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Educação no Mundo

Definição precoce

Na França, futuro profissional é decidido na adolescência; disparidades no ensino médio fazem elite se perpetuar nos postos do poder

Publicado em 10/09/2011

por Lúcia Müzell





Estudantes fazem a prova de filosofia do exame nacional Baccalauréat, no Liceu Chaptal, em Paris, uma das instituições de ensino mais tradicionais da França

Não é só no Brasil que o ensino médio é encarado como um momento-chave no futuro educacional dos jovens. O lema que proclama liberdade, igualdade e fraternidade na República Francesa esconde uma realidade bem diferente para os adolescentes em vias de decidir o futuro. Desinteresse, falta de recursos ou entrada precoce no mundo do trabalho se intensificam em um sistema no qual os menos favorecidos têm 20 vezes menos chances de conseguir um lugar de destaque em uma sociedade que, por tradição secular, perpetua as elites no poder. Na França, "menos favorecidos" são aqueles cuja renda familiar está em torno de 1.343? – valor do salário mínimo local, equivalente a R$ 3.440. Essas famílias costumam receber ajudas adicionais do governo, que podem atingir até 1.000? a mais.

O assunto vai e volta na imprensa num ritmo impressionante. Na última das polêmicas, o governo da França e as grandes écoles francesas – instituições de formação de excelência em nível superior em que 90% dos estudantes são "de família" -, se enfrentaram em torno de uma proposta do Estado segundo a qual as instituições deveriam passar a receber 30% de alunos bolsistas até 2012. Mais uma vez, sobrou para o ensino médio – chamados de estudos secundários -, cujas disparidades na qualidade foram de pronto apontadas pelos diretores de grandes écoles como a principal causa para os níveis tão baixos de admissão entre as classes baixas.

E não se pode negar que eles têm razão. Enquanto a média nacional de aprovação é de pelo menos 80% dos alunos no Baccalauréat (ou simplesmente Bac), o exame nacional obrigatório para o ingresso no ensino superior, essa porcentagem cai para 50% entre os filhos de trabalhadores.


O desafio dos liceus


Mas também não se pode dizer que o ensino seja ruim – longe disso. A principal lacuna se forma, na realidade, na hora de estabelecer qual o tipo de Bac os jovens de origem modesta poderão conseguir.  Dependendo do histórico escolar, os estudantes não têm sequer direito de tentar os Bacs mais prestigiados, como o científico, destinado para a área de exatas, a porta de entrada inicial para as grandes écoles de engenharia, administração e comércio.

Um exemplo: Jean-Pierre, estudante de um colégio ordinário em Saint-Dennis, na periferia norte de Paris, perdeu o pai quando estava no penúltimo ano do ensino fundamental. Por conta do trauma, acabou repetindo o ano e continuou com notas baixas, porém suficientes, até o final do primeiro ciclo da escolaridade. A surpresa veio quando sua mãe foi inscrevê-lo no liceu para iniciar o ensino médio: Jean descobriu que suas notas lhe permitiam ingressar somente em um estabelecimento profissional que visa a formar para carreiras técnicas como eletricista ou padeiro, através de um Bac profissional obtido ao final dos estudos. Ou seja, a sorte de Jean-Pierre estava lançada aos 15 anos de idade.

"Minha mãe teve de implorar para que eu pudesse entrar em um liceu comum, porque o caminho profissional é praticamente sem volta", conta o jovem, que agora se prepara para as provas do Bac geral, em junho, que permitem ingressar em qualquer universidade. "Sinceramente, não sei se teria continuado em um liceu profissional. Seria como se não tivessem servido para nada tantos anos de escola."

Nos liceus, o desafio é minimizar as disparidades em termos de exigências de estudos verificadas no cotejo entre estabelecimentos públicos e privados. Superficialmente, as diferenças não saltam aos olhos. Seja em um ou em outro, no Quartier Latin ou na periferia, os alunos dos liceus têm uma carga pesada de aulas: em média, passam seis horas por dia na classe e levam para casa o equivalente a pelo menos mais uma hora de revisão em exercícios. Nos sábados, têm ainda toda a manhã na sala de aula. A diferença é o quanto os alunos se engajam durante todo esse tempo que passam nos colégios.

Como no Brasil, a pedra que trava o sistema é o meio social onde uns e outros vivem. Nas periferias, é comum que as preocupações externas sejam muito mais determinantes do que a solução das equações de matemática: é um pai que, imigrante ilegal, está ameaçado de expulsão, um irmão que se envolveu com quem não devia, uma mãe que precisa de ajuda no pequeno negócio da família.


Dever de origem

Por conta disso, e por mais que lutem contra a maré, os professores da rede pública sabem que não podem exigir de seus alunos o mesmo empenho dos estudantes que, fechados os livros, só têm preocupações como frequentar aulas de piano ou escolher um novo aplicativo para o iPhone. Os jovens que frequentam os colégios tradicionais trazem no seio familiar a inspiração e mesmo a obrigação de um futuro promissor, ao passo que, entre os menos favorecidos, um percurso universitário é muitas vezes um degrau inédito na história da família.

Quentin Le Gall, 15 anos, é um típico aluno da classe média alta francesa. Estuda em um dos liceus privados mais tradicionais da capital, o Stanislas, por onde passaram nomes como o ex-presidente Charles de Gaulle. Filho de pai e mãe normaliens, ou seja, que cursaram a Escola Normal Superior, o jovem teve desde sempre o destino traçado pelos pais: não lhe resta outra alternativa a não ser ingressar em uma grande école. "Estou estudando para o Bac científico e gosto bastante de física e química", explica, antes de fazer ironias sobre os jovens que escolhem os outros tipos de exames, considerados por ele como os "para os menos esforçados". Quentin suspira, e completa, olhar blasé montado no rosto: "de qualquer forma, não tenho outro caminho para seguir".

Primeiro da classe, estuda todos os dias até as 22 horas e só tem as tardes de domingo para se divertir. No seu colégio, como em tantos outros estabelecimentos privados de luxo espalhados pelo país, os alunos são obrigados a terminar os estudos com fluência em inglês e bons conhecimentos em uma terceira língua. "Eu sei que, sendo assim, o meu futuro é garantido. Ainda tenho bastante tempo para aproveitar a vida. Tenho certeza de que o esforço de agora será recompensado mais tarde", diz o garoto, que não foi autorizado pelos pais a ser fotografado pela reportagem.

"A maioria dos problemas tem raiz em uma mesma causa: o elitismo republicano das nossas escolas, a cultura da classificação e da eliminação precoce, a tolerância às desigualdades e à reprodução deste cenário. A escola francesa é muito seletiva, e desde muito cedo", analisa o sociólogo Christian Baudelot, especialista em educação e sociologia do trabalho. "O centro dos nossos problemas se situa na base do sistema: a França não soube se dotar de um verdadeiro tronco comum que consiga assegurar uma formação elevada para o pior dos alunos, que estude no pior dos colégios."

Ele critica o fato de o país estimular cada vez mais os diplomas de elite, o que traz como efeito perverso a desqualificação dos demais, de forma que só quem consegue um bom diploma alcançará uma carreira promissora. O sociólogo afirma que estudos comparativos com outros países desenvolvidos mostram que, quanto mais rico, mais massificada é a educação média de qualidade e o nível superior. "Na França, o sistema vai levando o aluno que está fora da elite ao fracasso desde muito cedo, porque a massificação do ensino superior não é vista como algo positivo."


Medo do fracasso induz à mediocridade


Além de não contar com essa pressão familiar e da sociedade, os estudantes menos abastados são vítimas do objetivo de "repetência zero", fixado pelo governo ao longo dos últimos anos. O plano apareceu em reação aos números cada vez mais alarmantes de abandono precoce dos estudos. Em 2008, verificou-se que um a cada quatro alunos não compreendia o que era dito em aula; do total de alunos com dificuldades de aprendizagem, 84% são de origem modesta e nada menos do que 20% dos 750 mil alunos do ensino secundário estavam deixando a escola sem qualquer diploma ou qualificação. Uma pesquisa do Ministério da Educação constatou que quase todos os alunos que deixavam classes escolares achavam as aulas chatas e monótonas. Em outras palavras, desmotivação pura. 

Mas ao invés de melhorar a qualidade do ensino, o resultado do plano foi uma tolerância muito maior à mediocridade estudantil, em nome da diminuição da desistência. Aos pais que têm condições e, sobretudo, visão estratégica restou matricular os filhos nos cursos de reforço escolar, que infestaram as cidades francesas a partir de 2006.
"A ideologia progressista que dominava as nossas escolas foi cedendo a uma via reacionária, que acha que se vai reconquistar a motivação dos alunos por meio de mais disciplina, metas e menos integração com o mundo dos estudantes", avalia François Dubet, sociólogo da educação e especialista em marginalidade juvenil. "A consequência óbvia é que cada vez mais os alunos não querem trabalhar em classe, se tornam violentos, preferem entrar em um emprego qualquer porque acham que, trabalhando, estão aprendendo mais do que na sala de aula."

No ano passado, o governo francês aumentou o suporte escolar público para os alunos em dificuldade. Dubet pondera que a iniciativa pode ser altamente estigmatizante, e somente se torna eficaz se os professores diversificarem os métodos pedagógicos de acordo com o perfil de cada classe, de cada aluno. Ele lembra que os países que melhor se destacam nesse sentido são os que adotam, por exemplo, exercícios diferenciados entre os alunos, ao mesmo tempo em que mantém a unidade da turma. Uma forma, garante o especialista, de aumentar a motivação dos alunos que ficaram para trás e que assim poderão enxergar o próprio progresso, ao invés de só se verem afundando cada vez mais no conteúdo ensinado.

Outro caminho, conforme Dubet, seria revalorizar a via profissional dos estudos, hoje soterrada sob uma infinidade de preconceitos. "Os diplomas profissionais muitas vezes viabilizam empregos mais sólidos e bem remunerados do que os diplomas gerais. Sem contar que muito mais vale um diploma profissional do que nada."

Autor

Lúcia Müzell


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