NOTÍCIA
Coordenadora executiva adjunta da respeitada ONG Ação Educativa, a socióloga e educadora é a homenageada do Prêmio Top Educação 2026
Num país com tradição colonial e escravocrata, imaginar uma pedagogia que articule o conhecimento científico à memória coletiva e aos saberes territoriais, por isso mais próxima da realidade dos estudantes e das comunidades, é uma tarefa gigantesca. É por ser uma das pensadoras a concebê-la e a empenhar-se na sua concretização que a redação da revista Educação escolheu Ednéia Gonçalves como a Educadora do Ano, homenageada na 20ª edição do Prêmio Top Educação 2026.
“Minha trajetória tem a ver com as inúmeras possibilidades de ser uma educadora no Brasil, mas, sobretudo, uma educadora negra”, afirmou Ednéia, em entrevista à Laura Rachid, editora da revista Educação. E aponta uma urgência. “Hoje, ao pensar em educação de qualidade como um direito para todas as pessoas — e é isso que eu faço —, é preciso resgatar a função social da escola.”
Com o título Como as matrizes ancestrais dão vida ao cotidiano, na entrevista publicada na edição de setembro, Laura Rachid destaca:
“Ednéia é coordenadora executiva adjunta da respeitada ONG Ação Educativa, socióloga e educadora. além de trabalhar há mais de 20 anos em cooperação técnica internacional para a educação de jovens e adultos e formação docente. Já atuou em países como Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, sendo que desse último retornou em novembro passado, após 60 dias de trabalho. Participa ainda do Fórum Permanente de Pessoas Afrodescendentes da ONU em Nova York e Genebra. E tem mais: ela assina o prefácio do livro de bell hooks Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança (ed. Elefante).”

A educação antirracista se constrói a partir da apropriação da narrativa do movimento negro, da história de resistência às opressões, pontua Ednéia Gonçalves (Foto: Rogério Albuquerque)
O Prêmio Top destaca as marcas mais lembradas pelo público a partir de votação espontânea, já encerrada. As marcas vencedoras serão conhecidas no dia 1º de outubro. Há três anos, o incorporou duas categorias especiais, homenageando uma personalidade e uma instituição que vêm contribuído para a educação no país.
A premiação já homenageou Mozart Ramos, referência em políticas públicas educacionais e defensor da valorização da formação docente, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, do IEA da USP. No ano seguinte, 2024, o homenageado foi o fundador e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente. Em 2025, recebeu a homenagem a educadora Cristine Takuá, do povo Maxakali, atual coordenadora do projeto Escolas Vivas, co-criadora do Fórum de Professores Indígenas do Estado de São Paulo (Fapisp).
Nesta 20ª edição, o Prêmio concede, também, menção honrosa à professora Débora Garofalo por seu trabalho voltado ao fortalecimento da escola pública brasileira. Ela é colunista da revista Educação (acesse colunas recentes aqui). A instituição homenageada é o Instituto Unibanco (conheça sua atuação aqui).
Leia trecho da entrevista e conheça o pensamento e a atuação de Ednéia Gonçalves:
O primeiro ponto que me mobiliza quando formulo uma aula, formação ou material é assumir que, no Brasil, o sistema educacional não foi construído, nos seus primórdios, para resolver questões de desigualdade. E não só ele, mas também os sistemas jurídico e político foram construídos num ambiente colonial e escravocrata. Ou seja, a educação foi construída para a manutenção de privilégios. Tudo o que acontece depois é reação a isso. É uma educação que não foi construída pensando que as pessoas negras e indígenas também possuem conhecimentos, culturas de diferentes territórios e que também dialogam com a cultura europeia e norte-americana.
Quando temos esse ponto de partida, precisamos, sobretudo, de processos de formação e práticas educativas que deem conta de construirmos uma contra-educação de reparação à subordinação de saberes.
Hoje, ao pensar em educação de qualidade como um direito para todas as pessoas — e é isso que eu faço —, é preciso resgatar a função social da escola. O que significa dar o direito a todas as pessoas de construírem aprendizagens significativas para a vida a partir da articulação de conhecimentos da ciência, sistematizados nas áreas de conhecimento, com outros conhecimentos oriundos da memória coletiva das culturas que construíram os países. Para, assim, elaborar um processo de outros saberes significativos para todas as pessoas. Essa é a função social da escola. E quando se articula o conhecimento que está no território, a memória coletiva, encontramos a narrativa dos movimentos sociais.
É assim que trabalho e entendo como a educação escolar deve se pautar para que todas as pessoas saiam dessa experiência escolar sabendo mais, sabendo diferente, articulando o que já sabiam e valorizando as diferentes matrizes culturais que o Brasil tem.
A educação antirracista se constrói a partir da apropriação da narrativa do movimento negro, da história de resistência às opressões. E isso incide sobre vários aspectos, como aprender que durante o período escravocrata os quilombos foram territórios que forjaram — e forjam, porque existem quilombos urbanos — o modelo de sociedade baseado na liberdade a partir de múltiplas culturas.
É uma prática social territorializada que ensinou ao Brasil o que é a liberdade e o valor dela para todas as pessoas. Paulo Freire [e Sérgio Guimarães] tem um livro maravilhoso, A África ensinando a gente (ed. Paz e Terra). Quando vou a cidades históricas no próprio Brasil adoro procurar adinkras, símbolos do povo Akan que contam seus saberes e filosofia. As pessoas que vieram escravizadas ao Brasil imprimiram esses símbolos nas ferragens, dentro das igrejas. Em São Paulo, ao observar os portões, notamos que aquele coraçãozinho com curva para dentro se chama sankofa, símbolo poderosíssimo e importantíssimo adinkra. São povos que foram escravizados e trazidos ao Brasil, e que trouxeram inteligência, intelectualidade, tecnologias e linguagens. E isso não se esquece, isso permanece.
A entrevista completa está disponível na edição digital: