NOTÍCIA
Município com 37 mil habitantes utiliza tecnologia da informação para acompanhar rendimento escolar e subsidiar atuação de professores
Por Claudia Izique | Duas vezes por ano – em março e agosto –, a secretaria da Educação de Laranjal do Jari, município com 37 mil habitantes no sul do Amapá, monitora o desempenho dos alunos do 2º e 5º ano do ensino fundamental em língua portuguesa e matemática.
“Os alunos recebem uma avaliação impressa em gráfica e registram as respostas em um cartão que, escaneado, tem os dados tabulados automaticamente. Em uma semana temos a medida exata dos pontos fracos de cada um, o que permite orientar a atuação imediata do professor e da escola”, diz Antonina Soares de Oliveira, secretária municipal da Educação.
A escolha dos meses de março e agosto para avaliar o desempenho dos alunos da rede municipal é estratégica: “Nossos alunos são avaliados pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) no final do ano e precisamos estar preparados”, ela justifica.
A plataforma de monitoramento integra o Programa de Avaliação e Acompanhamento da Aprendizagem da Rede Municipal (PROAM) criado pela Secretaria de Educação do município em 21 de fevereiro de 2022 com o objetivo de aplicar avaliações diagnósticas e formativas e implementar estratégias de ensino/aprendizagem baseadas em indicadores e evidências. A plataforma foi implementada em parceria com a Qstione, empresa de tecnologia educacional de avaliação e análise de dados.
Sistema estadual de avaliação
Além de preparar os alunos para o as provas do Saeb, o PROAM também atende demanda do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Amapá (SisPAEAP), criado pelo estado em 2019 para avaliar as habilidades de língua portuguesa e matemática dos estudantes, e que tem como parceiro o Centro de Politicas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Os critérios de avaliação dos alunos seguem, portanto, os mesmos indicadores do SisPAEAP e CAEd. No primeiro ano de implantação do PROAM, em 2023, Laranjal do Jari fez três avaliações dos alunos do 1º ao 9 º ano, com medidas diferentes para os de escolas urbanas e rurais. “Em 2025, considerando os gastos de energia e de orçamento, mudamos a metodologia e passamos a monitorar os do 2º ao 5º ano do ensino fundamental. Em 2026 fizemos uma avaliação em março e faremos outra em agosto”, ela explica.
Em uma semana, o resultado das avaliações chega na mão do professor. “Com esta informação, ele vai saber em quais pontos deve focar para melhorar o desempenho do aluno no mesmo ano em que ele estará sendo avaliado pelo SisPAEAP e pelo Saeb”, sublinha a secretária.
O PROAM busca dar resposta a uma série de desafios para o sistema municipal de educação. O primeiro foi a nova regulamentação Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) pela Lei nº 14.113, de 25 de dezembro de 2020, que permite à União oferecer complementação de recursos da União – o Valor por Aluno Resultado (VAAR) – para as redes de ensino que reduzam a desigualdade e melhorem a gestão, e que também implantou o Valor Anual Total por Aluno (VAAT). “O VAAR exige políticas exequíveis e os resultados são medidos pelo desempenho dos alunos. O PROAM possibilita que o município se prepare para essa avaliação”, justifica a secretaria.
Os recursos adicionais por desempenho de alunos são fundamentais para um município como Laranjal do Jari que perdeu população nos últimos anos e viu contrair as transferências do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). A cidade sofre os efeitos da interrupção das atividades da Jari Celulose, instalada em Monte Dourado, no município de Almeirim, no Pará.

Em uma semana, o resultado das avaliações chega na mão do professor, que vai saber em quais pontos deve focar para melhorar o desempenho do aluno (Foto: Prefeitura de Laranjal do Jari)
“Um número grande de trabalhadores que moravam em Laranjal do Jari e cruzavam o rio para trabalhar na fábrica”, conta Antonina. “Arrecada-se menos, contribui-se menos e todos perdem.”
Com uma economia baseada na extração da castanha e do açaí, Laranjal do Jari e sua rede de ensino adaptam-se a essa realidade. “No período da safra de castanha registramos forte ausência de alunos na escola porque vão trabalhar com a família. Tanto que em algumas comunidades o calendário escolar é variado: as férias são em maio, período da colheita. O Ministério da Educação autoriza esse procedimento”, diz a secretária. Por tudo isso, o município tem que ter um “plano de ação bem estruturado” para oferecer aos seus 6,3 mil alunos “uma boa qualidade de ensino”.
A expectativa da secretária de Educação é alcançar com o PROAM o mesmo sucesso alcançado com o Leiturômetro, projeto premiado no Prêmio PVE (Parceria pela Valorização da Educação) do Instituto Votorantim. A iniciativa venceu na categoria Gestão Educacional e garantiu ao município um Espaço Maker com computadores e impressora 3D.
O Leiturômetro funciona como um “termômetro da leitura”, mapeando e estimulando o avanço literário dos alunos em toda a rede municipal. O objetivo é acompanhar os ciclos de alfabetização e a fluência leitora de forma diagnóstica e lúdica. Cada turma tem um mural na sala de aula, decorado com a representação gráfica de um termômetro ou régua de leitura. Nesse mural, cada criança tem o seu marcador personalizado e, à medida em que avançam nas leituras, os alunos movem seus marcadores para cima no painel. “A leitura é a base de tudo”, sublinha a secretária.
Ela própria costuma visitar as escolas, entrar em sala de aula, olhar os cadernos dos alunos e conversar com o professor. “Não espero convite. Chego, olho e esse olhar me aprimora.”
Reportagem publicada na newsletter Educação nos Municípios — Diálogos sobre gestão, ensino e aprendizagem, da revista Educação