“Tivemos uma turma lendo Asimov, depois construindo chatbots”, conta Maria Eduarda Sawaya, presidente da Abepar, em entrevista na qual faz um balanço do II Congresso da entidade
Entre entender a inteligência artificial e simplesmente aprender a usá-la, a escola tem o desafio maior de formar estudantes capazes de pensar criticamente em uma realidade mediada por algoritmos. Esse foi um dos contextos abordados durante o II Congresso da Abepar (Associação Brasileira das Escolas Particulares), que reuniu 650 educadores no Colégio Santa Cruz, em São Paulo e teve como tema geral Educação na Era da IA – Ética, Inovação e Outros Desafios. O evento aconteceu em 19 de setembro.
A programação trouxe 15 palestrantes nacionais e internacionais, entre eles, David Buckingham — pesquisador e professor, consultor da Unesco, Unicef e do governo do Reino Unido para uso de mídias na infância —, representantes de 36 escolas públicas, além de promover uma novidade, a Partilha de Práticas, espaço em que mais de 20 escolas associadas apresentaram 33 experiências já realizadas em sala de aula. Além de discutir o futuro da educação, o Congresso colocou em circulação o que as escolas já estão fazendo e aprendendo diante da IA.
Maria Eduarda Sawaya, presidente da Abepar, diretora da Beacon School, e integrante do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, traz nesta entrevista um balanço do congresso. Engenheira de Produção formada pela Escola Politécnica da USP e mestre pela Universidade de Michigan, ela destaca a importância de compreender a IA para além de seu uso instrumental e de criar espaços para que as próprias escolas compartilhem experiências, dúvidas, erros e descobertas.
O que deve permanecer é a educação midiática. E aqui a distinção importa: não se trata de educar para usar a inteligência artificial, e sim para entender como ela funciona. Sem esse entendimento não existe autonomia, existe dependência. Foi disso que David Buckingham falou na abertura, e foi para esse mesmo ponto que Charles Fadel apontou no encerramento, ao perguntar o que ainda vale a pena aprender.
O Congresso aconteceu com pesquisadores brasileiros que trouxeram o problema para o nosso chão. Dora Kaufman desmistificando a IA, que é um trabalho necessário porque boa parte do debate é feito em cima de uma ideia equivocada do que essa tecnologia é. Jefferson Tenório falando de racismo algorítmico e Jussara Santos de infância e antirracismo na era digital. Patrícia Peck abordou autoria e plágio, Maria Mello falou sobre o ECA Digital, Telma Pantano sobre o que o uso dessas ferramentas faz com o cérebro, Renata Cafardo sobre o algoritmo das famílias e Priscila Gonsales lembrou que existe vida para além das big techs. O que fica, para mim, é que não dá para tratar isso como assunto de tecnologia educacional. É assunto de projeto pedagógico.

“O que deve permanecer é a educação midiática. E aqui a distinção importa: não se trata de educar para usar a inteligência artificial, e sim para entender como ela funciona”, afirma Maria Eduarda Sawaya (foto: divulgação)
Porque as escolas da Abepar já estão usando a IA seja com seus alunos, seja nas tarefas dos professores. Essa é a resposta simples. Quando começamos a organizar o congresso, ficou claro que havia muita coisa acontecendo dentro das nossas escolas que ninguém conhecia direito. Professores testando, errando, refazendo. Abrimos a inscrição de projetos e chegamos a 33 apresentações em 17 salas simultâneas.
Foi mais do que esperávamos. E a variedade do que apareceu diz muito e foi interessante. Tivemos um segundo ano criando uma versão animada de O Mágico de Oz e descobrindo, na prática, que precisa reescrever o comando dez vezes até chegar perto do que imaginou. Tivemos um professor montando um computador mecânico de papel para ensinar como um algoritmo aprende, sem nenhuma máquina ligada. Tivemos uma turma lendo [Isaac] Asimov, e depois construindo chatbots.
Houve uma simulação da ONU em que uma agente de IA participou do debate como delegada e os alunos só souberam disso no final. Tivemos escola discutindo padrões de beleza com o quinto ano a partir das imagens que a IA gera. E houve, também, professores falando abertamente de sobrecarga e de esgotamento, e do que essas ferramentas podem tirar das costas deles. Nada disso teria vindo de uma palestra. Vem de quem está em sala de aula. Nosso papel foi criar o espaço e sair da frente.
Os alunos que chegam à escola com o celular cheio de conteúdo gerado por máquina são os mesmos, na rede pública e na rede particular. A pressão sobre o professor é a mesma. As perguntas sobre autoria, sobre o que é pesquisa e o que é atalho, sobre o que fazer com um texto que o aluno não escreveu, são as mesmas.
O que muda são as condições. E é justamente por isso que a conversa não pode acontecer só entre escolas parecidas entre si. Quando isso acontece, a gente confunde a nossa realidade com a realidade da educação brasileira, e essa confusão custa caro.
Não fomos ali levar respostas para ninguém. Fomos dividir um dia de trabalho. Foi assim no primeiro congresso e foi assim agora, e é uma decisão que a Abepar toma conscientemente desde o começo.
A Partilha de Práticas nasceu como experiência desta edição e me parece que virou algo maior do que isso. Escolas que competem entre si no dia a dia decidiram contar o que estão fazendo, inclusive o que não deu certo. Isso não é trivial, e é exatamente o que uma associação em rede deveria produzir. Sem dúvida, levaremos esse formato para os próximos congressos.
Levamos também uma agenda que não se esgota. A discussão sobre inteligência artificial vai nos ocupar pelos próximos anos, e ela muda de forma a cada semestre. Os Diálogos Abepar seguem, e seguem porque o congresso não é um ponto de chegada.
E levamos uma confirmação. Quando começamos, há dez anos, a ideia era simples: escolas que pensam sozinhas pensam menos. Sábado, com 650 pessoas no Colégio Santa Cruz, isso ficou bem evidente.
Nota da redação: a revista Educação publicou em sua edição de outubro, já disponível, reportagem de Rubem Barros sobre inteligência artificial a partir da perspectiva dos palestrantes do II Congresso da Abepar. Acesse a edição do mês gratuitamente: Edição 235, Outubro 2026