Educando para a identidade planetária

Neste ano de 2021, em meio a tantos novos desafios, aprendizados e conquistas que se instalaram em nosso cotidiano, um evento em especial traz em si a tradução do mundo que estamos aprendendo a habitar. Edgar Morin, homem de seu tempo, de todos os tempos de sua longa trajetória, completou 100 anos.

Com intensa participação nos eventos do século XX e deste nosso início de milênio, com olhar agudo que percebe as mais diversas manifestações do espírito humano, Morin tem pensado e escrito incansavelmente sobre a educação. Uma educação que permita a cada um constatar que é um cidadão da Terra, que esta é sua comunidade de origem e de destino, e pautar suas escolhas à luz dessa identidade planetária.

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O alicerce

É a esse conceito de educação a que o Cel.Lep se subscreve, promovendo a consciência ampliada de nosso lugar e percurso no planeta em todas as faixas etárias e níveis de proficiência linguística.

Na virada do século e entrada do novo milênio, em seu livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro[1], Morin discorre, em suas próprias palavras, sobre:

“[…] sete saberes “fundamentais” que a educação do futuro deveria tratar em toda sociedade e em toda cultura, sem exclusividade nem rejeição, segundo modelos e regras próprias a cada sociedade e a cada cultura”, Morin (p. 13)

Duas décadas passadas e em contexto pandêmico, percebemos com renovada clareza como esses saberes são alicerces para um mundo em completa conexão, em que a luz do conhecimento que se acende a milhares de quilômetros vai permitir que melhor enxerguemos em nosso canto do mundo, assim como a luz que se apaga trará também a nós a escuridão.

Um mundo em que na “educação para a identidade terrena”, o quarto saber que nos indica Morin, os alunos constroem e consolidam, a cada etapa de sua jornada no aprendizado da língua inglesa, a consciência de sua identidade como habitantes do planeta e seu papel na comunidade planetária.

identidade planetária

Foto: Shutterstock

A educação infantil

Ao chegar pela primeira vez à escola, a criança deixa um pequeno recorte de mundo em que suas percepções são filtradas pela cultura familiar. Na escola vai encontrar uma comunidade ampliada, em que há crianças como ela, mas ao mesmo tempo não como ela. São rostos diferentes, olhos e peles de cores diversas, cabelos de vários comprimentos e texturas, gostos, personalidades, talentos diversos. E o adulto atento e carinhoso que não é a mãe, o pai, a avó, é um desconhecido que se torna referência compartilhada por todos os que compõem um pequeno novo mundo.

Nas aulas do Cel.Lep, esse mundo amplificado ganha dimensão aprofundada quando a criança se vê imersa na língua inglesa.  Enquanto brinca, canta, ouve histórias e vive parte de seu dia em inglês, seu pequeno recorte de mundo se alarga para abrigar a descoberta do novo olhar para o até então conhecido. O cachorro também é dog e continua a ser cachorro, com todos os atributos que o tornam cachorro. O céu azul é também um blue sky e lá está, a nos acolher todas as manhãs.

Diz Morin (p.56) que somos “gêmeos pela linguagem e separados pelas línguas”.

Essa descoberta-chave de que há várias maneiras de se descrever as coisas que vemos, ouvimos e tocamos, que nos comunicamos por meio de muitas línguas possíveis, multiplica-se em infinitas novas descobertas. Plantam-se, assim, sementes robustas da identidade planetária em meio a canções, jogos e narrativas.

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O ensino fundamental

Nessa etapa, fundamentamos no Cel.Lep o processo de ensino e aprendizagem do inglês como língua franca, o campo comum onde indivíduos das mais diversas culturas podem se encontrar e interagir de forma significativa. Promovemos em nossas crianças oportunidades de conhecimento de que nos fala Morin (p.61), que levam à tomada de consciência “da condição comum a todos os humanos e da muito rica e necessária diversidade dos indivíduos, dos povos, das culturas sobre nosso enraizamento como cidadãos da Terra…”

Esse processo se inicia de forma condizente com uma fase de desenvolvimento em que as crianças se maravilham com o mundo natural e com narrativas que possam dar significado ao que conhecem.  Entre muitas atividades, trazemos para os alunos histórias especialmente escritas por nós e que, por meio de projetos integrados aos vários componentes curriculares, visam fomentar o respeito à natureza, de que somos parte, e a empatia e solidariedade destinadas aos diversos membros da comunidade humana.

À medida que constroem suas identidades sociais, fora do círculo familiar, o estudo da língua inglesa continua a se expandir para além dos limites do conhecimento do idioma, tornando-se meio de decodificação do mundo e das muitas vertentes da ciência, da arte e da atividade humana de forma geral.  Torna-se fundamental para que nossos alunos possam desenvolver o que Morin chama de “ética da compreensão planetária” (p.78)

O ensino médio

As atividades desenvolvidas pelo Cel.Lep permitem que os alunos nessa fase mobilizem os conhecimentos linguísticos e extralinguísticos que vêm construindo para que se possam posicionar a respeito das muitas questões que lhes são apresentadas, colocando-se de forma assertiva e autônoma.  Não apenas podem agora expressar-se para o mundo, mas, e principalmente, têm na língua inglesa uma ferramenta preciosa para que compreendam a expressão do outro, esse outro que pode estar em qualquer canto do planeta, com quem dividem a mesma condição humana e com quem podem intercambiar tantas manifestações particulares de suas culturas.

Assim nos convida Morin:

“Precisamos doravante aprender a ser, viver, dividir e comunicar como humanos do planeta Terra, não mais somente pertencer a uma cultura, mas também ser terrenos.” (p. 76)

Essa é a perspectiva que trazemos para nossos jovens do ensino médio e para os alunos adultos em nossos cursos: a língua inglesa como possibilidade de interlocução planetária, de congraçamento de culturas, de ações conjuntas e de uma identidade compartilhada.

Em meio às inúmeras e afetuosas celebrações pelo centenário de Edgar Morin e à felicidade pela comemoração dos 54 anos do Cel.Lep, fazemos com alegria redobrada o trabalho de tantas décadas dedicadas à aproximação entre as pessoas e à construção identitária de nossos alunos como cidadãos conscientes, compassivos e solidários do planeta em que todos vivemos.

Por Inara Couto e Ana Tereza Moreira – Departamento Acadêmico do Cel.Lep.

[1]  Segunda edição, São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco.

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