NOTÍCIA
Insatisfação corporal tem crescido entre os jovens pelo menos desde 2015; profissionais da saúde e educadores analisam o cenário
Uma certa dose de insatisfação pode até ser vista como característica típica da adolescência mas a insatisfação das juventudes com o próprio corpo tem crescido nos últimos anos, trazendo implicações também para dentro da escola. Pouco mais de 40% dos brasileiros de 13 a 17 anos, de ambos os gêneros, afirmam que não estão satisfeitos com a própria imagem corporal, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada em março pelo IBGE.
O percentual de satisfação com a própria imagem vem caindo desde 2015, quando o índice era de 70,2%. Há uma diferença marcante entre os gêneros. O total de meninas realmente insatisfeitas com a imagem corporal ficou em 36,1%, o que é quase o dobro dos 18,2% dos meninos.
Para elas, mais tarde, a insatisfação adquire novos contornos. Segundo a pesquisa Tudo no seu tempo, realizada pelo Instituto Plano de Menina, 93% das jovens brasileiras entre 18 e 24 anos já tiveram vontade de fazer algum procedimento estético ou cirurgia plástica. Mais do que um ‘drama’ da idade, o sentimento de inadequação pode ter consequências para o aprendizado e, portanto, deve ser tratado com seriedade pelos educadores.
Um espaço em que a visão problemática do próprio corpo fica particularmente identificável nota-se nas aulas de educação física. “Muitas meninas não querem fazer as aulas, preferem ficar de fora. Um dos motivos é a cobrança social para elas estarem sempre arrumadas, maquiadas e cheirosas. Numa aula de educação física elas vão transpirar, o cabelo vai desarrumar, a maquiagem borrar…”, cita a professora Carolina Mezzetti Rochael, que pesquisou sobre o tema em seu mestrado, Vozes da Arquibancada. A professora ressalta, contudo, que esse não é o único fator que afasta as meninas.
Em seus 12 anos como educadora, sempre conversando muito com colegas de todas as disciplinas, Carolina afirma que a preocupação estética tem aparecido cada vez mais cedo, já a partir do 5º ano, com meninas de 10 e 11 anos. “Em algumas turmas, tivemos que proibir explicitamente materiais como escovas, cremes e maquiagem, explicando que isso não é material de aula”, conta.

Pouco mais de 40% dos brasileiros de 13 a 17 anos, de ambos os gêneros, afirmam que não estão satisfeitos com a própria imagem corporal, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada em março pelo IBGE (Foto: Shutterstock)
Para especialistas em saúde mental, não há dúvidas de que o comportamento social de busca por aceitação do aspecto físico pode interferir nas aprendizagens de forma ampla, para além da disciplina da educação física.
“A insatisfação corporal pode se tornar uma obsessão, algo que acaba drenando muito a energia do adolescente. Então, a gente tem uma perda de energia mental para estudos e outros aspectos da vida”, explica o psiquiatra infantil Gustavo Estanislau. Em geral, o adolescente não vai verbalizar exatamente o que está passando, mas há sinais de alerta. “A gente pode ver uma criança menos atenta, com mais dificuldade de reter informações. Muitas vezes a insatisfação pode ser sentida como estresse e ansiedade, fazendo com quea pessoa fique com os nervos mais à flor da pele, se emocione com mais facilidade. Às vezes, ela se torna mais esquiva, socialmente menos engajada, não querendo participar de algumas situações”, cita o psiquiatra.
A falta de autoestima, que pode começar com o corpo, normalmente acaba se expandindo para outras áreas. “A autoestima prejudicada faz a pessoa pensar que tem menos competências nas coisas em que tem competência. É um adolescente que passa a não acreditar na capacidade de ir bem numa prova, fazer um bom trabalho e expor o trabalho na frente da turma”, diz Estanislau.
Se houve uma fase em que movimentos de body positivity pareciam promover a maior aceitação de diferentes tipos de corpos, essa fase acabou. O que tem chegado às meninas, com grande disseminação nas mídias sociais, são exemplos de magreza extrema propagados como padrão de beleza. E, como diversas questões culturais, esta também se torna presente na escola. “Em uma sociedade em que os padrões de beleza estão cada vez mais rígidos, valorizados e propagados, essa estética adentra a escola diariamente”, afirma Maria Teresa de Oliveira Lima, psicóloga escolar do ensino médio e docente da disciplina Educação Inclusiva no Instituto Vera Cruz, com sede em São Paulo.
Embora não seja um fenômeno exatamente novo, educadores sentem que ele está mais forte do que nunca. “Nos últimos anos essa pressão se intensificou na perspectiva de uma certa homogeneização ainda mais estreita de padrões corporais e de vestimenta femininos: o corpo magro, longilíneo, ‘malhado’, cabelos lisos, longos, roupas e acessórios que evidenciem esses traços”, relata a educadora.
O nó que leva à insatisfação corporal das meninas vem de um longo novelo de expectativas e cobranças típicas de uma sociedade machista. “Atingir o ideal de beleza oferece reconhecimento social para as mulheres, por promover certo capital matrimonial na conquista dos homens viris”, explica Maria Teresa. A busca por perfeição estética se torna uma forma de busca de autoestima.
“Nessa lógica, ser mulher passa pelo olhar desejante de um homem. Tornar-se aprisionada à constante aprovação externa pode gerar consequências como frustração, obsessão por perfeição, ansiedade, depressão, insegurança e fobia social e autoagressividade”, diz.
A pressão sobre o aspecto físico, contudo, não fica restrita às meninas. “Com a propagação da chamada ‘machosfera’, influenciadores masculinistas ganham notoriedade e influenciam os jovens e meninos, incentivando-os a se preocupar e investir tanto em comportamentos machistas padronizados como em uma aparência estética padrão”, constata Simone Fernandes, psicóloga escolar da Escola Vera Cruz. Dos rapazes, espera-se que tenham ainda novos um corpo musculoso.

À escola não cabe apenas perceber e aceitar o que se passa na sociedade; é necessário remar contra essa maré. “Uma escola conectada com seu tempo, que dialoga com seus alunos, não pode se furtar a abordar essas questões”, defende Simone. Isso pode ser feito tanto em aulas cujos conteúdos conceituais permitam essa abordagem como em espaços formativos mais reflexivos, como rodas de conversa, coletivos feministas, projetos de vida.

Simone Fernandes (à esq.) e Maria Teresa (à dir.), psicólogas escolares, orientam que o tema deve ser debatido no ambiente escolar (Foto: Arquivo pessoal)
Na educação física há sempre oportunidades. Além de conhecer esportes e atividades, as reflexões sobre corpo, cultura e inclusão fazem parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e, portanto, são temas curriculares. Por exemplo, na habilidade do ensino médio EM13LGG502 está previsto “analisar criticamente preconceitos, estereótipos e relações de poder subjacentes às práticas e discursos verbais e imagéticos na apreciação e produção das práticas da cultura corporal de movimento”.
“Se aparecer alguma situação na aula, a gente tem de incluir alguma forma de intervenção pontual. Mas é bom prever isso no planejamento também; dentro de ginástica, pode-se falar sobre saúde, padrões corporais e influência da mídia”, cita a professora Carolina. Na sua experiência, os alunos gostam desse tipo de discussão, mas é preciso começar de forma provocativa. “Eles estão tão capturados pelos padrões que às vezes nem percebem. Então, busco trazer o tema de forma impactante, como apresentar doenças como anorexia e bulimia, mostrar efeitos da utilização de anabolizantes”, sugere.
Outra estratégia de bons resultados para a escola é convocar as famílias, para que elas sejam aliadas no enfrentamento. “As melhores estratégias universais são as que envolvem toda a comunidade, incluindo os pais, trazê-los para o debate da insatisfação corporal.
Se são identificados alunos em sofrimento, aí é necessário intervir de forma mais direcionada, com suporte de um psicólogo”, diz o psiquiatra Estanislau. O esforço ‘extra’, para tratar de algo supostamente alheio ao âmbito escolar, pode ter impactos profundos. “Trabalhar o respeito pelas diferenças, inclusive corporais, potencialmente melhora o clima escolar, diminui a rivalidade e o bullying”, constata o médico.