NOTÍCIA
Brasil tem modelo burocrático de inclusão, presente nas redes de ensino pública e privada, da educação infantil à universidade, afirma Damião Silva, neuropsicólogo e pedagogo
Em meio aos debates acerca da educação inclusiva no Brasil, política pública educacional que ainda carece de aperfeiçoamentos, é comum a expressão “a inclusão não deu certo”. Além disso, nas escolas, cresce o número de demandas por adaptação curricular.
Por força legal ou por requisição das famílias, às vezes judicializadas, as adaptações até acontecem, mas nem todos os docentes sabem realmente como realizá-la, por exemplo, com estudantes superdotados, autistas, com TDAH, transtornos de aprendizagem, deficiência física, visual, auditiva e múltiplas deficiências.
A adaptação curricular se insere no âmbito do “direito a uma educação específica para garantir o acesso, a permanência e, de fato, uma aprendizagem que valha a pena e não traga sofrimento”, explica Damião Silva, neuropsicólogo, pedagogo e especialista em Educação Inclusiva. Damião atesta a falta de preparo, mas “não é só a questão da capacitação ou formação, é como se entende a inclusão”. Em geral, há o cumprimento formal sem foco na intencionalidade pedagógica. Para o especialista é preciso mudar o eixo, pois o que não dá certo não é a inclusão, mas o fato de entendê-la como burocracia.
——–
Damião Silva palestrará na Bett Brasil*, que acontece no Expo Center Norte, em São Paulo. Ele participa do painel Os alunos precisam de adaptação curricular: e agora?, em 7 de maio, às 11 horas, no aquário.
——
“Os professores não foram preparados para essa geração”, constata Damião. A adaptação pedagógica é fundamental para garantir o acesso real à aprendizagem, entretanto, ele explica, com uma didática padronizada e genérica na formação, o docente pega a sala de aula com estudantes de perfis distintos e não sabe como atuar.
No Brasil, afirma o especialista, o modelo burocrático, com adaptação padronizada que cumpre norma, só que não melhora a aprendizagem, está presente nas redes de ensino pública e privada, da educação infantil à universidade.
As grandes dificuldades aparecem porque os professores ficam presos aos nomes — autismo, superdotação, TDAH. Mas a pergunta não é essa. “A pergunta é: como essa pessoa que tem autismo, TDAH, superdotação aprende? Estamos presos a uma lista e a inclusão não é sobre quem está ou não na lista. E sim para quem apresenta discrepância para a aprendizagem e necessita de adequações no processo. Infelizmente, o que acontece hoje é que a inclusão é definida pelo diagnóstico — e isso vai dar errado.”

“Não é só a questão da capacitação ou formação, é como se entende a inclusão”, diz Damião Silva (foto: arquivo pessoal)
Ao ter diante de si uma classe com 30 alunos, em que alguns precisam de adequação na hora de expor conteúdos e na avaliação, o trabalho parece gigante. Damião diz que falta a boa parte dos docentes mais conhecimento acerca de como as pessoas aprendem. Ele conta que a aprendizagem, em pessoas típicas ou não, se dá por camadas — nível de domínio, velocidade de aprendizagem e formas de acessar os conteúdos, exemplifica.
Ao entender essas camadas de aprendizagem da turma, o trabalho se torna mais fácil. “É entender como as pessoas aprendem e gerenciar a sala. Adequar não é volume de atividade, é pensar de forma estratégica. Tenho uma aula de 50 minutos, tenho X tipos de alunos, que aprendem de um jeito, outros de outra forma. Como garantir que isso aconteça? O conhecimento acerca do aluno deve preponderar o tempo inteiro. O foco é sempre pensar: como esse aluno vai demonstrar a aprendizagem de forma real?”, detalha.
Não se trata, portanto, de pensar, a partir de um ensino homogêneo, do tipo ‘quem sabe e quem não sabe’. A inclusão se viabiliza por meio de um ensino responsivo, orientado por dados de aprendizagem e pela análise do desempenho dos estudantes, em que as perguntas são outras: quem já apresenta domínio, o que está consolidado, o que está em construção e o que não foi acessado. Esse mapeamento orienta decisões pedagógicas mais precisas, especialmente no ajuste da complexidade e na progressão curricular.
“Veja, mencionei três camadas e não falei de diagnóstico nenhum. Dessa maneira, vai ajudar toda a turma, com ou sem diagnóstico. Por exemplo, um aluno superdotado precisa de uma adaptação curricular. A atividade da turma tem 10 itens, o aluno vai terminar mais rápido porque entende mais rápido, mas se eu fizer cinco exercícios com mais complexidade, profundidade, eu adequei, não fiz mais nada, e a pessoa vai ser atendida.”
Se o diagnóstico existe para a garantia de direitos, é o professor que transforma essa informação em aprendizagem. Eventualmente vista como privilégio ou fraqueza, a maneira como o professor faz a adaptação reverbera na sala e individualmente. O adolescente, por exemplo, prefere igualdade social a qualquer adequação pedagógica, ainda que sofrendo internamente.
“Adaptar sem expor não é só didática, é leitura social, é sensibilidade pedagógica mais fina e que não se ensina nas licenciaturas. O professor tem de equilibrar duas forças: a pedagógica, que garante que o aluno aprenda, e a social, que garante que o aluno não seja marcado como diferente”, avalia Damião Silva.
No dia a dia, a adequação é absolutamente necessária, mas nem todos os docentes sabem mediar essa exposição, justamente porque estão vinculados ao processo burocrático, uma atitude mental expressa em frases do tipo ‘a atividade deste aluno é diferente porque tem laudo’.
“Aí vem, também, a sensibilidade, e o entendimento do que, de fato, é a adaptação. Uma adaptação pode servir para a turma inteira, não só para um aluno específico; pode variar formatos para todos, alguns escrevem, outros respondem oralmente, outros usam esquema, ninguém sabe quem precisava mais ou menos”, reitera o especialista.
*A Bett Brasil é um dos maiores eventos de inovação e tecnologia para a educação da América Latina. Acontece de 5 a 8 de maio, no Expo Center Norte, capital paulista. E nós, da Educação, estamos fazendo uma cobertura especial. Clique aqui para ficar por dentro de tudo.
Nossa cobertura jornalística tem o apoio das seguintes empresas: FTD Educação, Santillana Educação e Multiverso das Letras.
——
Revista Educação: referência há mais de 30 anos em reportagens jornalísticas e artigos exclusivos para profissionais da educação básica