Formar novos leitores para entenderem a si e ao mundo

Escola e família devem despertar no aluno o gosto pela leitura enquanto uma experiência estética. Em relação aos docentes, a tarefa é de todas as áreas e não apenas na língua portuguesa, literatura e alfabetização

Filhos de famílias não leitoras, crianças e jovens brasileiros dependem exclusivamente da mediação de um professor para conviver com obras literárias num país que perdeu nos últimos quatro anos mais de 4,6 milhões de leitores, segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Inclusive, a escolha dos livros de literatura trabalhados na escola geralmente é feita pelos professores, que possuem papel de mediadores desde a seleção até a leitura. Mas antes de discutir o acervo de livros de uma escola e a formação de crianças e jovens leitores, é preciso falar da formação do professor leitor: se esse profissional tem a prática da leitura, se conhece critérios de seleção de uma obra literária e se investe na própria formação.

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No Brasil, há alguns professores que são leitores, cumprem o currículo didático e a literatura fica num lugar secundário. “O texto e a ilustração são os critérios mínimos para qualificar um livro literário e é essencial que o professor tenha um olhar educado para analisar se o texto é bem escrito, se traz um repertório de palavras novas e se a ilustração agrega ao que está no texto“, fundamenta Anderson Novello, mestre em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, escritor e membro vitalício da Academia de Letras dos Professores da Cidade de São Paulo. Novello explica que não se deve subestimar a compreensão da criança, pois nem mesmo um adulto, muitas vezes, compreende 100% do texto e garante que não existem palavras difíceis e sim palavras cujo significado a criança desconhece, mas logo que as descobre pode passar a usá-las no seu dia a dia.

formar novos leitores
Para Ana Leme, um bom livro é aquele que provoca perguntas e não que entrega respostas (foto: arquivo pessoal)

Como peça fundamental a formação de crianças e jovens leitores, é indispensável que o professor saiba que suas escolhas impactarão na formação do aluno enquanto leitor. É preciso olhar para as habilidades leitoras, para os comportamentos leitores e o progresso leitor dos alunos. Ana Leme, pedagoga e especialista em teoria, mediação e crítica de livros para crianças e jovens, expõe: “Em fevereiro a criança não conseguia fazer inferências de um conteúdo implícito e em novembro já consegue. Outra criança que nunca trouxe um livro de casa em outubro aparece com um. Isso é progresso leitor e o professor deve estar atento a isso”. Acessar os não ditos de uma obra, o que o autor deixou só nas ilustrações ou colocou numa metáfora no texto, são habilidades leitoras que devem ser trabalhadas na criança e no jovem pelo professor, complementa Ana, fundadora do Movimento Literário, que presta assessoria pedagógica e literária para escolas e famílias.

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Licenciado em letras/português pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, Novello acredita que a leitura é transdisciplinar quando expõe a ideia de que a formação do leitor e o incentivo à leitura como um todo é tarefa de todos os professores e não apenas do professor de língua portuguesa, de literatura ou da professora alfabetizadora. 

“O professor de educação física ensina a ler a regra e o placar, o professor de história ensina a ler um mapa e o documento histórico, o professor de geografia ensina a ler gráficos e o globo terrestre, pois como dizia Paulo Freire, a leitura do mundo precede a leitura da palavra escrita”, diz Novello.

Grande parte das escolas ainda enxerga a literatura como um objeto de ensino que anda de mãos dadas com o livro didático. “Um bom livro de literatura vai promover conversa, debate, múltiplas visões, fazendo relação com a vida, a vivência e o repertório da criança. Mas quando o objetivo é ensinar algo específico, o que há de mais rico na literatura é desprezado, que é a multiplicidade de interpretações”, pontua Novello, que também é palestrante em escolas públicas e privadas sobre literatura, contação de histórias, leitura e produção textual, língua portuguesa e oratória para professores.

Mas há escolas que acreditam no potencial da literatura e na importância da formação de crianças e jovens leitores e que praticam um movimento ascendente em busca de algo novo quando, por exemplo, contratam uma curadoria para assessorar os professores com a leitura literária e quando trabalham projetos de leitura como um dos meios de fomentar o interesse de seus alunos.

Um exemplo é o projeto chamado “100 dias de leitura”, do qual Anderson Novello participou como convidado de uma escola. Nesses 100 dias, o professor abria a aula com uma leitura literária, destacando título, escritor, ilustrador, editora e lendo por fruição, sem compromisso, com atividades adjacentes, puramente para conhecer uma nova obra literária. Isso promoveu aos alunos um repertório de 100 histórias.


Anderson Novello: tanto na formação dos professores quanto na realização dos projetos de leitura dentro do ambiente escolar, a fórmula é constância; precisa ter continuidade
(foto: arquivo pessoal)

No último dia, como autor da última história, A bruxa do batom borrado (ed. Palavras Abertas), Novello visitou a escola para uma conversa com os alunos, que puderam interagir com ele. A presença do autor no ambiente escolar desmistifica essa figura entre as crianças, que o veem como alguém distante.

Conhecer a pessoa que fez o livro, que despertou diversos sentimentos, é tão excitante que incentiva os alunos a buscarem outros livros daquele mesmo autor, a conhecerem novos escritores – fazendo a catraca da leitura rodar. “Uma menina da educação infantil, certa vez, me perguntou: quantos livros de A bruxa do batom borrado existem no mundo?’ Respondi: por enquanto uns 4 mil. A menina admirada me falou: quatro mil? Mas quanto tempo você levou pra pintar todos?”, conta Novello para ilustrar a curiosidade que as crianças têm sobre os bastidores da criação de um livro. O autor, inclusive, foi por 10 anos professor de pedagogia, dedicando-se à formação de professores.

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Para essa menina, o escritor precisaria passar dias e noites pintando os 4 mil livros e perguntas como: “De onde veio a ideia da história?”, “Como foram criados os personagens?”, “Quanto tempo levou para escrever?” são brechas para que os alunos se envolvam e se entusiasmem com a prática da leitura. Quando um autor é convidado a visitar uma escola, esse convite coroa a certeza de que a escola está fomentando a literatura entre os alunos.

O Colégio St. Paul’s, da cidade de São Paulo, por meio de um serviço de assessoria e curadoria, recebe uma pesquisa de obras de qualidade a partir dos temas escolhidos pela escola. Ana Leme, assessora pedagógica e literária que comanda essa pesquisa, afirma que não se deve olhar para o livro como objeto de ensino, para isso já existe o material didático, e sim olhar para o livro como uma proposta de experiência estética. “Há escolas que não adotam o livro-imagem por não conter texto escrito, mas combinam uma visita ao museu. Essas crianças só aprenderam a ler palavras, como irão ler esteticamente as obras de arte? Uma obra de arte, assim como o livro-imagem, vem para provocar uma experiência, uma sensação, não para ensinar”, relaciona Ana. 

Potência para o cérebro, obras perdem espaço

 A internet e as redes sociais, causadoras da diminuição da concentração, estão entre as principais razões para a queda no percentual de leitores, que apresentam dificuldade para ler um texto longo.

Pesquisas científicas realizadas na Universidade Stanford, EUA, e no Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm) comprovam que a leitura para a criança é capaz de formar um cérebro potente. Da mesma forma, Ilan Brenman, segundo autor brasileiro mais lido na China, com mais de 70 livros publicados pelo mundo, mestre e doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), afirma com convicção:

“O livro é potência na cabeça da criança e não é o livro digital, é o livro de papel, o objeto livro impactan­do a vida das crianças”. 

“Neste mundo cada vez mais digital, a biblioteca de papel, feita de livros reais,
nunca foi tão importante na vida das crianças”, defende Ilan Brenman (foto:
arquivo pessoal)

Ilan, considerado um dos principais escritores da literatura infantojuvenil do Brasil, quando fala da necessidade de bibliotecas acessíveis para crianças, esclarece que não fala da biblioteca digital, que pode coexistir – quando se fala em literatura, ele não acredita que o futuro será digital. “O Brasil é o país com as crianças mais conectadas do mundo e estamos indo para o abismo, largando as coisas mais importantes. Neste mundo cada vez mais digital, a biblioteca de papel, feita de livros reais, nunca foi tão importante na vida das crianças.”

Diversos estudos sobre os efeitos da internet nos cérebros de crianças e adolescentes têm mostrado efeitos negativos, desde a diminuição da empatia ao enfraquecimento da capacidade de tomar decisões. De acordo com a 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró Livro em parceria com o Itaú Cultural, a internet e as redes sociais são as razões para a queda no percentual de leitores.

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A literatura torna o ser humano mais inteligente e inteligência vem do latim, significa ler entre as linhas, poder escolher. A pessoa inteligente pode fazer escolhas e enxergar atrás das cortinas. “Um conto de fadas, uma boa literatura infantil contemporânea, uma boa música deslocam a criança do que ela está acostumada e trazem frescor, reflexão, mudança e um repertório imenso de experiências que impactam sua vida, mas se o professor não vive isso, se os pais não vivem isso, se não leem, há muita dificuldade para compreender todo esse processo”, adverte Ilan Brenman.

No acervo, a diversidade é fundamental

De acordo com os parâmetros da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), na escolha de repertórios para apresentar a crianças e jovens é fundamental ter variedade de gêneros literários compondo o acervo da biblioteca escolar: poesia, parlenda, folclore, mitologia, literatura infantil contemporânea e clássica, entre outros. Diversidade não só nos gêneros literários, mas também nos formatos dos livros, na experiência do próprio objeto. Variedade de autores, ilustradores, temas, editoras, gêneros textuais e projetos gráficos. “Apresentar autores de diferentes etnias trazendo a cultura universal para a sala de aula (escritores asiáticos, africanos, indígenas, brasileiros do sul, do sudeste, do centro-oeste, da América Latina). Quanto maior a diversidade, maior a riqueza de emoções, de projeções e de deslocamentos”, ensina Ilan, que chama atenção para a qualidade, que deve ser a base dessa diversidade.

Ilan Brenman acredita que um bom livro vai agradar gregos e troianos e que se a obra artística é boa, ela amplia completamente a faixa etária e cita C. S. Lewis: “Inclino-me quase a afirmar como regra que uma história para crianças que só as crianças gostam é uma história ruim”.

Sobre as fábulas, gênero literário cuja mensagem é chamada de moral da história e que tem caráter educativo, Novello entende que elas funcionaram em outros tempos, com objetivos específicos e que, hoje em dia, devemos dar vez e voz para as crianças. O professor deve realizar um trabalho de contextualização histórica, ajudando a enxergar o que essa obra apresenta para os tempos atuais. 

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Autor do best-seller internacional Até as princesas soltam pum (ed. Brinque-Book), Ilan acha um desperdício de tempo trabalhar o livro literário com sentido moralizante: “É como um discurso de um pai para um filho, em que o pai fala entra por um ouvido e sai pelo outro. O que fazemos enquanto adultos é muito mais forte do que o que falamos”.

Contos de fadas

C. S. Lewis, autor de As crônicas de Nárnia (ed.WMF Martins Fontes; 2ª edição, 2009), em um de seus textos diz: “Mais ou menos uma vez a cada 100 anos, algum sabichão se levanta e tenta acabar com os contos de fadas”, relata Ilan Brenman. “Os contos de fadas são essenciais na vida da criança. Pais que reclamam do medo que a criança vivencia ao entrar em contato com um conto de fadas são os mesmos que deixam as crianças expostas a absurdos na televisão, a violências sem nenhum contexto, que não se incomodam com as músicas que seus filhos escutam com letras que depreciam a mulher.”

 Ilan, que também é bacharel em psicologia, pros­segue explicando que o conteúdo da história se encontra com conteúdo da própria criança, do que ela está vivendo. “A criança transborda as suas questões através de um conto de fadas. Eu costumo dizer que transborda e não injeta, já está dentro.” Nos contos de fadas o medo aparece fantasiado de lobo, ogro, bruxa, morte e traz uma oportunidade de amadurecimento, pois o medo aparecerá na vida real da criança. “É fundamental trabalharmos os contos de fadas com as crianças, pois na sua estrutura arquetípica o que mais aparece são as dificuldades e o medo na busca do crescimento, mas também a alegria de encontrar no caminho pes­soas que te ajudarão nesse processo.”

Sobre os contos de fadas, Anderson Novello soma ao esclarecer que a criança não está vivendo a história na vida real, está protegida pela ficção, então é saudável. “Você já imaginou se tirarmos o antagonista das histórias, o vilão, a pessoa que faz o contraponto, o que apronta alguma coisa, que faz uma maldade? Não terá história”.

“Há uma histeria coletiva ao redor dos contos de fadas em várias partes do mundo e acabamos abandonando histórias formativas, que fortalecem a mente e a alma das crianças que se enfraquecem caminhando despreparadas pra vida. Costumo dizer que as boas histórias são aquelas que falam para a criança: Eu sei que a vida é complicada, que crescer é difícil, mas você vai conseguir, não será fácil, mas você vai conseguir”, finaliza Ilan.

Adequação à realidade

O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) inaugurou uma nova forma de distribuição de livros literários para as escolas públicas de todo o Brasil por meio do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Assim como ocorre com os livros didáticos, professores e diretores poderão escolher as obras literárias que mais se adequem ao projeto pedagógico de cada unidade de ensino. O FNDE orienta ainda sobre a importância de a escolha ser feita a partir de uma reflexão coletiva. “Professores e gestores escolares devem fazer reuniões, mesmo que virtuais, para que sejam escolhidos os livros de literatura mais adequados à realidade de cada escola”, explica a coordenadora-geral dos Programas do Livro, Nádja Cézar.

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