20% das crianças estão em níveis de risco e atenção

Estudo mostra pela primeira vez no Brasil impacto da covid-19 na educação infantil e destaca, além da importância da escola, o acompanhamento e consciência familiar no desenvolvimento das crianças bem como a necessidade de políticas sociais intersetoriais

Logo na volta às aulas presenciais, ainda em regime parcial, a mãe de um dos alunos de educação infantil da Escola José Jorge Pereira, em Guarulhos, SP, estava preocupada: suspeitava que seu filho vinha apresentando sintomas de autismo na pandemia, tal era a quietude e a dificuldade de comunicação que demonstrava. A ida a um neuropediatra a tranquilizou, mas foi a volta às aulas que confirmou o parecer médico: o comportamento de seu filho mudou sensivelmente, e o que faltava era a interação com outras crianças, um dos efeitos de mais de um ano de isolamento social e de suspensão de aulas presenciais.

Longe de ser uma exceção, esse caso é uma evidência, na vida real, daquilo que as pesquisas começam a mostrar: a pandemia da covid-19 não impactou com força apenas a saúde, a economia, o ensino fundamental e médio. Entre as vítimas desse furacão – que devem merecer a devida atenção no debate público – estão as crianças de zero a seis anos, da educação infantil, que tiveram perdas em seus processos cognitivo, socioemocional e motor, instâncias interligadas e inseparáveis de seu desenvolvimento global.

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Um retrato científico desse efeito acaba de ser divulgado. Trata-se do estudo O impacto da pandemia da covid-19 no aprendizado e bem-estar das crianças, produzido por pesquisadores do Laboratório de Pesquisas em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ), com apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que produziu uma publicação com os achados principais da pesquisa e recomendações para o seu enfrentamento (em https://www.fmcsv.org.br/en-US/biblioteca/impacto-covid-criancas/).

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Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal: a hora é de absoluta prioridade à infância, em ações coordenadas (foto: divulgação)

Perdas de aprendizagem na educação infantil

A pesquisa detalha como crianças que partiram de estágios parecidos de aprendizagens em matemática e linguagem, frequentando o último ano da pré-escola (portanto, o último antes do ensino fundamental), se desenvolveram de forma diferente, em 2019 e 2020. As perdas de aprendizagem verificadas no ano da pandemia são equivalentes ao que aprenderiam em um período de quatro meses na escola – maior, portanto, do que vem sendo apontado por estudos internacionais (em torno de 2 e 3 meses).

Dito de outra forma: as crianças da educação infantil aprenderam 66% em linguagem e 64% em matemática, em 2020, se for tomado como parâmetro o aprendizado dos alunos da pré-escola em 2019. Assim, se 60% das crianças de cinco anos conseguiram identificar 18 letras apresentadas em um caderno ilustrado, na turma estudada em 2019, apenas 45% atingiram esse objetivo, no grupo da mesma etapa, em 2020. Em relação ao vocabulário, quando 56% das crianças identificaram 20 itens em 2019, somente 43% o fizeram, ao final do primeiro ano da pandemia.

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“Não há nenhuma evidência de que não seja possível haver recuperação da aprendizagem”, diz o pesquisador Tiago Bartholo (foto: arquivo pessoal)

O estudo trouxe evidências sobre algo que há bastante tempo os pesquisadores se perguntam: a dimensão do papel protetivo da educação infantil e seu impacto dos investimentos nessa etapa para a diminuição da desigualdade. A pandemia trouxe a possibilidade de comparar a diferença entre ir e não ir para a escola – e o que se viu foi, justamente, o aumento da desigualdade decorrente desse imperativo.

“Esse estudo joga luz sobre temas essenciais, como a necessidade de políticas para o enfrentamento da desigualdade e da diminuição da aprendizagem nos grupos mais afetados”, diz o pesquisador Tiago Lisboa Bartholo.

Os pesquisadores descobriram que as crianças de menor nível socioeconômico (NSE) sofreram um aumento das desigualdades de aprendizagem em linguagem correspondente a até dois meses de aprendizado, quando comparados com as crianças de famílias de maior renda.

Quando se compara as crianças mais pobres que frequentaram a pré-escola em 2020 com as crianças de 2019, os dados indicam que as perdas dos filhos de famílias em pior situação socioeconômica foram bem maiores: enquanto as do primeiro grupo aprenderam pouco menos da metade que os colegas de 2019, as de NSE mais alto chegaram a 75%.

Dados comparativos

Provavelmente o primeiro da América Latina sobre o tema, o estudo dos pesquisadores da UFRJ é importante por diversos aspectos. Em primeiro lugar, porque se trata de uma sequência de pesquisas sobre a importância da educação infantil, que permite dados comparativos. A coleta de dados se iniciou ainda em 2017, depois que Bartholo voltou de estudos pós-doutorais na Inglaterra. Foi lá que o pesquisador tomou contato com linhas de trabalho que buscavam avaliar sobre o que já sabem e o que aprendem as crianças em idade pré-escolar. Estudos nessa faixa etária não são frequentes, inclusive porque requerem cuidados para não criar rótulos ou alimentar predições deterministas sobre quem está apenas entrando no sistema escolar.

O estudo brasileiro focou a comparação entre alunos de um grupo etário de quatro e cinco anos, cursando o segundo ano da pré-escola em 2019, e outro da mesma etapa em 2020, na cidade do Rio de Janeiro. As informações foram coletadas por meio de questionários para responsáveis e professores e por testes indivi­duais aplicados em 460 crianças, em 2019, e 211 no ano seguinte, inscritas em 21 instituições de ensino infantil.

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Entre os pontos estudados estavam ideias sobre matemática, contagem de objetos, identificação de formas e de números, somas e subtração. No campo da linguagem, ideias sobre leitura, vocabulário receptivo; consciência fonológica; Identificação de letras, entre outros. Mais aspectos do desenvolvimento também foram avaliados, com a aplicação do Teste de Sentar e Levantar (TSL), que mede a capacidade de componentes da aptidão física: força/potência, equilíbrio, relação de massa muscular e gordura, e flexibilidade.

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Ao contrário do que ocorre em casa, “na escola, o professor pensa nas interações, há intencionalidade pedagógica, e conseguimos perceber o avanço de cada criança”, alerta a coordenadora Michelle Tambroni (foto: arquivo pessoal)

Segundo o estudo, as crianças avaliadas em 2019 apresentaram melhora na aptidão física e habilidade motora, enquanto o grupo que vivenciou a pandemia, em 2020, apresentou piora na mesma dimensão. Crianças com melhor desempenho no teste são aquelas que conseguem sentar-se e levantar-se sem nenhum apoio, e mostravam destreza em habilidades motoras. Na comparação entre os grupos de 2019 e 2020, verificou-se um “aumento de 14% das crianças do grupo de 2020 (covid-19) que passaram a não mais executar o movimento sem necessidade de um apoio ou apresentando um desequilíbrio”.

Isso se explica pelas mudanças nas rotinas das crianças em casa, com diminuição das atividades físicas da escola, aumento de peso e maior tempo de uso de telas – um dos fatores que mais influenciam os resultados. De acordo com as entrevistas feitas com os responsáveis pelas crianças, 43,6% dos meninos e meninas realizaram menos atividades físicas durante a pandemia e 55,2% realizaram menos atividades ao ar livre. Por fim, 52,2% dos responsáveis relataram que as crianças ficaram mais tempo frente a telas.

Atuação dentro e fora da escola

A pesquisa também levantou informações importantes no campo da saúde mental, a partir de critérios internacionais. Os dados mostraram que “um quinto das crianças (19,4%) estão nos níveis de risco e atenção”, ressaltando que “crianças em situação de vulnerabilidade social têm maior risco relacionado à dimensão de saúde mental”. Por fim, entre os responsáveis ouvidos no estudo que indicaram alguma dificuldade apresentada pelas crianças, 30% relataram ter surgido durante o período da pandemia.

Dessa forma, o estudo mostra a importância da escola de educação infantil de uma maneira mais ampla, mas também a importância de se atuar fora do ambiente escolar, a partir de políticas sociais intersetoriais coordenadas, bem como estratégias que aproximem, apoiem e orientem as famílias sobre a importância de se ter um ambiente de estímulos em casa.

Esse é um dos aspectos que alimentam a desigualdade. Segundo o estudo, quase 70% dos pais ou responsáveis de NSE mais alto relatam que as crianças leram ou folhearam livros em casa ou brincaram com cores e formas. Mas isso vale apenas para 41,7% e 45,4% dos entrevistados de NSE mais baixo, respectivamente.

A mesma preocupação vem sendo sentida no chão da escola pela pedagoga Michelle Tambroni, coordenadora pedagógica na rede pública pela Escola José Jorge Pereira. Casos como ela relatou no início desta matéria são frequentes e ilustram os desafios da escola ao receber as crianças presencialmente. “Sempre nos perguntamos qual seria o impacto da pandemia, e nos preparamos para enfrentar um cenário de incertezas”, lembra.

Logo que as crianças começaram a voltar, Michelle diz ter percebido a importância do trabalho realizado no ambiente escolar. “Na escola, o professor pensa nas interações, há intencionalidade pedagógica, e conseguimos perceber o avanço de cada criança”, exemplifica. O mesmo não acontece em casa, seja por falta de condições sociais, seja pela falta de informação das famílias. Conversando com os pais por WhatsApp durante a pandemia, Michelle ouviu muitos pedidos de orientação e sentiu a preocupação dos responsáveis – na maioria, de baixa renda.

Agora, como sugere o estudo, os educadores da escola começam a avaliar os impactos para desenvolver propostas no campo cognitivo, motor e mesmo social. A coordenadora já percebeu, por exemplo, que as crianças de quatro a cinco anos expressam pelo desenho as angústias vividas. Da mesma forma, sentem necessidade de compartilhar vivências e não são raros os que relatam violência física e emocional. “Elas trazem relatos como ‘ninguém gosta de mim porque não paro quieta, só faço coisas erradas, fico triste porque meus pais brigam muito’… as crianças sentem necessidade muito maior de compartilhar as vivências”, conta.

Esse estado de coisas deixa uma lição de casa não apenas para as crianças, que precisam recompor aprendizagens, mas sobretudo para educadores, formuladores e gestores de políticas públicas.

A primeira lição, na visão de Tiago Bartholo, é não partir do princípio de que essa geração está condenada a um atraso perpétuo – como aparece cunhado na expressão “geração covid”.

“Não há nenhuma evidência de que não seja possível haver recuperação da aprendizagem”, diz Bartholo.

Para ele, é preciso evitar mensagens que criam expectativas negativas – estas sim de efeito nocivo sobre as crianças, como comprovam inúmeros estudos.

Para a CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Mariana Luz, a hora é de absoluta prioridade à infância, em ações coordenadas. “A ciência mostra que esta é a fase mais importante do desenvolvimento humano, e o país precisa se mostrar capaz de cuidar de seu futuro – as crianças são o maior bem que temos”, diz.

Para ela, a sociedade ficou com a falsa sensação de que as crianças não estavam em risco.

“Mas quando levamos em conta que as separamos de um ambiente educativo, de proteção, de segurança alimentar, de identificação de possíveis violências, de aprendizagem e desenvolvimento, não há como defender que continuem apenas em casa e longe da escola”, finaliza Mariana Luz.

Fonte: LaPOpE UFRJ, 2021, destaque na pesquisa O impacto da pandemia da covid-19 no aprendizado e bem-estar das crianças

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