Artigos escritos por pesquisadores do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21)
Publicado em 24/09/2026
Mais do que revelar o que os estudantes sabem, os resultados ajudam a pensar as condições e competências necessárias para transformar conhecimento em aprendizagem
Por Ana Carolina Zuanazzi, e Gisele Alves, respectivamente gerente de pesquisa e gerente executiva do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21)* | No último dia 08 foram divulgados os resultados do PISA 2025, em que o Brasil figurou entre os países com desempenho abaixo da média da OCDE, repetindo uma trajetória de estagnação que já se observa desde 2015. Em comparação com 2022, na edição de 2025 nossos resultados em ciências, matemática e leitura permaneceram praticamente estáveis e evidenciaram fortes desigualdades por nível socioeconômico. Ainda em 2025, somente 48% dos estudantes brasileiros avaliados atingiram ao menos o nível básico de proficiência em ciências, 28% em matemática e 49% em leitura, ante 74%, 65% e 69%, respectivamente, na média da OCDE. A média da OCDE, calculada a partir dos resultados de todos os países participantes, também variou para baixo, fenômeno semelhante ao dos últimos anos.
O país também ficou abaixo da média internacional na nova avaliação de resolução de problemas por meio de ferramentas computacionais, uma das novidades importantes do PISA 2025 que procura avaliar algo diferente de simplesmente saber usar um computador: trata-se da capacidade de resolver problemas utilizando ferramentas e ambientes digitais, mobilizando raciocínio, planejamento e adaptação para chegar a uma solução. A avaliação integra a dimensão mais ampla de “aprendizagem no mundo digital” do PISA, que também investiga a capacidade dos estudantes de direcionar a própria aprendizagem em ambientes digitais.
No conjunto de países destacados pela própria OCDE para comparação, o Brasil aparece distante dos sistemas de maior desempenho e, nessa nova dimensão, também abaixo de países latino-americanos como Chile, Uruguai, México e Colômbia, embora acima de Argentina e Paraguai. O desempenho nesse novo aspecto avaliado no PISA 2025 revela que apenas 3 em cada 10 estudantes brasileiros de 15 anos conseguem ir além do uso elementar de ferramentas digitais, indicando que a dificuldade dos estudantes avaliados não se restringe às áreas tradicionais: aparece também quando o estudante precisa mobilizar conhecimentos e estratégias para resolver problemas em um contexto digital.
Esses resultados também ajudam a lembrar que provas de desempenho acadêmico como o PISA refletem, em alguma medida, aquilo que os jovens tiveram oportunidade de aprender e praticar, sendo, portanto, sensíveis ao currículo, às experiências escolares e ao ambiente em que a aprendizagem ocorre. Isso reforça o potencial de pensar o currículo transcendendo a pura transmissão de conteúdo dentro de cada componente curricular, mas como espaço para integrar conhecimentos acadêmicos a capacidades necessárias para utilizá-los bem, como autorregulação, pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas e outras competências socioemocionais relacionadas ao esforço sustentado em tarefas complexas.
Essa discussão ganha ainda mais importância em um ambiente de aprendizagem marcado pela disputa pela atenção. No PISA 2025, estudantes brasileiros relatam utilizar dispositivos digitais na escola, em média, 1,3 hora por dia para aprender e 1 hora para lazer. Um quarto afirma que seus colegas se distraem frequentemente com esses dispositivos nas aulas de Ciências; entre os que relatam essa situação, o desempenho é 19 pontos menor, mesmo após consideradas diferenças socioeconômicas. Ao mesmo tempo, comportamentos de autorregulação, como estabelecer metas e buscar ajuda, aparecem positivamente associados ao desempenho.
Em um cotidiano atravessado por smartphones, múltiplos estímulos e alternância constante entre tarefas, aprender também exige saber gerir a própria atenção e usar a tecnologia com propósito. Isso amplia o desafio da escola: além de oferecer acesso às ferramentas digitais, é preciso criar oportunidades para que os estudantes aprendam a mobilizá-las para investigar, pensar criticamente e resolver problemas.
É nesse sentido que a educação digital pode ser compreendida como uma dimensão da própria aprendizagem. Essa concepção está presente na BNCC e é aprofundada pela BNCC Computação, por meio dos eixos Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital, que articulam a compreensão das tecnologias à capacidade de resolver problemas e participar do mundo digital de forma crítica e responsável.
A questão passa, então, por integrar essa perspectiva aos diferentes componentes curriculares. Em matemática, os estudantes podem decompor problemas e testar estratégias; em ciências, analisar dados e comparar informações de diferentes fontes; em língua portuguesa, produzir narrativas digitais e discutir autoria e circulação da informação. O uso da tecnologia, nesse contexto, ganha sentido quando contribui para investigar, criar, colaborar e resolver problemas relacionados aos objetivos da aprendizagem.

Se queremos avançar na aprendizagem de ciências, matemática e leitura, vale pensar nas oportunidades que criamos para que os conhecimentos integrados sejam utilizados em situações diversas (Foto: Shutterstock)
Os resultados do PISA também indicam outro elemento importante nessa integração: as competências socioemocionais. A relação observada entre comportamentos de autorregulação, como estabelecer metas e buscar ajuda, e o desempenho reforça a importância de capacidades como foco, organização e persistência para aprender em ambientes digitais. Em uma atividade de programação, por exemplo, planejar etapas, testar soluções, identificar erros e revisar procedimentos mobiliza essas competências ao mesmo tempo em que desenvolve habilidades digitais.
A frustração diante de uma tentativa que não funciona também pode ser trabalhada como parte do processo de aprendizagem, favorecendo a autorregulação e autoconfiança. Da mesma forma, jogos de lógica, projetos de criação digital e investigação podem estimular e exercitar a curiosidade, a criatividade e a abertura para diferentes soluções, enquanto atividades colaborativas favorecem respeito, empatia, assertividade e iniciativa social.
O professor, nesse processo, desloca sua atenção da seleção de ferramentas digitais e a direciona para o planejamento de situações em que os estudantes precisem justificar escolhas, monitorar o próprio processo e refletir sobre os resultados obtidos. Isso pode acontecer em atividades diretamente relacionadas ao currículo: por exemplo, uma turma pode investigar o crescimento de uma planta, registrando medidas para produzir e interpretar gráficos; analisar a circulação de uma notícia, comparando fontes e verificando suas evidências; ou desenvolver uma solução para um problema da comunidade, planejando etapas, testando hipóteses e avaliando resultados. Em situações como essas, conhecimentos acadêmicos, habilidades digitais e competências socioemocionais são mobilizados de forma conjunta e intencional.
Os resultados do PISA 2025, portanto, podem ser tomados menos como respostas prontas e mais como uma oportunidade de refletir sobre as experiências que oferecemos aos estudantes. Se queremos avançar na aprendizagem de ciências, matemática e leitura, e, ao mesmo tempo, preparar os estudantes para resolver problemas complexos conjugados ao mundo digital e na vida cotidiana, vale pensar não apenas no que ensinamos, mas nas oportunidades que criamos para que os conhecimentos integrados sejam utilizados em situações diversas.
Nesse sentido, a educação digital prevista na BNCC pode ser compreendida como parte desse movimento, integrando-se ao currículo como uma oportunidade de ampliar as formas de aprender. Uma escola orientada por esses resultados é aquela que combina conhecimento acadêmico, tecnologia e desenvolvimento socioemocional e de outras competências complexas em situações nas quais os estudantes possam investigar, testar, criar, colaborar, persistir e refletir sobre suas próprias escolhas.
Para saber mais:
OECD. (2026). PISA 2025 results (Volume I): Country notes: Brazil. OECD Publishing
* Ana Carolina Zuanazzi é psicóloga, doutora em Psicologia com ênfase em Avaliação Psicológica pelo Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco. Gerente de pesquisa do eduLab21, o Laboratório de Ciências para Educação do Instituto Ayrton Senna.
* Gisele Alves é psicóloga, mestre em Psicologia com ênfase em Avaliação Psicológica pelo Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco. Gerente executiva do eduLab21, o Laboratório de Ciências para Educação do Instituto Ayrton Senna, Chairholder da Cátedra UNESCO em Educação e Desenvolvimento Humano e Site Project Manager do Estudo Survey on Social and Emotional Skills (SSES) da OCDE no Brasil.