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Instituto Ayrton Senna

Artigos escritos por pesquisadores do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21)

Publicado em 15/07/2026

Competências socioemocionais em movimento: o que nos ajuda a construir vidas mais ativas?

Talvez devêssemos perguntar quais experiências, oportunidades, competências e contextos ajudam uma pessoa a construir uma relação duradoura com o movimento.

Por Karen Teixeira* | A cada quatro anos, acontece uma coisa curiosa: de repente, somos todos um pouco técnicos de futebol. Discutimos escalação, preparo físico, estratégia, lesões, decisões do treinador. Tentamos entender por que um jogador não rendeu o esperado, o que fez um time continuar buscando o resultado ou o momento exato em que algo deu errado.

Mas talvez esse clima de Copa do Mundo também nos permita fazer reflexões menos óbvias, como “o que faz alguém continuar em movimento?” Não apenas os jogadores, que são remunerados e que correm quilômetros durante uma partida, mas todos nós!

Quando pensamos em uma vida ativa, é comum imaginarmos alguém que pratica esportes, frequenta uma academia ou corre algumas vezes por semana. Só que essa é uma compreensão bastante estreita do que significa ser ativo. Vidas ativas são modos de viver nos quais o movimento está presente no cotidiano das pessoas e das comunidades. Isso inclui o esporte, claro, mas também caminhar, brincar, dançar, pedalar, fazer uma tarefa doméstica, encontrar outras pessoas e experimentar diferentes formas de usar e  (re)conhecer o próprio corpo no mundo.

 

Competências

“Estar aberto a rever uma estratégia. Perceber o outro e entender que nenhuma conquista é construída sozinho” (Foto: Shutterstock)

 

Somos seres que se movimentam. Ainda assim, ao longo da vida, nossas possibilidades de movimento parecem muitas vezes encolher. Uma criança corre sem precisar registrar quilômetros, inventa regras para um jogo no pátio e repete dezenas de vezes um movimento simplesmente porque acabou de descobrir que consegue fazê-lo. Uma bola, às vezes, é suficiente para criar uma brincadeira inteira. Se não há bola, uma garrafa vazia, um chinelo marcando o gol ou qualquer outra coisa pode resolver.

Há curiosidade, criatividade, entusiasmo. Há também negociação: quem joga, qual é a regra, o que vale ou não vale. É preciso conversar, cooperar, lidar com a frustração de perder e, muitas vezes, encontrar uma solução quando o combinado não funciona. Tudo isso enquanto corpos se movimentam.

É aqui que as competências socioemocionais entram nessa conversa. Voltemos à Copa. Para chegar a uma competição como essa, talento e competência técnica são indispensáveis. Mas nenhum jogador constrói uma trajetória esportiva apenas com isso. É preciso persistir quando o resultado demora a aparecer, manter o foco diante das distrações, regular emoções em situações de enorme pressão, cooperar com pessoas que pensam diferente e adaptar-se quando a estratégia que funcionava já não funciona mais.

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Também é preciso ter iniciativa para tomar uma decisão em segundos. Confiar na própria capacidade para tentar uma jogada. Estar aberto a rever uma estratégia. Perceber o outro e entender que nenhuma conquista é construída sozinho. Essas competências não aparecem na súmula da partida. Ainda assim, estão em campo o tempo todo. E não apenas no esporte de alto rendimento. As competências socioemocionais influenciam a forma como pensamos, sentimos e agimos diante das situações da vida. Elas continuam se desenvolvendo por meio das experiências que vivemos, formais e informais. Isso significa que uma experiência de movimento também pode ser uma experiência de desenvolvimento socioemocional.

Pense em um estudante entrando em uma quadra para experimentar um jogo que ainda não conhece. É preciso observar, fazer perguntas, entender as regras e arriscar. Talvez ele erre. Talvez precise tentar de outro jeito. Em uma atividade coletiva, terá ainda de comunicar suas ideias, perceber os colegas e construir com eles uma forma de jogar e de fazer essa interação funcionar.

Mas há uma via de mão dupla nessa relação.

Se as experiências de movimento podem favorecer o desenvolvimento de competências socioemocionais, essas mesmas competências podem nos ajudar a construir e sustentar vidas mais ativas. A curiosidade pode nos levar a experimentar uma prática desconhecida. A autoconfiança pode ajudar a atravessar o desconforto de ainda não saber fazer. A persistência pode nos manter em movimento quando aprender é difícil. A iniciativa social pode aproximar pessoas e transformar uma atividade em uma experiência compartilhada.

 

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Talvez, então, a pergunta não seja apenas porque algumas pessoas praticam atividade física e outras não. Talvez devêssemos perguntar quais experiências, oportunidades, competências e contextos ajudam uma pessoa a construir uma relação duradoura com o movimento. 

Porque vidas ativas não são resultado apenas de força de vontade. Dependem das oportunidades que encontramos, dos espaços que habitamos, das pessoas com quem convivemos e dos sentidos que atribuímos ao movimento.

A Copa do Mundo nos mostra corpos em seu limite: correndo, caindo, cansando, celebrando e tentando novamente. Mas talvez seu maior convite seja lembrar que movimento não é privilégio de atletas extraordinários. Nossos corpos também aprendem, descobrem, convivem e criam enquanto se movimentam.

E fica para nós a questão: quantas possibilidades de movimento temos permitido que continuem vivas em nós?

 

* Karen Teixeira é gerente de pesquisa do Laboratório de Ciências para Educação (eduLab21) do Instituto Ayrton Senna. Psicóloga, mestre e doutora em Psicologia com ênfase em avaliação psicológica em saúde e desenvolvimento pela Universidade Federal de Santa Catarina.

 

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