NOTÍCIA
A historiadora Claudia Mogadouro fala do coletivo Janela Aberta, que em maio completa dez anos exibindo filmes para professores, e da importância de debater filmes nas escolas
“Há um abismo entre o cinema e a escola”, afirma Cláudia Mogadouro, historiadora e idealizadora do Grupo Cinema Paradiso, iniciativa que completou 30 anos em 2025, e do Coletivo Janela Aberta, que em maio deste ano alcança uma década promovendo debates de filmes com professores, ambos na capital paulista. A primeira iniciativa começou como uma brincadeira. Então bancária, a historiadora queria escapar um tanto da burocracia e inserir no seu dia a dia a troca de ideias. Convidou amigos para encontros culturais na casa de sua mãe, Dona Elza.
“Sistematizamos os encontros para a troca de experiências culturais e escolhemos o cinema como disparador. Cada um assistia ao filme por si e os encontros aconteciam a cada 15 dias. É um formato superdescomplicado. Não imaginávamos que esse grupo iria durar tanto tempo.”
E rendeu. A partir das conversas no Grupo Cinema Paradiso, Cláudia apurou sua percepção acerca da recepção de filmes. Ao longo da especialização, mestrado e doutorado na ECA/USP, não só encontrou arcabouço teórico para emoldurar essas conversas como — e já de antemão— objetivou diminuir o abismo entre o cinema e o professor, os alunos e as salas de projeção das escolas.

“A proposta do coletivo Janela Aberta é ensinar sobre linguagem, produção, ampliar repertório e ajudar a transformar a escola numa instituição mais democrática e aberta”, explica Claudia Mogadouro (foto: arquivo pessoal)
Foi por 12 anos formadora audiovisual de professores da rede municipal de São Paulo e é pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP. O Coletivo Janela Aberta derivou dessa experiência. Entre as diversas atividades que o coletivo realiza estão as sessões mensais para professores no Cine Marquise, que reúne cerca de 300 pessoas. São sempre acompanhadas de debates, uma ferramenta eficaz, conta Cláudia, para compreender os elementos de um filme ou se compreender por meio dele.
“Dos debates nas escolas emergem emoções — dos professores, dos alunos, das pessoas que participam — que precisam ser faladas. A educação para a arte, o cinema, o sensível também é papel da escola.”
Fora dela, embora pareça que as crianças e jovens tenham acesso facilitado aos filmes com os streamings, há muita pulverização, aponta a historiadora. E, muitas vezes, acaba prevalecendo a lógica do mercado, em que os filmes comerciais alcançam o público antes de uma rota de fuga levar a uma obra cinematográfica mais elaborada, artística, ou mesmo aos curtas-metragens.
Foi o respiro da minha alma. Foram 25 anos na casa da minha mãe. [Hoje, as reuniões acontecem no Instituto Casa da Cidade.] Quando havia alguém que entendia a linguagem fílmica, o tema entrava na pauta. Mas às vezes a discussão era sobre ética, sobre determinado país ou guerra. Esse grupo me transformou muito. Percebi que tinha preconceitos que eu não sabia ter. Trocar ideias com um grupo diverso é algo que transforma e amplia o autoconhecimento. Por exemplo, às vezes, você assiste a um filme e adere a um personagem que lhe convém. Quando conversa com outras pessoas, se toca que nem reparou nos outros personagens e se pergunta — como não percebi aquilo? Sempre me interessei por educação, então pensava: os professores precisam participar de debates assim.
Fui para a ECA/USP fazer o curso de Gestão de Processos Educacionais, que depois passou a se chamar Educomunicação. Com 40 anos, terminando essa especialização, encarei a demissão como bancária, com três filhas. E fui para o mestrado no Núcleo de Pesquisa de Telenovela da USP. Escolhi investigar Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos, novela a que já assistia. Frequentei uma escola pública por um ano para fazer o estudo de recepção. Foi maravilhoso, desmontei um monte de hipóteses.
Na escola, as pessoas falavam ‘por que fazer pesquisa com os jovens? Eles não veem telenovela’. Descobri que eles assistiam à novela, sim, e muito. Não tinha intenção de fazer um grupo imenso, mas dos 700 estudantes da escola, 90% quiseram participar. Tive de criar outro instrumento de pesquisa. Fiz até uma pergunta aberta e eles responderam. A personagem da Giulia Gam (Heloísa), que tinha um ciúme doentio, despertou interesse real, porque os jovens ainda não conseguem calibrar essa emoção do ciúme.
Uma professora dessa escola falou duas frases que pautaram meu doutorado: ‘Entendemos que o audiovisual deveria estar na escola, mas não tivemos formação no curso de licenciatura, precisamos dela, senão como usar, debater?’ Outra frase: ‘Vieram histórias dolorosas dos estudantes que nem imaginávamos. A escola ignora a dor. E quando você traz uma obra de ficção para debater, isso emerge’.
Quando se fala em arte, há o pensamento utilitário. Qual filme uso para falar do meio ambiente no Cerrado? E para falar da Revolução Francesa? É uma visão que trata o filme como um livro didático. O filme não se insere na lógica verdadeiro/falso. É complexo, subjetivo, e o professor tem de estar preparado. A arte faz isso — toca. E às vezes vem a raiva em relação a aspectos que aparentemente você não gosta num filme, mas porque na verdade está tocando num ponto que é difícil para você. A cultura escolar, em geral, é muito controladora, quer domesticar tudo o que acontece e essa experiência escapa a isso. Então, primeiro, os professores poderiam debater entre seus pares, ou entre adultos.
Sim, sempre achei necessário. O grupo de professores da escola é diverso, há conservadores, gays, machistas, pretos. O debate dá consistência para o trabalho. Com os alunos, pode-se exibir o filme, ir à sala de aula e fazer uma roda. Mas não necessariamente precisa ser em seguida. O professor pode exibir numa aula e avisar que haverá debate sobre o filme na aula seguinte. É interessante porque dá tempo de o aluno pesquisar e maturar a experiência.
O debate intimista é uma característica importante, no sentido de ser horizontal, dar a palavra a quem quer se expressar. Não há um especialista, o professor é um a mais. Ele pode fazer a mediação, ter outras informações, mas a recepção do estudante é tão válida quanto a do professor. Na escola, o cinema não é entretenimento, é uma experiência cultural. Mas é preciso cuidado para abordar de maneira que não vire uma tarefa.
Também é muito comum usarem filmes quando falta professor. É um vício que precisa ser eliminado porque quando o professor, super idealista, se prepara e exibe um filme, ele é malvisto. O aluno chega em casa dizendo que não teve aula, teve filme. Os pais ficam bravos. Isso destrói justamente a proposta de o cinema ser uma formação cultural que dialogue com o saber em geral.

“Dos debates nas escolas emergem emoções — dos professores, dos alunos — que precisam ser faladas. A educação para a arte, o cinema, o sensível também é papel da escola” (foto: Agência Brasil)
Ministrei cursos nas 13 diretorias de ensino. No primeiro formato, falava um pouco sobre cinema brasileiro. Quando pedia a avaliação, a maioria queria saber mais sobre cinema brasileiro. Em 2014, com a lei do cinema brasileiro no currículo [Lei nº 13.006/2014, que determina a exibição de duas horas mensais de produção nacional], criei um curso de seis aulas, oferecido a cerca de 30 professores. Seis é um número bom para criar vínculos. Muitas turmas se transformaram em cineclubes de educadores. Em Guaianases houve um cineclube que durou muitos anos. Na pandemia, um deles, o do Jaraguá, passou para o virtual. E aí entraram educadores de outras regiões e os cineastas puderam participar.
Há um abismo entre o mundo do cinema e o da educação. Todos os diretores sonham que os professores vejam seus filmes, mas eles não têm a menor ideia do que é a vida escolar. Propus aos diretores: ‘primeiro você vai ouvir os educadores’. A maioria dos cineastas convidados dizia ‘só posso ficar um pouco’. E acabavam ficando lá três horas, maravilhados. Eles não tinham ideia dessa recepção diversificada. Os professores comentavam a experiência na escola — não é um debate ao qual eles estão acostumados.
[Há o inverso.] Uma vez exibimos três curtas sobre sexualidade, a pedido dos professores. O diretor de dois dos curtas estava na Alemanha e, apesar do fuso horário, entrou no debate. Ele falou: ‘Sou homossexual desde que me entendo como gente, sofri com a minha família, sofri todo tipo de bullying na escola, e nunca tive um abraço de um professor, a escola era um inferno para mim’. Olha a importância de um professor que acolhe, que tem a sensibilidade para entender o que se passa com essa criança. Foi genial.
Temos a mesma proposta do Cineduc, uma entidade muito antiga do Rio de Janeiro, uma referência, que é ensinar sobre linguagem, produção, ampliar repertório e ajudar a transformar a escola numa instituição mais democrática e aberta. No atual momento somos 12 pessoas, oito são professores da rede municipal. Já fizemos 31 sessões no Cine Marquise nos últimos três anos. Em geral, são filmes que estão sendo lançados. Escolhemos agora o Malês [dir. Antonio Pitanga]. Temos passado prioritariamente filmes brasileiros, mas não só. Passamos recentemente O último pub [dir. Ken Loach]; O agente secreto [dir. Kléber Mendonça], na última sessão do ano passado e Ainda estou aqui [dir. Walter Salles] passamos uma semana antes do Oscar. Também exibimos Casa Branca [dir. Luciano Vidigal], e foi um sucesso.
‘Pisa nesse chão devagarinho’, como Ivone Lara cantava, é o que recomendo ao professor para sentir a força que ele tem na escola. E a gestão precisa defendê-lo. Outra recomendação é ver a classificação indicativa, para ter o aval do Ministério da Justiça. Há filmes demais, podem-se trabalhar temas com filmes livres ou curtas-metragens. Por isso é importante ampliar o repertório. Existem, ainda, três leis: a da cultura afro--brasileira [Lei nº 10.639], a da cultura indígena [Lei nº 11.645] e a do cinema brasileiro na escola. O professor deve se apropriar delas para se defender.