, perfumes, protetores solares e esmaltes fazem parte do cotidiano. O que não imaginamos é que o uso desses cosméticos pode afetar o desenvolvimento infantil. É o que têm mostrado estudos recentes de diversos centros de pesquisa.

Em janeiro deste ano, pesquisadores estadunidenses publicaram estudo vinculado ao projeto CHARGE (Childhood Autism Risks from Genetics and Environment) relatando que maior exposição a fenóis e parabenos — substâncias que podem estar presentes na composição de cosméticos e produtos de cuidado pessoal — nos primeiros anos de vida estava associada a um maior risco de atraso no desenvolvimento e de diagnóstico de transtorno do espectro autista. Essas substâncias podem afetar o desenvolvimento do sistema nervoso e alterar o funcionamento do sistema endócrino.


Leia: Efeitos da pandemia: atraso no desenvolvimento da fala nos bebês ao aumento de doenças mentais nos jovens


Pesquisadores canadenses já haviam identificado que a presença de parabenos no mecônio — primeiras fezes eliminadas pelo recém-nascido — estava associada ao dobro de chances de desenvolvimento de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

A lista de produtos que geram preocupação não é pequena. O fenoxietanol (EGPhE), por exemplo, compõe pelo menos a metade de todos os perfumes, cremes, loções, maquiagens e produtos de cabelo do mercado francês, destaque na indústria de cosméticos. Pesquisadores já identificaram uma associação entre o EGPhE e alterações de memória e aprendizado.

Foto: Envato Elements

Um estudo francês identificou que maiores concentrações de ácido fenoxiacético (PhAA), substância derivada do EGPhE, na urina materna durante a gestação estavam relacionadas a piores desempenhos de seus filhos em testes cognitivos de compreensão verbal aos seis anos de idade. Nanopartículas de dióxido de titânio (NPs TiO2), por exemplo, chegam a representar 1% a 10% da composição de filtros solares.


Leia: 20% das crianças estão em níveis de risco e atenção


Segundo estudos em animais de laboratório, são partículas neurotóxicas capazes de interferir no desenvolvimento placentário e nervoso, podendo atingir o hipocampo, estrutura cerebral importantíssima para a formação de memórias, gerando prejuízos ao aprendizado.

Os ftalatos também merecem atenção. Esses compostos normalmente estão presentes em embalagens plásticas, tornando-as mais maleáveis, mas também em produtos aerossóis, esmaltes, colônias, perfumes e cremes. A exposição a ftalatos tem sido associada a alterações do desenvolvimento cognitivo. Estudo realizado por pesquisadores da Anhui Medical University, na China, mostrou que concentrações mais altas de ftalatos na urina materna durante a gestação estavam ligadas a pior desempenho das crianças em testes de QI entre três e seis anos.

Sabe-se que os ftalatos agem alterando a expressão de dezenas de genes envolvidos nos processos de formação das células nervosas e transmissão do impulso nervoso. Na verdade, a preocupação com possíveis efeitos sobre o funcionamento genético não se restringe aos ftalatos. Já se sabe que muitos componentes de cosméticos possuem a capacidade de alterar a expressão de genes envolvidos em eventos críticos do neurodesenvolvimento.

Esses achados representam um alerta para ficarmos mais atentos à composição de cosméticos e produtos de cuidado pessoal. Em países da União Europeia e da Ásia, a legislação prevê diversas restrições ao uso de parabenos.

No final do ano passado, pelo menos cinco novas substâncias da classe dos parabenos foram incluídas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na lista de substâncias proibidas em cosméticos e produtos de higiene pessoal. Entretanto, fabricantes têm um prazo de até três anos para adequar seus produtos a essa norma. Uma das determinações da Anvisa é que os rótulos dos produtos apresentem a descrição de sua composição química, mas apenas no ano passado tornou-se obrigatório que a descrição estivesse também presente em nosso idioma. Além de embalagens e rótulos, a segurança do consumidor depende de boas práticas de fabricação, que incluem processos como aquisição de materiais, produção, controle de qualidade, armazenamento e expedição.

Apesar de não obrigatório para o funcionamento da empresa, a Anvisa emite Certificados de Boas Práticas de Fabricação àqueles que atendem à regulamentação, conferindo credibilidade. Segundo dados da Agência, hoje, no Brasil, pelo menos 49 fabricantes estão com seus certificados vencidos.

É preciso, portanto, investir em mecanismos para que pais, mães, cuidadores e educadores tenham acesso a essas informações, seja sobre possíveis efeitos da exposição a esses compostos no desenvolvimento infantil, seja sobre a composição dos produtos que consumimos ou ainda sobre a legislação vigente em nosso país.


Leia: Crise ambiental: preparar as novas gerações para as mudanças no planeta


Como regra geral, recomenda-se, portanto, que gestantes evitem o uso excessivo de cosméticos, busquem formulações com poucos componentes químicos e evitem produtos de cuidado pessoal que contenham fragrâncias. Por mais que o incentivo à divulgação científica seja importante no que diz respeito a esse tema, existem outras ferramentas úteis.

A plataforma CosDNA, por exemplo, é um site que contempla centenas de produtos cosméticos com a descrição detalhada de seus ingredientes, a classe química a que pertencem, alguns índices de segurança e até avaliações de outros consumidores, mas ainda não está disponível em nosso idioma. O desenvolvimento de uma ferramenta semelhante em nosso país seria muito bem-vindo. E fica a recomendação: a preocupação que as gestantes têm com a composição de sua dieta deve ser ampliada aos cosméticos que utiliza.

*Mariah Gomes é acadêmica de medicina,
Gustavo Santos é doutorando em fisiologia,
Anderson Andrade e Fernando Louzada
são professores do Departamento de Fisiologia, todos da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Escute nosso podcast:

Envie um comentário

Your email address will not be published.