NOTÍCIA
A escola diante da inteligência artificial
Por Karina Nazzari, Gerente Executiva de Produtos e Experiências de Aprendizagem da Cultura Inglesa | A inteligência artificial (IA) invadiu a rotina escolar antes que os educadores tivessem tempo de pensar sobre ela: está na tarefa de casa, na escrita de textos e na pesquisa. Por isso, proponho começar não pela tecnologia, mas pelas pessoas. Quem são nossos professores e estudantes? Como estão? O que esperam do futuro?
Muitos dos estudantes hoje viveram a pandemia em 2020, quando o que seria uma semana em casa virou meses de telas. Na volta, as marcas apareceram: nas aulas de inglês, o comando “now, in pairs”, que antes fazia a turma virar as cadeiras e conversar, já não produzia o mesmo movimento. Os estudantes um pouco mais apáticos. Os intervalos foram tomados pelas telas, e a restrição ao celular veio como tentativa de resgatar a dimensão relacional da escola.
Em setembro de 2026, o Conselho Nacional de Educação aprovou diretrizes para o uso de IA na educação. Elas colocam o professor no centro, tratam a IA como objeto de aprendizagem, restringem o uso sem supervisão nos anos iniciais, mantêm em mãos humanas a correção de redações e desaconselham os detectores de IA.
No mesmo mês, o PISA mostrou que 48% dos estudantes brasileiros usam chatbots para estudar ao menos uma vez por semana, sobretudo para pesquisar, resumir e fazer rascunhos. Aí mora a zona cinzenta: o aluno está elaborando ou apenas copiando e colando?
Ao mesmo tempo, a OCDE aponta queda em habilidades de leitura crítica. Ou seja: temos cada vez mais acesso à IA e cada vez menos capacidade de avaliar o que ela entrega. Já na Digital Learning Week, a UNESCO defendeu que a educação siga sendo um bem comum. E, segundo a TIC Kids Online Brasil, cerca de 2 milhões de brasileiros de 9 a 17 anos ainda não têm acesso à internet. Quando a IA chega, chega para quem?

Uma educação saudável com tecnologia precisa nos ajudar no fortalecimento da autonomia e pensamento crítico. A pergunta é: a IA está nos tornando mais inteiros, criativos e críticos ou apenas mais rápidos? (Foto: divulgação)
A psiquiatra Maria Carolina Pinheiro define saúde mental como o processo de nos tornarmos nós mesmos, com liberdade para fazer escolhas. Da mesma forma, uma educação saudável com tecnologia precisa nos ajudar no fortalecimento da autonomia e pensamento crítico. A pergunta é: a IA está nos tornando mais inteiros, criativos e críticos ou apenas mais rápidos? Se só acelera a repetição, reproduz a educação bancária criticada por Paulo Freire.
Para gestores
internas de uso de IA;
adequação à faixa etária;
uso em casa;
checagem de fontes.
Para docentes
faz: conversar com o aluno;
dilemas éticos envolve;
melhor opção.
A IA não substituirá o pensamento crítico, e sim o repetitivo. Por isso, a pergunta sobre o futuro da escola é, no fundo, uma pergunta sobre pedagogia. Às vezes, a melhor decisão pedagógica será deixá-la de lado. Que ela nos ajude a continuar pensando, sentindo e existindo por inteiro.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes para o uso de
inteligência artificial na educação. Aprovadas em 1º set. 2026, aguardando
homologação do MEC. Cobertura em: PORVIR. IA na educação: o que pode e o
que não pode ser usado por escolas e universidades. 2 set. 2026. Disponível em:
https://porvir.org/cne-diretrizes-inteligencia-artificial-escola-universidade/.
BRASIL. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025. Dispõe sobre a utilização,
por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos
estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica. Disponível
em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/L15100.htm.
CETIC.BR / NIC.BR. TIC Kids Online Brasil 2025: pesquisa sobre o uso da
internet por crianças e adolescentes no Brasil. São Paulo: Comitê Gestor da
Internet no Brasil, 2026. Disponível em: https: cetic.br/pt/publicacao/pesquisa-
sobre-o-uso-da-internet-por-criancas-e-adolescentes-no-brasil-tic-kids-online-
brasil-2025/.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
IEDE. Quase metade dos alunos no Brasil usa chatbots de IA para
estudar; índice é maior do que em países da OCDE. Set. 2026. (Dados do
PISA 2025/OCDE.) Disponível em: https://portaliede.org.br/contribuicao/quase-metade-dos-alunos-no-brasil-usa-chatbots-de-ia-para-estudar-indice-e-maior-do-que-em-paises-da-ocde/
PINHEIRO, Maria Carolina. Saúde mental é liberdade de ser. Saude em 1º lugar, 17 jun 2024. Podcast. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Frk1ZEyfWfA
UNESCO. Digital Learning Week 2026 – Education in the age of AI: facts, frictions, frontiers. Paris, 8–11 set. 2026. Disponível em: https://www.unesco.org/en/weeks/digital-learning
UNESCO. Education Ministers call for education to remain a common good in the age of AI at UNESCO’s Digital Learning Week. Paris, set. 2026. Disponível em:
https://www.unesco.org/en/articles/education-ministers-call-education-remain-common-good-age-ai-unescos-digital-learning-week