Sobre o ensino chamado disruptivo e veloz

Dois mitos esquisitos que estão sendo vendidos na bula do chamado ensino híbrido: o progresso e a inovação imediata

Por Fernando José de Almeida *: Muitas das novidades em educação chegam a galope, anunciam-se como disruptivas, inventam-se como nunca pensadas e como a solução definitiva dos mais graves problemas. Elas se apresentam sempre como um avanço incontornável.

Vamos falar aqui do progresso sem fim e do atendimento imediato dos desejos. 

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Tal ideologia da rapidez das inovações e do progresso contínuo é recorrente também na história da economia, da ciência e da cultura. Cada época da história, da cultura e da ciência se entende como a mais avançada e como se jamais pudesse ser superada por algo diferente.

Aqui vamos nos debruçar sobre dois mitos que estão sendo vendidos na bula do chamado ensino híbrido: o progresso e a inovação imediata.

Fernando José de Almeida

O primeiro – presente como dístico em nossa bandeira – é comumente entendido como o aumento sempre maior do conhecimento e das capacidades humanas que visa a dominação cada vez mais universal do meio humano e natural. O resultado desse progresso, promete-se, é a riqueza social crescente. No entanto, o desenvolvimento, crescimento e progresso constantes ditados pela produtividade não só são feitos pela exploração constante da natureza (ela mesma esgotável) como a partir da dominação universal dos seres humanos, para os quais a produtividade pouco reverte.  

É dentro deste cenário de ‘progresso’ que as tecnologias da informação e da comunicação se oferecem aos usuários. Elas são suportadas pelas big data, pelos aparelhos de comunicação como os smartphones, pelas redes universais da internet ou pelas redes de serviços de atendimento ao consumidor. A indústria, a agroprodução massiva, o comércio e a indústria as veneram.  

E por que tenho a suspeita que essa ideia é um ‘mito’ quando se trata de educação? Porque o tal progresso inovador promete, mas não consegue entregar valores educacionais que são de outra dimensão que não a exploração constante da natureza nem das pessoas para um progresso e trabalho sem fim. Esse ciclo ininterrupto de produção e consumo leva-nos a todos à desvalorização da felicidade e do prazer, substituindo-os pela satisfação ligada à produtividade social abstrata e infindável. 

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O outro mito, trazido no bojo do ensino dito inovador, que vê na tecnologia a sua máxima esfinge inspiradora é o mito da velocidade. O senso da rapidez é marcado pela busca do eterno. O mito de um tempo sempre presente. Todos os momentos adensados em um só e constante. Como nenhum ser humano tem esse poder atribui-se aos deuses os poderes da ubiquidade e da sincronicidade constante. É um atributo dos deuses a velocidade instantânea.

Vejamos o papel das velocidades no ensino e na aprendizagem. Vamos às operações da memória e da velocidade do acesso aos dados que aguçaram em nós o desejo de percorrermos os fenômenos humanos nas franjas da velocidade da luz. E os dados fazem estes trajetos impulsionados pelos padrões da velocidade da luz. No entanto, o acesso vertiginoso ao mundo dos dados não significa que nossos processos mentais completem neles o complexo fluxo da aprendizagem. O acesso aos dados é um primeiro passo estimulante, fundamental, mas impreciso e incompleto – quando se fala de conhecimentos complexos e articulados. As operações orgânicas de um raciocínio ou de uma experimentação sinestésica-corporal, emotiva ou estética se completam guiadas não pela instantaneidade, mas pela atenção, reflexão e assimilação para as quais acorrem as ações de um conjunto de órgãos. Por isso, as promessas embutidas no uso massivo de ensino online trazem um mito para resolver rapidamente o problema de longa duração, às vezes necessária para assimilar os processos cognitivos, mas não o fazem. Dentro da sociedade marcada pela ideologia de que tempo é dinheiro, defende-se como necessária a rapidez para o atendimento dos resultados estudos. Equivocadamente se atribui o prazer do aluno à satisfação imediata das respostas do mesmo às suas questões. Que questões são essas? O que significa resolução rápida e motivações rápidas do desejo de aprender? Aprender muitas operações ou desfrutar das delicadezas de uma aprendizagem compreendida e vivida?

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A aprendizagem, como a amizade, a alimentação, o carinho e a segurança se constroem com o fator tempo. 

A aprendizagem não é um ato solitário (ninguém aprende sozinho), dizia Paulo Freire, mas também ninguém ensina a ninguém (a aprendizagem não é imposta). E ele continua, “os homens se educam mutuamente mediatizados pela realidade”. As mediações necessárias à aprendizagem são múltiplas, específicas e duradouras nos territórios, nas culturas, nos corpos e mentes dos aprendizes. O tempo é um mestre nesse processo. 

Os professores são mediadores especiais desses ritmos e momentos. Pacientes, eles podem definir o bom tempo. Conhecem o dia a dia da classe, das crianças e dos territórios. Eles acompanham a postura corporal, as alegrias, as desconcentrações, os êxitos, a relação com a classe…. são todas mediações a serem consideradas no tempo próprio da aprendizagem de cada um no contexto do mês letivo, da relação com os outros, nas condições psicológicas e das tensões sociais em que nossos alunos vivem. 

Por isso, a ideia de eficácia da urgência temporal para aprender assim como a aprendizagem para a produção carecem de uma contextualização não apenas da sua adequação a um currículo humanizado, como da sua inserção no território e de sua perspectiva de ter no currículo e no professor dois dos grandes articuladores do ato de ensinar e aprender.

* Fernando José de Almeida é professor de pós-graduação em educação: currículo na PUC-SP e foi secretário municipal de Educação da cidade de São Paulo (2001-2002).

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