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Não é brincadeira, é bullying. Escola, família e Estado devem combater

Confira orientações de especialistas sobre a importância de a escola ter olhar atento para a prevenção dessas práticas

Publicado em 02/02/2024

por Leticia Scudeiro

“Eu levei minha filha à escola numa época de Festa Junina e ela não quis entrar. Sua resistência e o pânico foram tantos que acabou fazendo xixi nas calças, começou a chorar e tremer. Eu a levei de volta para casa e tentei entender o que estava acontecendo. Foi quando me contou que não tinha amigos dentro do ambiente escolar e que tomava lanche e brincava sozinha, porque os colegas não permitiam que ela brincasse nos mesmos brinquedos que eles por conta do cabelo dela. Falavam que o cabelo dela era ‘cabelo duro’, ‘arame farpado’ e outros nomes pejorativos”, relata Vanessa Rodrigues.

O que a filha de Vanessa enfrentou quando tinha apenas seis anos é considerado bullying ou intimidação sistemática — quando há violência física ou psicológica em atos de humilhação ou discriminação. Vanessa explica que voltou à escola para compreender o que estava acontecendo. O retorno que teve foi que sua filha era tímida e que não perceberam que estava sendo isolada. Como atitude, a escola tentou mediação entre sua filha e os colegas.


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O perigo dos traumas infantis

“Num primeiro momento eu não a tirei da escola, até por orientação do psicólogo, mas ela começou a adoecer muito, emagrecer, ficar apática e sentir uma tristeza que eu nunca poderia imaginar que uma criança na idade dela pudesse sentir. Ela ficou tão estraçalhada psicologicamente que antes de dormir me falava: ‘mamãe, eu não quero acordar mais’”, lembra Vanessa.

bullying Vanessa Rodrigues

Após sua filha sofrer bullying, Vanessa Rodrigues se formou em psicologia e hoje é referência no assunto                                 Foto: arquivo pessoal

Diante da situação de sofrimento, Vanessa se formou em psicologia. Sua filha atualmente tem 14 anos e continua recebendo atendimento psicológico, mas a mãe explica que os traumas adquiridos na infância por conta do bullying ainda afetam sua autoestima.

“Até hoje existem sequelas. Outro dia ela foi sair e me disse: ‘mamãe, queria ser bonita’. O processo de recuperação está sendo um trabalho de tijolinho por tijolinho. Não sei se acertei, mas a fase aguda passou, agora ela tem amigos, socializa, sai e se diverte”, relata.

Perto Demais

Vanessa Rodrigues é autora de livros sobre o tema e realiza palestras e projetos de combate ao bullying em escolas de todo o Brasil. Em 2019, lançou o documentário Perto Demais, que conta relatos de pessoas que foram vítimas de bullying, e levou para as escolas como forma de abrir espaços de debates e ajudar os professores a entender e lidar com o tema.

“Cada vez mais precisamos criar espaços intencionais de diálogo. Promover rodas de conversa, de debates, uma dinâmica de reflexões guiadas em que o professor vai discutir sobre esses assuntos. Isso não pode ser tabu”, enfatiza.

Outro ponto levantado por ela é o fato de o termo bullying não ter impacto. “Se eu falar: ‘minha filha foi humilhada’, você tem uma noção clara do que ela passou, mas o termo bullying remete a algo normal: ‘ah, ela sofreu bullying, não é nada, é mimimi’”, argumenta.


 

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Bullying é crime

Em 15 de janeiro deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aprovou a Lei 14.811/24, que define o bullying e o cyberbullying como crimes. Conforme o documento, o ato de bullying prevê multa, já o cyberbullying — ações praticadas nos meios digitais —, pode levar a uma pena de dois até quatro anos de reclusão.

“Essa nova lei ajuda a ver a gravidade desse ato que não é apenas uma brincadeira. Mas se não tivermos momentos de interação, em que o professor consiga conscientizar os estudantes de uma maneira real, com exemplos reais de que isso machuca e faz com que alguns não tenham mais vontade de viver, não vamos avançar”, conclui Vanessa.

Como prevenir o bullying e o cyberbullying

A advogada e autora do livro Segredos da Internet que crianças e adolescentes ainda não sabem (ed. Inverso), Kelli Angelini, também acredita que a nova lei mostra para a sociedade o efeito danoso da prática do bullying e do cyberbullying.

Segundo ela, a lei ainda precisa ser analisada e discutida, pois antes da nova definição, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já estabelecia previsões de como lidar com essas situações, e por estar lidando com jovens em desenvolvimento e aprendizado, a melhor abordagem ainda é trabalhar a prevenção.

“Temos desde 2015 a lei 13.185, que fala da obrigatoriedade de ter nas escolas o programa de prevenção e combate ao bullying, ou seja, adotar medidas de cultura da paz, de respeito e de empatia entre seus alunos. Mas essa lei não é conhecida por todas as escolas, então precisamos reforçá-la para ser implementados programas de prevenção efetivos de combate ao bullying”, esclarece a advogada Kelli Angelini.

 

bullying e cyberbullying crime

Para além da nova lei, prevenir esses casos é a melhor solução, esclarece a advogada Kelli Angelini
Foto: arquivo pessoal

Cyberbullying  

Kelli Angelini, que também é consultora de direito e educação digital, a partir dos casos que acompanhou, destaca que o bullying e o cyberbullying estão interligados: às vezes os estudantes sofrem primeiro ataques nas escolas e depois passam a ocorrer nos meios digitais, ou começam pelos meios digitais e se tornam presenciais.

“A escola deve ficar atenta às mudanças de comportamentos e atitudes entre alunos e não deixar passar algumas situações como mera brincadeira. Já na questão do cyberbullying, vem um papel fundamental da família em olhar para os seus filhos e o que fazem no online. É dever da família monitorar seus filhos no uso da internet, se atentar sobre o que eles estão conversando, que postagens estão fazendo, que comentários estão deixando nas postagens de outras pessoas e que conteúdos estão consumindo”, orienta a advogada.

“Quando acompanho um caso judicial envolvendo adolescentes de atos que decorrem do bullying ou do cyberbullying, o sofrimento já aconteceu. O juiz vai aplicar uma medida socioeducativa, talvez condenar uma família a pagar indenização à vítima, mas aquele sofrimento não dá para apagar. A melhor forma de a gente combater esses atos é justamente adotando medidas de prevenção”, conclui Kelli Angelini.



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Leticia Scudeiro


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