NOTÍCIA

Olhar pedagógico

Autor

Revista Educação

Publicado em 19/06/2026

Educação dos sentidos e imunologia social: quando o desconforto educa ou fere

Todos nós sentimos desconforto diante de um “não”, de uma espera ou da perda de um privilégio. Amadurecer é aprender — e ensinar — que frustração não é abandono, limite não é rejeição e desejo não precisa ser atendido imediatamente

Por Rubens Harb Bollos * | Uma criança recusa um abraço; outra esconde o rosto ao ser corrigida; um aluno reage com irritação à uma crítica que, para o professor, era apenas um ajuste de rota. Em todos esses momentos sentimos um desconforto no corpo: um aperto no peito, um nó na garganta, uma tensão na voz, uma secura na boca, uma sensação de afundar — antes mesmo de qualquer palavra ser dita. A pergunta que poucas vezes fazemos é: o que esse desconforto está nos informando? Ele pede proteção ou sustentação?

A resposta não é simples. Mas conceitos vindos da neurociência, da imunologia e da filosofia ajudam a construir um raciocínio útil para quem educa: nem tudo que é estranho, diferente ou desconfortável representa dano ou perigo. Essa é a base do que chamo aqui de uma educação dos sentidos para uma imunologia social.

Na imunologia, a pesquisadora francesa Polly Matzinger propôs, há décadas, uma mudança importante: o organismo não reage apenas ao que é “estranho”, mas sobretudo ao que sinaliza perigo ou dano. Um sistema que reagisse a tudo que é diferente tenderia à autoimunidade, atacaria o próprio organismo, inclusive partes saudáveis.

A ideia ajuda a pensar a educação. Sistemas vivos adoecem quando confundem diferença com ameaça. No início da vida, o leite humano é o primeiro alimento de referência; outros alimentos são introduzidos gradualmente, conforme o tempo e a maturação. Ainda assim, podem surgir intolerâncias ou dificuldades de adaptação. Isso mostra que nem toda reação ao novo é rejeição definitiva, nem toda diferença é ameaça. 

Com crianças e jovens, ocorre algo semelhante. Nem todo desconforto é dano, às vezes, é parte do desenvolvimento. Quando família ou escola trata todo desconforto como dano, pode acabar atacando o que deveria proteger: curiosidade, diversidade, autonomia e desenvolvimento.

 

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Essa distinção dialoga, por analogia, com o paradoxo da tolerância, formulado por Karl Popper. Tolerar tudo, sem discernimento, pode destruir as condições da convivência. Por isso, limite e tolerância não são opostos.

Na educação, a pergunta central é: esta reação — minha ou do outro — responde a um dano real ou a uma diferença desconfortável?

É aqui que a biologia acrescenta uma peça essencial. O médico neurocientista português António Damásio mostrou que corpo e decisão caminham juntos. Sensações ligadas às emoções, os marcadores somáticos, orientam nossas escolhas antes mesmo de conseguirmos explicá-las racionalmente. Estudos com pacientes com lesões no córtex pré-frontal mostraram que, mesmo preservando lógica, linguagem e raciocínio, muitos tinham dificuldade em tomar decisões simples no dia a dia.

A lição é importante para quem educa. Razão, emoção e corpo não são polos opostos. O desconforto que sentimos não é um inimigo a ser silenciado; é uma informação a ser compreendida. Educar não é eliminar esse sinal, mas aprender a interpretá-lo melhor. Essa escuta pode ser ensinada, praticada e refinada. É nesse sentido que se pode falar em uma educação dos sentidos.

Uma mesma sensação — tensão, recuo, irritação — pode indicar dano ou desenvolvimento. Se há humilhação, ameaça ou invasão, a resposta é proteger, e para isso interromper, separar, investigar. Mas, se o desconforto surge diante de frustração, crítica, espera, limite ou erro, pode ser amadurecimento em curso. Nesse caso, a resposta é sustentar o desconforto, validar a dificuldade e ajudar a atravessar.

Confundir desconforto com dano tem custo. Proteger demais limita o amadurecimento; exigir resistência diante de dano real normaliza violações. Educar exige discernir quando acolher, sustentar ou interromper.

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Na sala de aula, uma correção diante dos colegas pode gerar desconforto. Como corrigir faz parte da aprendizagem, o limiar pode ser entender que crítica não é condenação e que errar faz parte do processo. 

Sem aumentar sua sobrecarga, o professor pode cuidar da forma, reconhecendo a participação e incluindo o coletivo — “ponto importante; quem também pensou parecido?”. Assim, o erro vira aprendizagem, não exposição. Se a correção expõe, ironiza ou humilha, o desconforto pode sinalizar dano. Tom de voz, reação do aluno ou voz não ouvida ajudam a perceber se a intervenção educa ou fere. A dignidade na relação entre aluno e professor é condição da aprendizagem.

 

Sentidos

Corrigir faz parte da aprendizagem, o limiar pode ser entender que crítica não é condenação e que errar faz parte do processo (Foto: Shutterstock)

 

Todos nós sentimos desconforto diante de um “não”, de uma espera ou da perda de um privilégio. Amadurecer é aprender — e ensinar — que frustração não é abandono, limite não é rejeição e desejo não precisa ser atendido imediatamente. Mas medo, retraimento, silêncio excessivo ou evitação repetidos merecem atenção. A diferença está no padrão. Antes de chamar de “birra”, é preciso observar, ouvir e perguntar.

Educar os sentidos é perceber antes de reagir, perguntar antes de classificar e decidir quando acolher, sustentar, interromper ou reparar. Em tempos de intolerância, polarização e escuta fragilizada, três perguntas podem orientar esse caminho.

A primeira é corporal: foi confortável ou desconfortável — para mim e para o outro? Observar gesto, tom de voz, silêncio, respiração ou vontade de recuar ajuda a perceber antes de reagir.

A segunda é relacional e ética: desconforto diante de um limite necessário ou porque alguém foi ferido? Um “não”, uma espera ou uma correção podem educar. Mas humilhação, medo, ameaça ou exclusão pedem interrupção e cuidado.

A terceira é pedagógica e restaurativa: como transformar essa experiência em aprendizagem? Às vezes, é reconhecer o esforço da criança, “o que você disse é importante”. Em outras, é o adulto rever-se, “fui rápido demais; vamos retomar”.

 

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Nenhum critério elimina a ambiguidade das relações humanas. Mas esta pergunta ajuda: o desconforto sinaliza um dano a interromper ou um desenvolvimento a acompanhar?

Ela é mais útil do que a oposição entre rigidez e permissividade. Feita com regularidade, pode melhorar a qualidade das relações na educação, proteger a saúde mental e cultivar uma cultura menos reativa, mais cuidadosa e mais humana.

Nota: As referências deste texto também podem inspirar atividades transdisciplinares. Polly Matzinger ajuda a discutir, em ciências, a diferença entre o estranho e o perigoso. António Damásio permite trabalhar, em biologia, filosofia e projeto de vida, a relação entre corpo, emoção e decisão. Karl Popper abre caminho para debates em história, sociologia, ética e cidadania sobre liberdade, limites e convivência democrática.

 

*Rubens Harb Bollos é médico e counsellor. Mestre e doutor (Ph.D) em ciências da saúde (Unifesp) e pós-doutorado em Biologia do Desenvolvimento (USP/ICB). Pesquisador nas áreas de imunologia, epigenética, salutogênese e cultura de paz com foco no estudo de indicadores de êxito em saúde. É presidente-fundador da ABMPP.org (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão)

 

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