NOTÍCIA
Com o PISA 2029 avaliando letramento midiático e em inteligência artificial, escolas precisam desenvolver capacidade analítica para transformar informação em decisão pedagógica
Por Fabrício Vieira*, diretor adjunto educacional da FTD Educação | A inteligência artificial generativa acrescenta uma nova camada de complexidade à revolução dos dados na educação. À medida que sistemas educacionais produzem e publicam volumes cada vez maiores de informação, surge uma pergunta central: como garantir que gestores públicos, educadores e famílias tenham condições de interpretar esse material e utilizá-lo com responsabilidade, critério e finalidade educativa?
A resposta passa por uma competência que ainda é pouco discutida nas escolas brasileiras, mas que se torna urgente: a capacidade de ler, questionar e transformar dados em decisões pedagógicas. É a chamada data literacy, ou alfabetização em dados.
Diante do contexto atual, marcado pela presença de IAs comerciais e não pedagógicas, a alfabetização em dados se consolida como uma competência analítica essencial: compreender como as informações são produzidas, distinguir correlação de causalidade e interpretar métricas com rigor técnico. Essa dimensão dialoga com o letramento midiático (media literacy), campo responsável por questionar a intenção de uma fonte, identificar vieses discursivos e exercer o bom senso diante de afirmações apresentadas como objetivas, mas se distingue dele por seu foco específico na produção e leitura crítica de dados quantitativos.
Em educação, os dados são ferramentas de equidade, desde que bem utilizados. Isso significa determinar quais métricas realmente refletem a missão de cada instituição, diferenciando indicadores de desempenho, que revelam como a aprendizagem acontece; dos indicadores de resultado, que mostram o que foi alcançado. Um painel de controle básico, acessível a coordenadores e professores, ajuda a transformar essa prática em rotina, e não em exceção.
O diagnóstico precoce é um dos benefícios mais evidentes dessa abordagem. Sem métricas consistentes, o sistema educacional tende a favorecer estudantes que já possuem capital cultural em casa, ampliando desigualdades que poderiam ser corrigidas ainda no início da trajetória escolar. Os dados também dão visibilidade a alunos que ficam escondidos nas médias gerais, permitindo intervenções individuais antes que dificuldades se acumulem e se tornem irreversíveis.

O PISA 2029 incluirá um novo domínio inovador voltado à alfabetização midiática e em inteligência artificial, conhecido pela sigla em inglês MAIL (Foto: Shutterstock)
Mas ter apenas os dados não é suficiente para o avanço educacional. É preciso desenvolver capacidade analítica para transformá-los em aprendizagem real. Três frentes se destacam nesse processo: o monitoramento preditivo, conhecido como Learning Analytics, capaz de antecipar riscos de evasão ou defasagem; a formação e o desenvolvimento profissional contínuos, voltados à leitura crítica de dados; e relatórios acadêmicos que expliquem avanços e desafios de forma clara, indo além de números isolados. Sem esses três elementos, painéis sofisticados correm o risco de virar apenas exercícios estatísticos, sem impacto na sala de aula.
Nesse cenário, a inteligência artificial funciona como bússola: identifica padrões, sugere caminhos e organiza informações que seriam inviáveis de processar manualmente. Mas quem define o porto e segura o leme continua sendo o professor, fortalecido por evidências e não substituído por elas. Dados não servem para vigiar o passado; servem para guiar o futuro. Como escreveu o estatístico e pesquisador alemão na área da educação Andreas Schleicher, em Primeira Classe: Como Construir um Sistema Educativo para o Século XXI (2018), a homenagem aos professores do mundo reconhece justamente esse papel insubstituível: auxiliar a próxima geração a realizar seus sonhos e dar forma ao futuro coletivo.
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante do anúncio do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) 2029, que incluirá um novo domínio inovador voltado à alfabetização midiática e em inteligência artificial, conhecido pela sigla em inglês MAIL.
A avaliação buscará esclarecer se os jovens estudantes tiveram oportunidades de aprender a se engajar de forma proativa e crítica em um mundo no qual produção de conteúdo, participação social e redes estão cada vez mais mediadas por ferramentas digitais e sistemas de inteligência artificial. O MAIL vai avaliar se eles conseguem identificar a credibilidade de conteúdos digitais.

“Em educação, os dados são ferramentas de equidade, desde que bem utilizados”, aponta Fabrício Vieira (Foto: FTD Educação/Divulgação)
As oportunidades são significativas: cerca de 90% dos estudantes utilizam diariamente plataformas de mídia e IA para buscar informações, aprender novos assuntos, fazer pesquisas e elaborar atividades. Os desafios, contudo, também crescem. Nem toda informação disponível online é confiável, conteúdos podem ser plagiados ou reforçar preconceitos, e a pressa em publicar muitas vezes sacrifica a qualidade em favor do tráfego. A IA generativa intensifica esse cenário, ao acelerar e facilitar a criação de conteúdo em larga escala.
Diante disso, cresce o esforço para integrar programas de alfabetização midiática e em IA aos currículos escolares, além do desenvolvimento de aplicativos, jogos educativos e ferramentas digitais com finalidade pedagógica.
O MAIL surge justamente para apoiar a avaliação dessas iniciativas, definindo um conjunto de competências necessárias para interagir de forma eficaz, ética e responsável com conteúdo digital, plataformas de mídia e sistemas de inteligência artificial. A proposta combina questões tradicionais com ambientes simulados, utilizando ferramentas próximas da experiência real dos estudantes na internet e nas redes sociais.
Ao final, o que está em jogo é a capacidade dos jovens de avaliar a credibilidade, a qualidade e o propósito do conteúdo que consomem e produzem, tomando decisões conscientes e éticas. Preparar as escolas para esse desafio exige, antes de tudo, formar professores e gestores capazes de interpretar dados com rigor e sensibilidade pedagógica. A tecnologia amplia possibilidades, mas a responsabilidade de transformar informação em aprendizagem significativa permanece, como sempre, uma tarefa humana.
*Fabricio Vieira é diretor adjunto educacional da FTD Educação. Doutor em Educação para a Ciência pela UNESP e mestre em Ciências pela USP, possui mais de 20 anos de experiência no segmento educacional.