NOTÍCIA
O paradoxo da educação em Washington, D.C. com ganhos rápidos, mas baixa proficiência
Por Jill Barschay, do The Hechinger Report*, nos EUA | Parece uma história de dois sistemas escolares. Washington, D.C. surgiu como o sistema escolar com a melhoria mais rápida do país, segundo uma importante nova análise das notas de testes de estudantes divulgada na semana passada por pesquisadores de Stanford, Harvard e Dartmouth.
A análise do Education Scorecard, que compara mais de 5.000 distritos escolares em 38 estados, concluiu que a maior parte do país ficou presa em uma recessão de leitura — uma queda no desempenho que já dura uma década e começou antes da pandemia. Entre 2022 e 2025, apenas cinco estados e o distrito de Columbia apresentaram ganhos significativos em leitura. A capital do país teve o crescimento mais forte de todos e também liderou a melhora em matemática.
Estudantes de Washington, tanto de escolas públicas quanto charter, avançaram aproximadamente dois terços de um ano letivo em matemática e cerca de um terço de um ano letivo em leitura nesse período, segundo a análise. Um ano letivo representa aproximadamente um ano de aprendizado, o que significa que alunos do oitavo ano em 2025 estavam cerca de seis meses à frente em matemática em comparação com alunos do oitavo ano em 2022.
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Hora de reavaliar a avaliação escolar
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Mas esses avanços não devem esconder uma realidade mais sombria.
Em 2025, apenas 26% dos estudantes de Washington atingiram os padrões adequados para o nível escolar em matemática, e somente 38% demonstraram proficiência em leitura, segundo um relatório separado do D.C. Policy Center, um laboratório de pesquisas independente. Apenas 16% dos alunos do ensino médio nos últimos anos eram considerados preparados para a faculdade ou para o mercado de trabalho.
Um sistema escolar pode melhorar rapidamente e ainda deixar a maioria das crianças para trás. Essa contradição está alimentando um debate importante: as escolas devem ser julgadas por quantos alunos são proficientes ou por quanto os alunos melhoram a cada ano?
Os críticos das escolas públicas estão se aproveitando das baixas taxas de proficiência.

Especialistas analisam os meios para avaliar o desempenho escolar e, consequentemente, definir políticas públicas (Foto: Shutterstock)
“Ganhos de qualquer magnitude são uma coisa boa, mas quando a maioria dos alunos — cerca de dois terços a três quartos no caso de Washington D.C. — não está funcionando no nível da sua série, isso não é motivo para aplausos”, disse Steven Wilson, ex-formulador de políticas educacionais em Massachusetts e líder de escolas charter. “A maioria dos alunos ainda está sendo desamparada pelo sistema”, como cita o livro de Wilson de 2025, The lost decade [A década perdida], o qual critica as recentes reformas escolares.
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Mesmo antes da divulgação dos dados nacionais na semana passada, os líderes escolares de Washington estavam celebrando os ganhos. Paul Kihn, vice-prefeito para a Educação, alardeou a força das escolas depois que os testes anuais de 2025 revelaram uma melhora impressionante de 3,6% em leitura e matemática, semelhante aos aumentos de nível de série que a equipe do Education Scorecard calculou. “Nossa conquista acadêmica é insuperável no país em termos de crescimento”, disse Kihn em uma postagem de blog em março de 2026.
Tom Kane, economista de Harvard e um dos autores do novo relatório do Education Scorecard, explicou que existe um debate de longa data na área da educação sobre focar na proficiência ou no crescimento. Neste relatório, ele explica que a equipe de pesquisa escolheu o crescimento para ‘combater’ o que consideram uma narrativa excessivamente pessimista sobre a educação pública.
“Estamos tentando destacar que algo bom está acontecendo em alguns desses lugares”, pontuou Kane. “E, se pudermos, esperamos reconstruir o senso público de capacidade de ação em relação à educação pública.”
Além de destacar o crescimento de Washington, a equipe de pesquisa também divulgou uma lista de 108 ‘distritos em ascensão’: distritos escolares onde os ganhos em matemática e leitura superaram os de distritos semelhantes em seus estados. Washington não foi incluída porque não existem distritos comparáveis dentro da cidade. No entanto, seus ganhos são comparáveis aos de muitos distritos da lista. E, assim como Washington, a maioria desses distritos ainda possui grandes parcelas de alunos abaixo do nível da série.
Em teoria, se as notas de um distrito continuarem crescendo em quantidades extraordinárias a cada ano, os alunos deverão alcançar o atraso e eventualmente atingir o nível da série. Mas os críticos das escolas públicas, como Wilson — incentivador do modelo charter —, apontam que, mesmo que um sistema escolar melhore um ou dois pontos percentuais por ano, pode levar décadas para que a maioria dos alunos receba uma educação decente. Enquanto isso, os alunos que estão atualmente no sistema saem perdendo. Eles não podem esperar por esse progresso. Wilson se preocupa que jogar luz sobre um sistema escolar onde a maioria das crianças está muito atrás do nível da série possa enganar o público e potencialmente fazer com que os líderes escolares adotem as políticas erradas.
“Vamos pegar o holofote e direcioná-lo para os sistemas escolares que estão educando quase todos os seus alunos, em vez de apenas um terço deles”, avalia Wilson.
Wilson aponta para escolas individuais ou redes de escolas charter, onde porcentagens muito altas de alunos de baixa renda estão no nível da série ou acima dele. É muito mais difícil replicar esse sucesso com alunos de baixa renda em um distrito escolar inteiro de grande porte.
A renda é um fator determinante nesse debate. Se o público e os formuladores de políticas focarem apenas na proficiência, os subúrbios ricos tendem a dominar os resultados. Os distritos de alta renda costumam parecer os mais bem-sucedidos, não necessariamente porque suas escolas são mais eficazes, mas porque os alunos de famílias mais ricas já começam muito à frente.
Essa preocupação levou os pesquisadores a focarem em medidas de desempenho escolar baseadas no crescimento ao longo das últimas duas décadas. Um exemplo amplamente citado veio de uma pesquisa de Sean Reardon, sociólogo de Stanford e coautor do relatório atual, que há uma década descobriu que Chicago operava as escolas mais eficazes do país com base no crescimento dos alunos, embora muitos deles estivessem atrás do nível da série. (Illinois não estava entre os 38 estados da análise mais recente devido a mudanças em sua avaliação estadual, por isso não está claro exatamente qual é a situação de Chicago agora.)
Mesmo assim, muitas famílias provavelmente prefeririam matricular seus filhos em um sistema escolar onde a maioria dos alunos está no nível da série, mesmo que as melhorias anuais sejam pequenas ou inexistentes, do que em uma escola onde apenas uma pequena parcela dos alunos está no nível da série, mas a escola está se recuperando e melhorando.
Kane, de Harvard, concordou que colocar mais alunos acima da linha de proficiência também é importante. Para o próximo relatório do Education Scorecard da equipe, os pesquisadores planejam adicionar um novo dado mostrando a parcela de crianças que são proficientes em comparação com outros distritos de demografia semelhante.
O desacordo persiste porque as duas medidas respondem a perguntas diferentes. O crescimento mostra se os alunos estão aprendendo mais do que costumavam. A proficiência mostra se eles já aprenderam o suficiente.
É isso que torna Washington um caso tão revelador. Ele mostra como um sistema escolar pode registrar alguns dos maiores ganhos do país e, ainda assim, ficar aquém na medida mais básica de sucesso: se os alunos conseguem ler e fazer matemática no nível da série.
*Esta reportagem foi produzida pelo The Hechinger Report, uma organização de notícias independente e sem fins lucrativos que cobre educação nos Estados unidos.