NOTÍCIA

Edição 301

Família e escola: papéis diferentes e complementares

Parceria escola e família já foi identificada como um dos principais desafios da gestão escolar. Descubra caminhos para essa aliança se firmar

Publicado em 18/03/2024

por Camilla Hoshino

Autista nível 1, Miguel ingressou na escola aos três anos. Contudo, a mãe Geonice Santana, de Salvador, Bahia, ficou decepcionada com a atuação da instituição. Após oito meses de resistências e contratempos, o transferiu da escola particular para a rede pública municipal, que acabou surpreendendo a família. A escola abriu as portas para a construção de um diálogo voltado para o suporte de Miguel. Hoje, aos sete anos, seus desafios e progressos são acompanhados dia a dia, em parceria. “É importante relatar que nós, mães atípicas, precisamos muito de apoio e acolhimento da escola”, relata Geonice.

A surpresa de Geonice após a transferência é comum a grande parte das famílias no Brasil, já que a relação com a escola nem sempre é tranquila. Inclusive, essa aproximação ou falta dela já foi identificada por organizações nacionais e internacionais como um dos principais desafios da gestão escolar brasileira. “Em grande parte dos casos, é preciso criar condições para que a boa relação aconteça”, diz a mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Espaço ekoa, em São Paulo, Ana Paula Yazbek.

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Apesar de o papel das famílias, da escola e do Estado na garantia do direito à educação das crianças estar previsto na Constituição Brasileira, bem como no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), há distinções. “Educar filhos é um projeto a longo prazo, carregado de afetos, dúvidas, desejos, projeções, expectativas”, diz Yazbek. Enquanto isso, “educar alunos é um projeto circunscrito, com metas e objetivos definidos, com papéis e limites estabelecidos”. Em ambos os ambientes, no entanto, é preciso considerar as subjetividades de cada indivíduo.

Relação da escola com a família na educação infantil  

Na educação infantil, a relação da família com a escola está diretamente relacionada ao desenvolvimento motor, cognitivo e psicossocial das crianças. Basta imaginar que se trata de uma nova jornada, em que elas passam a descobrir um mundo fora de casa, passando boa parte de seu tempo estabelecendo relações com outros adultos e pares. “No início da vida escolar, é importante que as crianças vejam que seus pais e mães conhecem e sentem-se seguros em deixá-las na escola com os professores e professoras. Portanto, essa confiança passa a ser fundamental para que as crianças percebam que existe uma continuidade na movimentação entre ‘casa-escola-casa’’’, destaca Ana Paula Yazbek. 

Vale lembrar que é durante a educação infantil que ocorrem marcos importantes, como a introdução alimentar, o desfralde e os primeiros passos, processos que podem ser alinhados entre a rotina escolar e familiar, respeitando as conquistas e desafios de cada um, sem estabelecer comparação com outras crianças.  

A psicopedagoga e especialista em neurociências aplicada à aprendizagem pelo Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Glauciê Gleyds Nunes de Araújo, reforça a importância da parceria entre famílias e escola estabelecidas nessa fase da vida para o desenvolvimento da inteligência emocional, que será fundamental para a resolução dos desafios a longo prazo, estimulando decisões mais assertivas. “É comum, na educação infantil, o pedido de ajuda da família para lidar com os comportamentos de birra ou de baixa tolerância à frustração”, diz. Para ela, quando há acolhimento por parte da escola, é possível entender melhor as motivações da criança e fazer combinados para diminuir esses eventos, fortalecendo a saúde mental desde a primeira infância.  

Glaucie

Escola e família impactam também a inteligência emocional dos estudantes, diz a psicopedagoga Glauciê Gleyds (Foto: Arquivo pessoal)

No entanto, as especialistas afirmam que esse estímulo é essencial no processo de ensino e aprendizagem de todas as etapas de escolarização. “Quando essa interlocução demonstra segurança e confiança, o vínculo da criança com a educação formal e o desenvolvimento acadêmico ocorrem naturalmente”, diz Araújo.  

Motivação para aprender  

Em 2021, a pesquisa conduzida pelo Instituto Ayrton Senna (IAS) sobre motivação para aprender concluiu que o envolvimento parental nas atividades acadêmicas dos filhos traz resultados positivos, mesmo em famílias cujos contextos econômicos ou sociais se mostram mais vulneráveis. A partir de uma revisão bibliográfica de contribuições atuais da ciência, pesquisadores do IAS perceberam que o apoio de pais e mães na vida escolar colabora para maiores indicadores de engajamento estudantil, tornando as crianças e jovens mais autoconfiantes, autoeficazes e motivados para aprender.  

Na análise dos resultados, a pesquisa sugere que, ao participar de reuniões com professores, apresentações e outras atividades da escola, os pais mostram para seus filhos o quanto são importantes para eles. Além disso, quando estudantes percebem que a família valoriza a importância do esforço e do sucesso acadêmico, eles passam a acreditar mais na sua capacidade acadêmica. “Esse envolvimento tende a fazer com que os pais encorajem seus filhos, estabeleçam limites e se tornem um apoio para que as crianças e jovens lidem melhor com os desafios acadêmicos, pessoais e sociais que encontram a cada dia”, diz o estudo. 

Escola e família

Evento no Espaço ekoa com avós e mãe presentes na vida escolar dos pequenos (Foto: Divulgação)

Portanto, se a família se apresenta como um recurso para a realização de atividades acadêmicas, ela passa a estimular a ponte essencial entre casa e escola. Ainda de acordo com o estudo, esse processo é especialmente benéfico na adolescência, fase em que os pais costumam ser mais permissivos e distantes, bem como onde ocorre maior risco de distanciamento da escola e adoção de comportamentos de risco para a saúde mental. 

Vínculos duradouros 

Para estabelecer a sonhada parceria escola e famílias, Ana Paula Yazbek indica a criação de espaços de interlocução tanto nas situações corriqueiras do cotidiano, quando pais e mães levam ou buscam seus filhos e são bem recebidos por todos — da portaria à sala da direção —, bem como em momentos formais, como em reuniões de famílias ou organização de comitês.  

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“Além disso, professores devem trocar informações sobre como estão as crianças, partilhando conquistas, vivências, fatos corriqueiros e não apenas os problemas, como usualmente se faz”, aconselha. Nas situações em que haja dificuldade, ela sugere que professores procurem e levem caminhos para a resolução das situações, ou pelo menos compartilhem o que está sendo feito. Isso evita que o diálogo se restrinja à constatação dos problemas. 

“Quando a criança apresenta algum tipo dificuldade de aprendizagem, cabe à escola assumir boa parte da responsabilidade para ajudá-la a superar. Nisso, vale compartilhar com as famílias algumas estratégias e eventualmente indicar especialistas, como terapeutas/psicólogos, psicopedagogos, fonos, entre outros, para auxiliar e acompanhar a criança e construir uma triangulação efetiva entre escola-família-especialistas”, orienta. Desse modo, as famílias passam a ganhar segurança e se predispõem a cooperar quando percebem que seus filhos são reconhecidos como indivíduos no ambiente escolar. 

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O olhar de António Nóvoa 

A tensão política que o Brasil enfrenta já chegou no ambiente escolar, por exemplo, com famílias criticando o que o professor de história está dando na aula. Questionado pela jornalista Laura Rachid se o mesmo ocorre em escolas portuguesas, o professor da Universidade de Lisboa e representante da Unesco António Nóvoa diz: “isso é impossível em Portugal e considero um crime. Trabalho com educação há anos, já fui da China aos Estados Unidos e se me perguntar o que vi de mais horrível na área da educação, digo que foi quando Bolsonaro pediu para pais e jovens gravarem as aulas para denunciarem professores que estariam praticando doutrinação. Sei que muitas vezes o professor erra, mas há limites. E a escola, a sala de aula, a relação pedagógica, essas são um santuário. Famílias, professores e estudantes precisam ter relação de confiança”. 

António Nóvoa esclarece que por serem diferentes e complementares, escola e família devem praticar a colaboração. “Um dos erros que mais se cometem quando se pensa nessa relação é o da escola como prolongamento da família. Não. Ela tem lógica e missão diferente, por isso a colaboração é importante.” 

Nóvoa gosta de imaginar que somos uma espécie de coleção das imagens/experiências que percorrem nossas vidas, como os livros que lemos, filmes que assistimos e conversas que temos. “Quando essas imagens são reduzidas e sempre iguais, o trabalho da escola junto ao aluno que em toda a vida só assistiu novelas é alargar esse repertório de imagens. Não é ter uma atitude crítica em relação às novelas ou à música brega, mas o estudante também tem que conhecer outros tipos de música e dança”, finaliza. 

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Autor

Camilla Hoshino


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