NOTÍCIA
O pesquisador José Moran Moran ressalta a importância de projetos educacionais que integrem tecnologia e formação humana
As expectativas que existiam há cerca de 40 anos sobre o futuro da escola era a de que a transformação digital mudaria rapidamente os modelos de ensino. Mas como essas expectativas vêm se concretizando? Para José Moran, doutor em ciências da comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), a ideia de uma escola híbrida, flexível, em que se aprenderia em qualquer lugar, de múltiplas formas, ainda não é realidade.
“Já estamos em 2026 e, embora tenhamos avançado, a distância entre o que prevíamos e o que realmente aconteceu ainda é enorme”, afirmou o acadêmico durante a conferência de encerramento do IV Congresso Internacional de Educação, ocorrido dia 12 e realizado pela Faculdade Sesi de Educação, na capital paulista.
“Além disso, infelizmente, não avançamos como pessoa, no desenvolvimento humano, nas relações. É um país que adota tecnologia, mas tem dificuldade de olhar o mundo real a partir da perspectiva das pessoas”, destacou Moran, Referência nacional nos estudos sobre inovação educacional, ele defende uma abordagem crítica, ética e humanista no uso das tecnologias aplicadas à educação.
Para ele, os avanços em relação à incorporação de tecnologias e aos debates sobre competências e metodologias ativas acontecem e são importantes, mas as transformações não chegaram para a maioria das escolas brasileiras. E destacou que o desenvolvimento tecnológico não foi acompanhado, na mesma velocidade, pelo desenvolvimento humano e emocional.

“O professor precisa aprender a ensinar para estudantes que estão imersos no digital e que também enfrentam ansiedade e excesso de informação”, afirma José Moran (Foto: Everton Amaro – Fiesp/Sesi)
“Achei que evoluiríamos também como pessoas, que saberíamos responder melhor aos desafios e levar uma vida mais equilibrada, mais autônoma. E nisso não avançamos tanto. Somos um país curioso tecnologicamente, aberto às novidades, mas também extremamente ansioso, inseguro e dependente desse mundo digital.”
Ao mencionar que a sociedade vive hoje impactos profundos provocados por três grandes rupturas tecnológicas – a internet, os smartphones e, mais recentemente, a inteligência artificial generativa –, Moran comentou que “o terceiro grande choque tecnológico para mim foi a IA. Eu nunca imaginei que chegaríamos a conversar com máquinas, pedir orientações, construir ideias com robôs. Hoje isso já faz parte do cotidiano.”
Mais uma vez, o uso excessivo de tecnologias, especialmente entre crianças e jovens, fez soar o alerta. “Estamos o tempo todo olhando para o celular. Há ansiedade, dependência, excesso de estímulos. Temos falhas importantes na formação humanista e precisamos enfrentar isso com seriedade”, disse.
Na nova realidade digital, a escola tem papel estratégico. Moran ressaltou a importância de projetos educacionais que integrem tecnologia e formação humana. Para o pesquisador, não é mais possível pensar a educação desconectada das tecnologias. “As crianças vivem nesse mundo conectado. Não adianta comparar com a geração que cresceu sem internet ou sem Google. O professor precisa aprender a ensinar nesse contexto, para estudantes que estão imersos no digital e que também enfrentam ansiedade e excesso de informação”, explicou.
Moran defendeu ainda que a escola precisa avançar na personalização do ensino, considerando os diferentes ritmos e necessidades de aprendizagem dos estudantes. “Ainda organizamos a escola de forma muito igual para todos. O desafio agora é combinar o que cada estudante precisa individualmente com aquilo que o grupo necessita como comunidade de aprendizagem”, ressaltou.
Com informações do site da Faculdade Sesi de Educação