NOTÍCIA
Ensino superior brasileiro busca se reinventar criando cursos, ministrando novas competências e estreitando laços com o setor produtivo
Por Raul Galhardi | Novas profissões emergem com rapidez, outras se transformam radicalmente enquanto boa parte das funções operacionais caminham para a obsolescência. A aceleração tecnológica, com destaque para a disseminação da inteligência artificial (IA), além de novos olhares para a saúde e bem-estar vêm criando um cenário inédito para o mercado de trabalho.
Nesse contexto, faculdades e universidades brasileiras buscam se reinventar criando cursos e estreitando laços com o setor produtivo para garantir que seus egressos estejam preparados para um futuro em construção. Wagner Sanchez, pró-reitor acadêmico da Fiap, com campi presenciais em São Paulo, resume o desafio:

Wagner Sanchez, da Fiap: aproximação do mercado, metodologias mais práticas e a atualização curricular são as três novas dimensões (Foto: Arquivo pessoal)
“As instituições que querem continuar relevantes precisam se atualizar em três dimensões: velocidade de atualização curricular, incorporando rapidamente novas competências ligadas a áreas como inteligência artificial, dados, sustentabilidade e economia digital; pedagógica, com metodologias mais práticas e centradas na resolução de problemas reais; e aproximação com o mercado, criando experiências em que o aluno aprende enfrentando desafios concretos das empresas.”
Sara Pedrini Martins, vice-presidente acadêmica da Vitru Educação, detentora de instituições como o Centro Universitário de Maringá (UniCesumar) e do Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi), chama atenção para a rapidez das transformações. “No ensino superior, a grande mudança é esta: o mercado deixou de esperar. As profissões evoluem em ritmo exponencial, a tecnologia redefine competências em tempo real e o aluno já não busca apenas um diploma, mas mobilidade social, empregabilidade e relevância”, afirma.
A inteligência artificial tornou-se uma força transformadora em diversas esferas da economia mundial e da sociedade e será um dos principais motores de inovação e desenvolvimento econômico no Brasil e no mundo. Diante da crescente presença dessa tecnologia em diversas áreas, vem aumentando a demanda por profissionais especializados, o que tem feito com que instituições de ensino de todo o país criem programas que combinem fundamentos técnicos com aplicações práticas.
Atualmente, de acordo com o sistema e-MEC do Ministério da Educação, existem 52 cursos de graduação (públicos e privados) nessa área em funcionamento no Brasil, sendo 19 deles presenciais e 33 a distância. Diante desse cenário, no Maranhão, a Unidade de Ensino Superior Dom Bosco (UNDB) criou em 2025 a sua graduação tecnóloga e, em 2026, seu MBA em IA.
Segundo Rebeca Murad, diretora-geral de gestão, “a inteligência artificial deixou de ser uma tendência restrita ao setor de tecnologia e passou a ocupar papel central na transformação de praticamente todas as áreas, como saúde, educação, gestão, comunicação, indústria, serviços e direito”. A matriz curricular do curso de graduação articula programação, machine learning, análise de dados, automação e modelagem de sistemas inteligentes, tornando o egresso apto a atuar em diversos segmentos.
Na Fiap, o curso tecnólogo de IA está entre os mais procurados. Oferecida nos formatos presencial e online, a graduação opera com a metodologia Challenge Based Learning Agile, na qual os alunos trabalham em desafios levados por empresas. “As disciplinas passam a funcionar como sprints [intervalo de tempo] de aprendizagem, muito próximas da dinâmica de projetos do mercado”, afirma Sanchez. Ele conta que a instituição possui mais de 700 empresas parceiras que colaboram com desafios, projetos, mentorias e oportunidades de carreira.
A saúde, compreendida em sua dimensão mais ampla, desponta como outro campo em expansão no ensino superior. Segundo dados de 2025 da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada sete pessoas no mundo possui algum transtorno mental.
Levando isso em consideração, o mestrado em Saúde Biopsicossocial da UNDB, em associação com a Unisuam, no RJ, parte da premissa de compreender a saúde de forma integrada, considerando as dimensões biológica, psicológica e social no cuidado, na prevenção, na pesquisa e na formulação de soluções para os desafios contemporâneos da área.
“Trata-se de uma perspectiva cada vez mais necessária diante da complexidade das demandas atuais, que exigem um olhar ampliado, interdisciplinar e centrado na pessoa”, define Rebeca Murad. Ela explica que a formação pode ser aplicada em campos como pesquisa, docência, gestão em saúde, clínica ampliada, saúde coletiva e saúde digital.
No mesmo sentido de buscar se atualizar perante as demandas da área da saúde, o curso tecnólogo em Ciência da Felicidade, oferecido desde 2019 pela UniCesumar, tem como objetivo formar profissionais que possam suprir as novas exigências do mercado de trabalho.

Sara Pedrini Martins, da Vitru Educação: aluno já não busca apenas um diploma, mas a mobilidade social, empregabilidade e relevância (Foto: Arquivo pessoal)
“Relatórios internacionais sobre o futuro do trabalho indicam que habilidades como inteligência emocional, resiliência, empatia e gestão do bem-estar estão entre as mais demandadas pelas organizações. Por isso, o curso se posiciona como uma formação interdisciplinar, ancorada em áreas como psicologia positiva, neurociência, sociologia e práticas integrativas, com foco na aplicação prática desses conhecimentos em diferentes contextos”, afirma a vice-presidente acadêmica da Vitru Educação.
Já a Uniasselvi oferece a primeira graduação em Ciência da Criatividade do país, focada em formar especialistas para setores que valorizam a inovação, experiência do usuário e diferenciação competitiva, como marketing, design, empreendedorismo, produção cultural e desenvolvimento de produtos. O curso tecnólogo possui formato EAD e tem em sua grade disciplinas como neurociência e aprendizagem ativa, design thinking, inteligência artificial e empreendedorismo criativo.
Futuro do trabalho
O Relatório sobre o futuro dos empregos 2025, do Fórum Econômico Mundial, revela que as mudanças no mercado de trabalho afetarão significativamente 22% dos empregos até 2030 e que cerca de 40% das habilidades exigidas no trabalho devem mudar, enquanto 63% dos empregadores já citam essa ausência de competências como a principal barreira que enfrentam.

O profissional do futuro será “cada vez menos um mero executor e cada vez mais alguém capaz de interpretar cenários”, diz Rebeca Murad, da UNDB (Foto: Arquivo pessoal)
Ao vislumbrar o futuro, os gestores das instituições de ensino superior convergem no sentido de afirmar que os trabalhos repetitivos e padronizados, baseados em tarefas previsíveis, deverão ser os mais afetados pelas transformações em curso. Mais do que extinção, o que se observa é uma reconfiguração, defende Sara. “Contadores migram de funções operacionais para análise estratégica; assistentes administrativos passam a gerir processos digitais; e designers assumem funções mais estratégicas e criativas, por exemplo.”
Para Rebeca, o profissional do futuro será “cada vez menos um mero executor e cada vez mais alguém capaz de interpretar cenários, analisar informações e gerar valor em contextos de constante mudança”. Sara Pedrini Martins diz que a Vitru Educação tem se preparado para esse cenário por meio do uso intensivo de dados para personalizar a aprendizagem dos alunos, da evolução contínua do portfólio em áreas de alta demanda e da combinação estratégica entre digital e presencial.
O diagnóstico comum é claro: a universidade precisa ser mais do que apenas um espaço de transmissão de conhecimento para se tornar também um ambiente de experimentação e resolução de problemas reais em diálogo com demandas reais do mercado e da sociedade.
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