Espaços que educam: as novas integrações das escolas com os ambientes

Muito além da sala de aula, novos projetos arquitetônicos de escolas investem em áreas flexíveis, arejadas, menos estruturadas, sustentáveis, que permitam o convívio, a interação, o trabalho cooperativo

É verdade, o cenário geral não está para muito otimismo nas escolas privadas. Ainda impactadas pelo longo período de fechamento na pandemia e pela vida econômica do país, ligaram o sinal amarelo. Mas, em um aparente contrafluxo, pipocam pela cidade, e país afora, investimentos expressivos de infraestrutura. Em São Paulo, o Colégio Bandeirantes finaliza uma nova torre, com 12 pavimentos e 12,3 mil metros quadrados. Também na cidade de São Paulo, surgem outros novos edifícios de escolas renomadas como Beacon, Lourenço Castanho, Pueri Domus, bem como projetos recentes pré-pandemia, como o novo Colégio São Luiz e a biblioteca do Colégio Santa Cruz.

Espaços que educam
Nova torre do Colégio Bandeirantes dialoga com a sustentabilidade e acessibilidade sem deixar de lado o incentivo a aulas mais dinâmicas
Foto: divulgação

A esse ritmo de mãos à obra, somam-se pequenas e grandes reformas para adaptar as instituições ao contexto dos protocolos sanitários. Tudo isso traz à tona uma discussão que há tempos acompanha a pedagogia: as relações entre educação e espaços de aprendizagem – e por isso chamado de o terceiro educador.

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Até poucas décadas atrás, construir escolas era projetar salas de aula de forma a caber mais alunos, colocar uns laboratórios aqui e acolá com as tradicionais bancadas, um pouco de pátio, quadras. Não é mais assim. A ideia de espaços flexíveis, arejados, menos estruturados, sustentáveis, que permitam o convívio, a interação, o trabalho cooperativo, a cocriação nas várias áreas do conhecimento vêm ganhando vez e voz na arquitetura educacional.

Espaços que educam
Escola Fuji, em Tóquio, Japão, premiada estrutura é referência internacional. Há um pátio circular na cobertura, bem como um gramado central para as crianças escorregarem. Árvores crescem dentro das salas em que os alunos brincam e aprendem
Foto: Arquivo pessoal/Paulo de Camargo

Há muitas razões para isso, como as transformações pedagógicas em curso, gerando demanda por ambientes diferenciados, há a necessidade de dividir os alunos em grupos menores, em um movimento de maior personalização da aprendizagem. Mas, não se pode ignorar o reconhecimento de um avanço na consciência da fundamental relação entre espaço e aprendizagem. Essa é a visão de uma das estudiosas do tema no país, a arquiteta de origem alemã Doris Kowaltowski, hoje professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, onde orienta diversas pesquisas sobre arquitetura e educação. “A nova dinâmica da educação é impressionante, e o arquiteto tem de correr atrás. A arquitetura, as pessoas e a pedagogia têm de andar em conjunto”, diz. 

Com mestrado e doutorado na Universidade de Berckley, na Califórnia, a pesquisadora decidiu cedo investigar as relações entre espaço e aprendizagem, e logo percebeu como a ideia da centralidade da sala de aula era importante para o professor. Ela se recorda da experiência de um projeto de espaço amplo, sem divisões, como um barracão. “Tão logo chegaram lá, os professores recriaram suas salas com a mobília. Histórica e psicologicamente, a sala de aula é uma presença muito forte”, diz.

Para ela, a ideia da sala de aula ainda não desapareceu, mas não deve ter mais exclusividade. “A escola precisa de espaço para que os alunos trabalhem sozinhos, em grupo, e em grupo com o professor”, exemplifica. Mesmo a classe normal pode ter novos formatos, fragmentada em diferentes atividades, com uma área maior do que anteriormente. Outros espaços também ganham novas funções, como o corredor. “A gente está vendo que o corredor assume certas atividades, como um espaço mais livre que está conectado com o espaço da sala de aula, com nichos, mesas de reuniões, trabalhos dos grupos”, conta.

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A linha de pesquisa de Doris priorizou uma dimensão essencial para a educação contemporânea – a que ela chamou humanização. “Normalmente, as instituições eram distantes, frias, com cara de prisão”, lembra Doris, autora de Arquitetura Escolar: o projeto do ambiente de ensino (ed. Oficina de Textos, 2011). 

Para que as escolas sejam lugares mais acolhedores, afetivos, a arquiteta acredita que devem oferecer conforto do ponto de vista da temperatura, da iluminação e da funcionalidade. Devem, também, incorporar o elemento da natureza em espaços abertos – uma tendência que se torna cada vez mais forte no mundo pandêmico, que pede arejamento e situações de retorno à convivência. “A natureza não pode faltar no espaço escolar, e não é vasinho com plantinha, três violetas na beira da janela. Tem de ser algo, um verde presente, um landscape”, recomenda. 

Nessa mesma direção, a busca por construções mais sustentáveis também é uma tendência importante. No caso do Bandeirantes, a proposta é que os estudantes dos mais diversos níveis possam conviver em um ambiente que prioriza o conforto ambiental e a sustentabilidade, com aproveitamento de iluminação natural, ventilação, captação de água pluvial, tratamento de esgoto cinza para reuso de água e acessibilidade. Segundo conta o diretor de operações do Colégio, Eduardo Tambor, as salas de aulas também foram repensadas para trazer mais dinamismo e inovação. Os espaços poderão ser personalizados de acordo com o perfil e faixa etária dos alunos, com tecnologia embarcada e possibilidade de reconfigurações.

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Participação dos alunos

As relações entre arquitetura e educação não se resumem a questões puramente arquitetônicas e métodos construtivos, mas especialmente em um entendimento compartilhado do uso do espaço – do qual os alunos também podem participar. No caso do novo edifício do ensino médio da Beacon School, na zona oeste paulistana, além de coordenadores, professores, os alunos também foram convidados a contribuir. De um grupo de jovens e de suas pesquisas veio a ideia de um lounge para estudos, um refeitório com varanda, a forma do mobiliário, o tamanho dos lockers, entre outros. Serão dedicados dois andares para os espaços de aula, um para o encontro dos alunos, um para a biblioteca e laboratórios diversos, além de um pátio coberto e quadra. “A articulação entre o projeto pedagógico e as necessidades dos alunos do ponto de vista individual e como coletivo são elementos considerados com muito cuidado quando planejamos os espaços educativos”, diz a diretora Maria Eduarda Sawaya.

Outras vezes, mesmo que o espaço seja cuidadosamente desenhado e mobiliado para o desenvolvimento do projeto educativo, as próprias crianças se encarregaram de ressignificá-lo. Foi o que aconteceu na nova unidade da High Line, na zona norte da capital paulista. O buraco em uma grande árvore virou uma casa de dinossauros, com direito a lago de papel machê. A cozinha externa virou uma “cozinha de lama”, onde brincam com terra e água. “O espaço é realmente essencial para o desenvolvimento pedagógico, mas sempre é preciso que a criança tenha liberdade de exploração”, diz a diretora Roberta Mardegam.

Ambientes educativos
Criança com liberdade para explorar o espaço. É assim na High Line School da zona norte de SP
Foto: divulgação

É preciso ter em conta também que o investimento dos espaços não se refere apenas ao aspecto arquitetônico, mas ao que se coloca dentro da escola – por exemplo, os parques infantis. Esse é o campo de trabalho da arquiteta Adriana Freyberger. Em sua atividade de consultora, escolheu trabalhar com a rede pública, especialmente as prefeituras, a quem cabe a responsabilidade constitucional pela educação infantil. “Tenho tido a chance de discutir com os gestores e técnicos municipais, entender a forma como eles pensam, mostrar a importância de discutir espaço e investir em recursos que devem durar muitos anos”, conta.

Nessa área, também há avanços importantes. Adriana procura estimular as creches a renovar parques pensando não apenas nas possibilidades motoras, mas nos aspectos sensórios, e também criando espaços de estar dentro dessas áreas. “Normalmente, os parques são muito áridos. Os educadores dizem que as crianças ficam correndo sem parar, mas precisam ver que não resta nada mais para fazer além disso”, explica. Ela ajuda as equipes a pensarem na reorganização dos espaços para acolher crianças menores que chegam às creches, com atividades desafiadoras.

Segundo Adriana, é essencial que as escolas públicas evoluam para oferecer o período integral a todos, como já acontece nas privadas, e que as crianças possam ter um tempo rico de atividades que promovam a interação e a criatividade. “A escola deve ser um espaço onde as crianças possam ter maior contato com espaços mais naturais, que não sejam tão preparados, que tragam desafios. Hoje, as crianças não sabem mais cair, porque tudo é mais emborrachado, arredondado, e perdem a ideia de se proteger, mas isso é também importante”, finaliza.

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