NOTÍCIA
Como um check-up de saúde mental pode oferecer caminhos para construir um diálogo funcional para esse desencontro de comunicação entre laudos psiquiátricos e o cotidiano
Por Rodrigo Affonseca Bressan*, consultor da Academia Líderes de Educação e Pedro Mario Pan Neto*| A saúde mental deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar um lugar central no cotidiano das escolas. No entanto, gestores escolares vivem uma nova rotina, a pilha de laudos médicos. Em geral, trazem diagnósticos formais acompanhados de recomendações genéricas — tempo extra em avaliações, redução de tarefas ou acompanhamento individual.
Esse é um fenômeno que não se restringe ao Brasil. Dados do Reino Unido e Estados Unidos da América sugerem um crescimento pronunciado na última década. Embora garantam direitos indispensáveis, os laudos frequentemente chegam à escola sem articulação com a prática pedagógica, gerando angústia nos professores e sobrecarga na equipe gestora.

Dizer que um estudante tem TDAH ou ansiedade não explica como ele se comporta em momentos não estruturados, como reage sob cobrança ou de que forma aprende melhor, aponta Rodrigo Bressan (Foto: Arquivo pessoal)
O nó dessa questão está em um desencontro de linguagens. A clínica opera pelo diagnóstico individual e nosológico diferente da escola. Dizer que um estudante tem TDAH ou ansiedade não explica como ele se comporta em momentos não estruturados, como reage sob cobrança ou de que forma aprende melhor. Sem essa tradução, o laudo corre o risco de transferir uma responsabilidade terapêutica para o professor, que não tem formação clínica nem condições de atendê-la de modo isolado.
É aqui que o papel da liderança escolar se torna estratégico. Pesquisas de cocriação com gestores e coordenadores mostram que relatórios de saúde mental entregues diretamente ao corpo docente sem mediação geram desamparo. A coordenação pedagógica é o filtro natural: cabe a ela contextualizar as informações, dialogar com as famílias e traduzir termos médicos em combinados didáticos viáveis para a rotina da turma.

Pedro Mario Pan, “a coordenação pedagógica é o filtro natural” (Foto: Arquivo pessoal)
Para além de administrar laudos, a gestão pode liderar uma mudança de cultura: sair do modo reativo de apagar incêndios e adotar a prevenção ativa.
Acolher a saúde mental na escola não significa transformar a sala de aula em consultório. Para o gestor, o caminho sustentável é qualificar a escuta, fortalecer a mediação pedagógica e atuar preventivamente, mantendo o educador seguro no que faz de melhor: ensinar.
Rodrigo Affonseca Bressan é psiquiatra, professor livre–docente da Unifesp, presidente do Instituto Ame Sua Mente e Consultor da Academia Líderes de Educação; Pedro Mario Pan é psiquiatra e orientador do programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da Unifesp.
Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte: