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Gestão

Autor

Rubem Barros

Publicado em 08/06/2026

Apertem os cintos, as crianças sumiram

Queda da natalidade leva à redução do número de alunos ou mesmo ao fechamento de escolas de educação infantil

Em 2006, a economia brasileira dava sinais de melhora contínua, com o PIB crescendo a taxas entre 4% e 5% anuais desde 2004. Com isso, havia mais empregos e uma classe média florescente que optava por matricular os filhos em creches (ou berçários) e pré-escolas privadas. A oferta pública ainda deixava a desejar e muitos se sentiam mais seguros em escolas especialmente dedicadas à educação infantil.

Naquele ano, a Passo a Passo, escola de educação infantil do bairro Jardim Pauliceia, em Campinas (SP), reservava um dos seus três espaços apenas para as crianças que a frequentavam em período integral. No total, a instituição, a mais antiga escola privada da cidade para essa etapa educacional, tinha por volta de 140 crianças entre os dois e os seis anos.

Algum tempo antes, em meados dos anos 90, a Escola Pedrita, fundada em 1968, no bairro do Limão, zona norte da cidade de São Paulo, tinha número parecido de alunos, 150. Um dos grandes diferenciais da escola até hoje segue sendo uma área de 1.200 m², em que as crianças podem ter vivências adequadas para a infância.

Crianças

Apesar de não ser a única variável a contribuir para a situação atual, a  taxa de natalidade brasileira vem caindo ano a ano desde 2018. Em 2010, a taxa nacional caiu para 1,9 filho e em 2022 (ano do último Censo) para 1,55 (Foto: Shutterstock)

 

Quando as duas escolas — e o resto do Brasil e do mundo — foram surpreendidas pela pandemia, o número de alunos baixou a níveis críticos. No entanto, em 2020, antes de a Covid-19 chegar, ambas tinham em torno de 100 crianças. O alerta foi ficando mais claro depois de 2022. “No pós-pandemia, notamos que as matrículas e as visitas, depois de escassear, não estavam se recuperando. Um grupo de diretores da cidade começou a perceber a situação e lembramos que isso tudo já havia começado antes de 2020”, avalia Viviane Migliari, dona e diretora da Passo a Passo desde 2002.

 

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Luciana Cabral, uma das sócias da Pedrita, hoje passando o bastão da gestão para o filho Maurício, observa, entre outras mudanças, que o entorno da escola está ganhando muitos prédios. E ironiza: “talvez, se fizéssemos uma escola para cachorros…”.

Crianças

Luciana e Maurício Cabral, da Pedrita, buscam manter-se fiéis aos princípios educacionais da escola (Foto: Divulgação)

Fato é que a queda da natalidade está impactando a vida dos estabelecimentos de educação infantil, apesar de não ser a única variável a contribuir para a situação atual. A taxa de natalidade brasileira vem caindo ano a ano desde 2018. Em 1990, a média nacional era de 2,89 filhos por mulher (4,2 na região Norte e 2,36 no Sudeste); em 2010, a taxa nacional caiu para 1,9 filho e em 2022 (ano do último Censo) para 1,55. Mas, apesar da pequena alta de 2,3% no número de nascimentos em 2025, a tendência é que a natalidade continue a cair.

Segundo a consultora Fernanda King, também dona da Petit Kids Cultural Center, escola infantil bilíngue localizada no centro de SP, isso faz parte de um conjunto de “transformações estruturais que vão mudar o mercado educacional nos próximos 15 anos”. 

No caso das escolas privadas de EI, houve queda de 100 mil matrículas entre 2024 e 2025. Há, no entanto, um porém, como frisa Fernando Barão, da Corus Consultores: mesmo com essa queda, o número de alunos dessa etapa em escolas cuja oferta se restringe ao atendimento de zero a seis anos aumentou em São Paulo. Eram 78% em 2019, e são 83% em 2026, segundo dados da Corus.

Alguns motivos concorrem para isso. Por exemplo, o aumento da oferta de creches e pré-escolas do sistema público ou a ele conveniadas, zerando a fila de vagas para creches — o que também ocorre em outras cidades, como Brasília e Maringá, ressalta Amábile Pacios, presidente da Fenep (Federação Nacional das Escolas Particulares).

 

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O outro motivo é favorável às escolas de EI particular que apostam numa relação de proximidade com as famílias e num acompanhamento próximo do desenvolvimento da criança. “Optamos por preservar valores educacionais que para nós são essenciais, como garantir que as crianças tenham tempo para ter contato com os pais. Por isso, apesar de pedidos, decidimos não estender o horário para mais de oito horas diárias e nem dar banho”, diz Luciana Cabral, para quem essa intimidade entre família e criança tem de ser garantida. Acrescentando a visão das novas gerações, Maurício Cabral aposta no caminho da profissionalização das áreas administrativa e de marketing, com gestão baseada em dados.

Crianças

Personalização da oferta para se manter relevante é a aposta de Viviane Migliari, da Passo a Passo (Foto: Divulgação)

Apesar de oferecer um horário mais longo, das 7h às 18h30, Viviane Migliari também crê que não se pode abrir mão dos princípios educacionais que sempre a nortearam. Mas está buscando maior especialização na oferta de serviços mais individualizados, com maior integração com as famílias.

Os números relativos à queda de matrículas nas escolas privadas de EI variam conforme a fonte, mas a tendência é a mesma. Segundo Barão, entre 2016 e 2026, a queda foi de 20%. Com um aspecto adicional, ao menos em relação a São Paulo: o número de escolas de tíquete mais baixo é crescente. Ou seja, ainda há muita gente que trata a abertura de escola como a realização de um sonho pessoal. Mas poucos fazem análise criteriosa de mercado para transformar sonho em negócio funcionando no azul.

Não há dados sistematizados para isso, porém, o mais provável, no caso paulistano, é que sejam escolas voltadas a um público de baixa renda, mais vulnerável às oscilações financeiras. Segundo Fernanda King, a zona leste de São Paulo registra o maior número de escolas de EI fechando. A consultora alerta: essa redução de matrículas logo chegará ao ensino fundamental.

 

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CriançasSe acolhimento e personalização ainda são diferenciais positivos das escolas privadas de EI, duas coisas têm ajudado a ganhar mais alunos, segundo Barão: a oferta de período integral, desde que modular e não obrigatório, e do bilinguismo, ainda que em alguns casos a prática e o conceito de escola bilíngue entrem em choque. De todo jeito, o inglês é sempre muito valorizado.

 

Parcerias só com contrato

Uma prática que há muito tempo se recomenda para as escolas de educação infantil é a de fazer parcerias com instituições que oferecem ensino fundamental. Mas, nesse caso, alertam os donos de escolas e consultores, é preciso tomar cuidado. Barão recomenda que o acordo preveja uma remuneração da escola de EI por aluno captado pela de ensino fundamental. E Fernanda King recomenda que tudo seja feito sob contrato.

Caso contrário, dizem Viviane e Luciana, o que ocorre — e elas já passaram por isso — é que as escolas de fundamental acabam convencendo os pais a matricularem também os irmãos mais novos, alegando facilidades para a administração da rotina diária, e tirando-os das escolas voltadas só à EI.

Por fim, quem também está disputando os alunos de creches e pré-escolas é a educação pública. A oferta de vagas nas redes públicas teve aumento substancial neste século, principalmente em creches. Apenas entre 2016 e 2024, o número de crianças matriculadas em creches cresceu 9,4 pontos percentuais, passando de 31,8% para 41,2%. 

Na pré-escola, esse percentual variou de 91,3% para 94,6% no mesmo período. Em grande parte dos casos, a oferta cresceu a partir de convênios entre as redes públicas e entidades privadas, que passaram a receber alunos e verbas do Fundeb, tendo, inclusive, de cumprir metas de número de alunos.

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Segundo o consultor Fernando Barão,
período integral e bilinguismo ajudam a aumentar matrículas (Foto: Divulgação)

 

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As conveniadas ou cogeridas estão presentes nas redes de São Paulo, Campinas e Brasília. No caso de Campinas, a prefeitura está concedendo um selo para as escolas de educação infantil, batizado de ‘Escola bem legal’. É uma chancela para que as instituições mostrem que estão funcionando de forma regular, seguindo todas as exigências do Conselho Municipal de Educação, que autoriza o funcionamento.

Segundo Viviane Migliari, em março, 56 escolas receberam o selo. Destas, 34 eram privadas e 22 cogeridas, segundo a designação da prefeitura. “Na cerimônia, porém, essas foram tratadas como escolas privadas”, diz a diretora, cuja escola é a única de sua região com o selo. E, ao que parece, o número de escolas funcionando irregularmente, uma velha mazela da educação infantil, ainda é grande na cidade.


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