Canal Futura se reinventa e lança projetos pedagógicos que dialogam com os novos tempos

Diretor da área que engloba o Canal Futura, João Alegria revela os próximos caminhos desse meio televisivo em meio ao contexto social e educacional pós-pandemia

Tão logo surgiram as primeiras notícias de que um vírus potencialmente epidêmico estava circulando na China, a equipe do Laboratório de Educação (LEd) da Fundação Roberto Marinho prontamente começou a mapear o comportamento das TVs educativas. O Canal Futura, uma das principais iniciativas sob o guarda-chuva do LEd, estava se rediscutindo internamente e a propagação do vírus acelerou as transformações. Ao final do período de isolamento social, uma nova TV também emergirá, com boas novas ousadas, como as matrizes curriculares para a Educação de Jovens e Adultos, um novo modelo de formação de professores e outros projetos alinhados aos novos tempos. Uma mistura que chama de Harvard com borogodó, como resume o diretor do LEd, João Alegria.

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Historiador acostumado ao estudo das grandes transformações sociais, Alegria acha que um novo futuro virá. Embora não se inclua no rol dos profetas de uma nova era, acredita que será mesmo necessário repensar a educação pós-pandemia, inclusive discutindo se foi acertada a opção pelo online feita no Brasil neste momento, quando a maior parte das escolas e educadores da rede pública ainda não estavam preparados, em detrimento de recursos como o rádio e a TV.

Nesta entrevista concedida à Educação, João Alegria fala sobre os novos projetos do LEd, do Canal Futura e das perspectivas para a educação.

Em primeiro lugar, para entendermos, qual é o lugar do Canal Futura nas ações da Fundação Roberto Marinho?

O Canal Futura funciona dentro do LEd, que é a diretoria operacional na qual são desenvolvidos e implementados todos os projetos educacionais da casa. É o nosso grande canal de distribuição por múltiplas telas de todas as soluções educacionais da Fundação. São diversas soluções, como o Telecurso ou o Aprendiz Legal, voltadas para a qualificação de jovens, usando dispositivos da Lei de Aprendizagem. Há 115 mil jovens beneficiados pela qualificação oferecida pelo Aprendiz Legal, que tem como parceiro o Centro de Integração Empresa Escola (CIEE).

O Telecurso é uma das iniciativas mais lembradas de vocês, não?

Sim, é curioso que mesmo as pessoas das gerações mais novas conhecem o Telecurso, mas o associam com aulas na TV e livros comprados em bancas de jornal. Mas isso já não é assim desde 1995, pelo menos. Apesar de serem as mesmas teleaulas, a audiência bomba. Agora, o Telecurso está sendo transformado em uma solução educacional para ser implementada com redes públicas em projetos de correção de fluxo e para educação de jovens e adultos. Durante os anos 1990, foi desenvolvida uma metodologia para que elas pudessem ser oferecidas em sala de aula nessas duas modalidades, que citei, mas estavam sem renovação. A partir deste ano, serão integralmente renovadas.  Será algo muito diferente do que é hoje.

E por que será diferente?

Por uma razão muito importante, de um trabalho inovador feito pelo LEd. Acabamos de lançar as Matrizes Curriculares da Fundação Roberto Marinho para a Educação de Jovens e Adultos. Foi um trabalho muito relevante, feito em parceria com o Instituto Reúna, sob a coordenação técnica da educadora Kátia Smole, ex-secretária Nacional da Educação Básica. Essas matrizes preenchem a lacuna gerada após a publicação da BNCC da Educação Infantil, do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Agora, a matriz para a EJA que propomos está aberta, no site da Fundação, para qualquer pessoa ou instituição. A partir dessa base, vamos reorganizar a produção para o Telecurso e diversos outros projetos.

Canal Futura reinvenção

A TV ocupou lugar importante nos países que estavam sofrendo com a pandemia e o Canal Futura está de olho nisso

Você se refere a conteúdos ou também à matriz de competências?

À matriz de competências e habilidades, especialmente. Claro, todas as habilidades são importantes, mas nesta proposta definimos aquelas que são essenciais para as demais aprendizagens. Chamamos a essas de habilidades focais e, às demais, de complementares. Por exemplo, na base nacional curricular do Ensino Fundamental – Anos Finais, relacionam-se habilidades necessárias para compreender o funcionamento da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas, nessa etapa da educação, é essencial que compreendam as relações espaciais, temporais, cartográficas. Se conseguir desenvolvê-las, pode ser que esse aluno consiga entender o que é a OMC simplesmente lendo uma notícia de jornal. Se não estiver preparado do ponto de vista conceitual, será mais difícil para que a entenda.

Parece passo oportuno, já que estamos às vésperas dos prazos da reforma do Ensino Médio e também teremos a retomada das aulas em que os alunos estarão em níveis muito descompassados de aprendizagem…

Sem dúvida. Isso será muito útil, porque as redes escolares terão agora que reexaminar seus currículos pensando nas habilidades focais para concluir o ano letivo. Terão de escolher o que é mais importante. Esse documento auxilia nesse diálogo. No caso da Reforma do Ensino Médio, que vem por aí, isso ainda é mais relevante. Para essa etapa, a matriz curricular da Fundação é praticamente a única referência, nesse momento em que a transição entre os modelos não foi definida. A nossa matriz curricular pode ser compreendida como um primeiro documento curricular para o novo Ensino Médio, organizado por competências, área do conhecimento, propósitos da BNCC, estabelecendo relações entre as competências. É uma entrega importante da Fundação Roberto Marinho para a sociedade brasileira.

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E isso permite o desenvolvimento de soluções do LEd e do Canal Futura?

Vamos pensar materiais a partir das matrizes, para muito além do Telecurso. As soluções estão sendo pensadas na lógica de multimodalidade, pois vivemos um tempo de linguagens múltiplas. Temos a TV, Museu e outros recursos. A matriz curricular permitirá aprimorarmos a curadoria de conteúdos, filmes, produções artísticas. Entendemos que há uma multiplicidade de linguagens em uso e precisamos nos alfabetizar em todas elas pra sermos fluentes como cidadãos. Tudo forma um grande projeto educacional. As matrizes são orientadoras de todo esse fazer.

Tudo isso foi acelerado com o advento da pandemia e já estava em gestação ou são iniciativas já previstas?

Quando veio a pandemia, estávamos já prontos.  Havíamos visto no ambiente internacional que a TV ocupou um lugar importante nos países que estavam sofrendo com a pandemia. Foi o caso da China. Tínhamos mapeado o que acontecia e sabíamos que, se chegássemos a um índice alto de contágio, nos caberia fazer algo. Quando as escolas foram fechadas já havíamos criado faixas de programação para apoiar alunos de Ensino Fundamental e Ensino Médio que estariam em casa. Em meados de março, entramos com uma grade de programação especial, com reprises de manhã, tarde e noite, e fomos desdobrando outras ações. Entregamos muitas contribuições nesse momento de pandemia.

Pode citar alguns exemplos?

Por exemplo, a faixa Estude em Casa. Conseguimos publicar um guia para professores com dicas em vídeo conectadas ao guia, ajudando-os a se preparar para a produção de audiovisual com ferramentas amadoras como celular, dentro da metodologia usada no Canal Futura. Ao mesmo tempo, temos uma playlist com tutoriais no YouTube mostrando aspectos que eram tratados no guia. Lançamos série de podcasts. Isso não existia, fizemos na pandemia. Assim, como os cursos online para professores aproveitarem esse momento e estudarem. E, por fim, produzimos o projeto Telas Abertas, voltado para a família.

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O olhar para o ambiente da família é muito importante, não é? É preciso pensar na saúde mental, no equilíbrio emocional…

Temos muita preocupação com o ambiente doméstico, em todos os aspectos: saúde, estabilidade econômica, segurança, violência. Conseguimos um parceiro para esse projeto, o Instituto Votorantim, e hoje temos uma linha de distribuição por WhatsApp de conteúdo para famílias, na forma de cards com mensagens e links para conteúdos ou serviços. É um serviço muito adaptado ao modo como a informação circula no mundo atual. Ao mesmo tempo que falamos na tela da TV, vemos que há um planeta que se comunica por outros caminhos.

O Brasil, que tem uma tradição tão forte de TV e Rádio, não poderia estar utilizando mais essas mídias? O foco no digital não aprofundou desigualdades?

Sim, precisamos refletir sobre o que aconteceu, como sociedade. Poderíamos estar usando mais TV, mais rádios… Em algum momento, surgiu a visão de que a salvação estaria na conectividade, na interatividade, e isso se tornou uma espécie de obrigação. As redes públicas se viram na obrigação de prestar serviços educacionais digitais para os quais não estavam minimamente preparadas. Isso foi elevado à condição de verdade antes que se fizesse uma avaliação mais profunda das reais condições para que acontecesse. É preciso reconhecer que houve um esforço grande das redes educacionais para tentar fazer entrega para a qual foram cobradas. Mas seria essa a melhor forma? Essa pergunta deveria ter sido feita e poderia ter levado a respostas diferentes daquelas a que se chegou, em muitos lugares.

Teríamos de ter pensado em soluções para locais e contextos diferentes?

Sem dúvida. A tecnologia precisa ser pensada como parceira constante da educação, mas incluída em um projeto pedagógico coerente e partindo de conhecimento prévio das reais possibilidades dos diferentes públicos e redes. A solução deveria ter sido diferente para cada localidade. É o conceito do hiperlocal sobre o qual trabalhamos hoje. Temos acompanhado as pesquisas feitas, e todas levam a crer que muitos alunos e professores não conseguiram se engajar em nenhuma alternativa proposta. Há muitas pessoas que realmente estão fora do sistema e não têm condições de se engajar. No retorno, vamos precisar rediscutir isso. A reabertura das escolas vai trazer a possibilidade de pisar de novo no prédio escolar, mas a partir de um conjunto enorme de restrições, protocolos sanitários, e a nossa infraestrutura escolar não poderá receber a todos os alunos. A tecnologia continuará presente, mas precisa ser reconduzida a um ponto de equilíbrio ou vai realimentar os mecanismos cruéis que geram fracasso escolar e desigualdade.

E agora, para onde vai o Canal Futura?

Neste momento, já entendemos que a visão de futuro que tínhamos não vale mais, e precisaremos encontrar caminhos que façam sentido no novo contexto. Sairemos profundamente transformados. O mundo acabou produzindo nova interação para um contingente grande das pessoas – e, se excluiu muita gente por falta de conectividade, também as aproximou pela mesma razão. Temos de pensar em mais produções em rede, de forma mais horizontal, com a participação de muitas pessoas. Estávamos, por exemplo, no meio do caminho para criar uma solução de formação de professores e entendemos que seria preciso recomeçar do zero, deixar de lado receitas prontas, planos de aula pré-preparados. Agora, vamos trabalhar com o que estamos chamando de Inteligência Pedagógica, para preparar o professor para olhar para o redor, ler o contexto. Será uma formação baseada em comunidades de aprendizagem, desenvolvimento de aplicativos, mais mão na massa, educação por projetos, mais horizontal, menos focada em produto pronto. Esse é um exemplo. Serão mais modelos distributivos, menos verticais, conciliando produção profissional e semiprofissional, indivíduos e empresas. É Harvard com borogodó. Se não tiver borogodó, não rola. A planilha não dá conta.

Futura vive um momento de vitalidade, não é? Pode vir a ocupar o lugar que vem sendo deixado pela TV Escola, por exemplo?

É um momento de surpreendente vitalida. Mas é preciso que seja fortalecido todo o campo da produção educacional e cultural. Você pergunta sobre a TV Escola. Sempre houve uma diferença clara entre os dois canais, surgidos quase ao mesmo tempo. A TV Escola começou em 1996, com o DNA MEC e foco em educação formal, escolar. A Futura já veio como uma iniciativa de educação mais ampliada, para quem aprende por toda a vida. Por isso aqui coube um currículo com olhar para a educação empreendedora, a filosofia, a estética, ou seja, uma perspectiva mais universalista. Eu acredito mais nisso. Mas tentamos sempre manter o diálogo com todos. Estamos juntos no campo de comunicação ao qual pertencemos. Qualquer ameaça a qualquer parceiro é uma ameaça a nós mesmos. E estamos fragilizados, pois projetos que bebiam de uma plataforma social de discussão pública sobre comunicação foram abortados, nos últimos 15 anos. Foram deixados para trás projetos de conectividade pública, ao redor da TV aberta digital. Centenas de TVs educativas, universitárias, comunitárias fecharam, e ficamos em um grupo reduzido, com pouca diversidade. É uma pena. Governos que dialogaram com esses projetos da sociedade foram mais bem sucedidos no campo da comunicação e da cultura.

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