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NOTÍCIA

Edição 279

Do professor teatral ao cinematográfico, as novas linguagens da educação

Ex-ministro da Educação analisa o papel do professor (vai virar roteirista), dos governos (precisamos ter governos educacionistas) e ensaia o que pode ser para o setor educacional a transformação muito rápida do mundo

Publicado em 24/09/2021

por Paulo de Camargo

O currículo do educador, escritor, engenheiro e economista Cristovam Buarque não deixa dúvidas sobre sua importância para a história da educação brasileira. Conhecido como um visionário e idealizador de propostas como a da Bolsa-Escola (posteriormente incorporada ao Bolsa Família), foi reitor da Universidade de Brasília, governador do Distrito Federal, ministro da Educação e cumpriu três mandatos como senador da República. Mas, em 2021, deixará também seu nome registrado em uma ação de consequências planetárias: Buarque é único brasileiro entre os 15 integrantes da comissão nomeada pela Unesco para a iniciativa Futuros da Educação, que ainda este ano publicará um documento trazendo recomendações para o ensino dos próximos anos. Nesta edição comemorativa dos 25 anos da revista Educação, Cristovam Buarque traça uma perspectiva dos avanços e dos desafios que o ensino brasileiro tem pela frente.


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(Paulo) O senhor faz parte de um seleto grupo de personalidades que integram a iniciativa da Unesco denominada Futuros da Educação. O que é essa iniciativa?

(Cristovam) Sim, o convite chegou pela Unesco, provavelmente porque tenho uma relação antiga com essa organização pela qual tenho profunda admiração e na qual acredito muito. Foram escolhidas 15 pessoas em todo o mundo para construir uma reflexão sobre o futuro da educação, sob a liderança do educador português António Nóvoa. Essa é a terceira iniciativa nesse campo, nas últimas décadas. A primeira foi o conhecido trabalho coordenado por Jacques Delors (Educação: um tesouro a descobrir), em que se apresentou ao mundo os quatro pilares da educação. Nós somos os continuadores dessa discussão. Mas há uma diferença importante entre aquele momento e o tempo atual. Não era ainda tão perceptíveis as mudanças de paradigma que vivemos. Um exemplo simples, que se tornou evidente na pandemia, é a difusão do ensino remoto. Antes, era uma hipótese, hoje é realidade. Há outras mudanças, entre elas, a ideia de que tudo está integrado e devemos pensar sobre a educação de crianças e jovens de todo o planeta, independentemente dos países onde elas estejam. A realidade agora é planetária e a humanidade é o tema. Por fim, devemos lembrar das novas técnicas que surgiram desde então, como a inteligência artificial, que nos leva a saber que a escola do futuro não será a simples continuação da escola de hoje. Será algo novo.

A iniciativa da Unesco será divulgada? Que impacto o senhor espera?

Haverá um documento, traduzido em muitas línguas e disponível para todos. Fizemos a primeira reunião no início de 2020, ainda antes de a pandemia se alastrar, e depois tivemos reuniões remotas quase mensais. Atualmente, praticamente já fechamos o conteúdo, está sendo feita a revisão do texto. Mas a ideia é que seja um relatório dinâmico, em uma plataforma, modificado e complementado a cada momento. O nosso título atual é Aprender para viver juntos, em uma tradução livre. A ideia de estarmos juntos como um projeto humano é o que está presente no documento, trazendo a necessidade de construção de um novo contrato social pela humanidade, com a visão da educação como um bem comum. Eu creio que essa iniciativa poderá ser influente como foram os quatro pilares, mas creio que vai durar menos tempo, pela dinâmica pela qual as coisas mudam atualmente. Por isso, já estamos tomando a precaução de reconhecer que é um documento provisório, em produção sempre. Antes havia mais certezas sobre os assuntos. A ideia do que vai ser a educação no futuro rapidamente vai se modificar.

A noção de educação como um bem comum aproxima a escola dos grandes temas globais, na construção de uma cidadania planetária?

Sim. Essa é uma questão complexa, e vamos separar o que virá no texto da Unesco, construído por essa comissão, e minhas opiniões pessoais. Logo pretendo escrever um livro sobre essas questões. Tenho trabalhado muito sobre a ideia de que um dos grandes problemas contemporâneos é que o avanço técnico foi muito mais veloz do que o processo de tomada de decisões. A política hoje é uma atividade superada em relação à técnica, e não só por causa das ferramentas. Por exemplo, percebemos agora que o parlamento não precisa se reunir presencialmente sempre, pode fazer reuniões remotas. Eu apresentei essa ideia ainda quando era senador, bem antes da covid-19, pois minha proposta se baseava no conceito de que os políticos deveriam ficar perto de seu eleitor. Mas isso se resolve fácil, são ferramentas. O problema é que o conceito mesmo de política e do modelo de democracia estão correndo o risco de ficar superados, atropelados pela realidade.

E por que o senhor acredita nisso?

Por exemplo: os grandes problemas de hoje da humanidade não são enfrentados pela política, nem pela democracia, porque a democracia cuida do nacional e o eleitor vota pensando no curto prazo e no mundo ao seu redor.

Por isso, questões globais como a migração ou como os problemas climáticos têm dificuldades de superação. O eleitor pensa no seu país, não pensa no planeta. Confesso que sou pessimista sobre se vamos conseguir deter a catástrofe ecológica, que aliás já deve ter acontecido e a gente ainda não percebeu. Planeta e humanidade ainda são conceitos de astrônomos e de filósofos. Mas têm de hoje entrar no dia a dia de todos.

Por isso, creio que a educação pode ir na frente da política, pois a questão é mudar a mente. Acho difícil os políticos mudarem antes de se transformar a mente das pessoas. Creio que os conflitos só serão resolvidos quando tivermos de fato a educação para a paz, para todas as crianças e adolescentes.

O senhor sempre foi considerado um visionário. Como será a escola do futuro?

Quando penso na educação do futuro, tenho pessoalmente insistido na ideia de que nós temos de passar das aulas no modo teatral para as aulas no modo cinematográfico, no sentido de encontrarmos uma linguagem nova. Os professores, inclusive eu, éramos atores teatrais, na frente dos alunos, em um palco, com um cenário cujo fundo era um quadro-negro.

Hoje, o cenário não é mais a lousa, mas a tela de um computador. A sala de aula não é feita de giz, mas um espaço para o qual podemos trazer aquilo sobre o que falamos. A aula é interativa, com ferramentas como o Google, o YouTube, e poderá ser difundida para um ponto em qualquer lugar do mundo para todos, em uma linguagem pedagógica mais próxima do cinema do que do teatro.

Cristovam Buarque educação

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Dá para imaginar que esse teatro também está mais próximo do monólogo do que da interação, e deve se realizar com a presença de novos protagonistas…

Basta lembrarmos o que ocorreu quando saltamos das artes dramáticas para o cinema, há um século. Assim como não desapareceu o teatro, não vão deixar de existir salas de aula, nem professores carismáticos, mas creio que haverá uma mutação em que os professores serão mais os roteiristas da aula do que os apresentadores. Peguemos um professor de história em uma aula sobre a Era Vargas. Esse professor fará o roteiro de uma peça pedagógica cinematográfica, em que ele poderá colocar Getúlio Vargas na sala de aula, trazendo o Brasil daquele tempo para a classe, usando recursos que já existem hoje no cinema. Possivelmente, esse professor vai estar acompanhado de profissionais que cuidem dos efeitos especiais e, para completar, publiquem tudo na rede. O processo não acaba ao se clicar no link, mas implica saber como o aluno pode mergulhar no tema e se aprofundar, com o uso de tecnologias como a da inteligência artificial. Talvez tenhamos até professores que não vão existir fisicamente, mas serão manifestações dos algoritmos, capazes de responder a perguntas, como avatares. O cinema não fez sucesso por ser um teatro filmado: trouxe uma linguagem nova. Vamos ter de colocar mais semiótica na sala de aula, e não dá para exigir isso de uma pessoa apenas. A aula vai deixar de ser um trabalho artesanal também, como ainda é.


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Como o senhor contaria a história da educação brasileira nas últimas décadas?

Eu poderia dizer que a educação brasileira ainda não tem propriamente uma história. O que nós temos é a história do pensamento pedagógico. A história do ponto de vista do avanço da qualidade e da equidade – e eu tenho usado o neologismo equicelência, para dizer que não interessa a igualdade da má qualidade –, bem, essa história não temos. Ao longo dos anos, a escola nem adquiriu qualidade, nem se distribuiu para todos. Mesmo assim, houve avanços. Podemos pensar nas últimas décadas, desde quando o ex-senador João Calmon (1916-1999) trouxe a ideia de que era preciso priorizar a educação no orçamento. Depois, tivemos a universalização da merenda, do livro didático, o Fundef, o Fundeb, as duas edições do Plano Nacional de Educação, agora a BNCC… Houve avanços na inclusão dos alunos, certamente, mas essa ainda não é a história de que a gente precisa. Se compararmos a educação com as estradas, a televisão, a indústria que temos, vemos que houve avanços, mas deveria ter havido muito mais… Isso aconteceu porque não tivemos governos educacionais – outro neologismo.

E o que são os ‘educacionistas’?

Já tivemos presidentes que disseram, por exemplo, que “governar é construir estradas”, como fez Washington Luiz. Mas nunca tivemos um que dissesse: “Governar é fazer escolas”, ou “Governar é colocar o Brasil entre os cinco melhores no Pisa” ou “Governar é garantir que o filho do pobre tenha escola tão boa quanto a do rico”.

Não tivemos presidente, nem partidos que dissessem isso. Na história da educação, melhoramos, mas sem dar o salto. Pior, vimos crescer três brechas. A primeira é que os ricos melhoraram muito mais do que os pobres. Um exemplo: idiomas. As escolas públicas não tinham aulas de inglês para todos. Hoje já têm, mas os ricos colocam os filhos em escolas bilíngues e ficam seis meses fora em intercâmbio.

Há também a brecha entre o Brasil e outros países. Nós avançamos, mas os outros estão melhorando mais. A brecha mais preocupante é a diferença entre o que ensinamos e as necessidades das pessoas no mundo atual, que chamo de analfabetismo contemporâneo. Saber uma língua a mais que o português, saber usar as ferramentas da contemporaneidade (como computador), terminar a educação básica tendo um caminho profissional, sermos capazes de aprender depois que saímos da escola… todas essas são formas de alfabetismo contemporâneo que não temos. Estamos melhorando, mas ficando para trás, e isso não é um problema da pedagogia. É da falta de educacionistas. Educador é aquele que diz como deve ser a sala de aula. Educacionista é o que diz como deve ser o sistema para que o educador possa levar adiante sua pedagogia. Temos grandes pedagogos em nossa história, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, por exemplo, mas o educacionismo não penetrou na política brasileira. Para mim, esse é o maior problema.

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Paulo de Camargo


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