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Resenha

Autor

Revista Educação

Publicado em 23/10/2026

Momo, uma criança singular

O livro ‘Momo e o Senhor do Tempo’, de Michael Ende, provoca reflexões sobre a educação na contemporaneidade

Por Beatriz H.A.P.Gallian, diretora pedagógica do Colégio São Luís Gonzaga, SP, membra da Academia Líderes de Educação | Publicado em 1973, Momo e o Senhor do Tempo, de Michael Ende, ultrapassa os limites da literatura infantil e in

fantojuvenil para se afirmar como uma obra que provoca reflexões profundas sobre o sentido da vida, o valor do tempo e os desafios da sociedade contemporânea. Por meio de uma narrativa aparentemente simples, o autor nos convida a olhar com mais atenção para a forma como vivemos, nos relacionamos e educamos as novas gerações.

A protagonista, Momo, é uma criança singular. Seu maior dom não está em habilidades extraordinárias, mas em sua capacidade de escutar. Ao ouvir com atenção genuína, ela devolve às crianças algo que estavam gradualmente perdendo: a espontaneidade do brincar, a imaginação e a convivência. Sua presença também transforma os adultos. Ao seu redor, histórias são contadas, ideias florescem e a criatividade reaparece, como se ela despertasse algo essencial que havia sido adormecido pela correria da vida cotidiana.

Importante nesse contexto caracterizar onde vivia Momo. Momo vivia nas ruínas de um antigo anfiteatro, um lugar que o tempo parecia ter esquecido. Havia pedras desgastadas, colunas incompletas e degraus cobertos de musgo. Para os adultos, era apenas um amontoado de ruínas; para as crianças, era um reino sem fronteiras, onde qualquer sonho ou brincadeira podia ganhar forma.

Momo

O maior dom de Momo não está em habilidades extraordinárias, mas em sua capacidade de escutar. Capa da edição turca (Foto: divulgação)

Foi ali que Momo encontrou seu lar. Ela habitava aquele refúgio com respeito, mesmo sem o desejo de querer possuí-lo. Suas roupas eram simples, os cabelos emaranhados, mas seus olhos carregavam uma atenção rara, capaz de acolher cada pessoa como se ela fosse única.

Ali também, entre ruínas e sonhos, as crianças descobriam que a verdadeira riqueza não estava no que se possui, mas naquilo que se vive junto. E o anfiteatro, antes abandonado, transformava-se novamente em um lugar de encontro, de escuta e de encantamento, onde o tempo parecia caminhar mais devagar para que cada momento pudesse ser aproveitado por inteiro.

 

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Entre os personagens centrais da narrativa estão os Homens Cinzentos, figuras alegóricas que roubam o tempo das pessoas em nome da produtividade, da eficiência e do acúmulo. Em contraste com eles, Momo convive com dois grandes amigos: Gigi, o guia turístico que encontra na companhia da menina inspiração e criatividade para suas histórias, e Beppo, o varredor, que realiza seu trabalho com serenidade, paciência e profundo sentido de propósito.

A leitura de Momo, hoje já reconhecida como um clássico da literatura, revela-se muito mais do que uma experiência estética. É, sobretudo, um convite à reflexão sobre traços marcantes da contemporaneidade: a aceleração da vida, a fragmentação das relações humanas e a crescente dificuldade de reservar espaço para a escuta, o cuidado e a convivência. Nesse cenário, emerge uma das imagens mais provocativas da obra: o “depósito de almas”. E é impossível não se surpreender ao perceber que, na narrativa, esses depósitos não são fábricas ou prisões, mas as próprias escolas. 

Ao utilizar essa expressão, o autor Ende apresenta uma crítica contundente a um modelo de educação que corre o risco de privilegiar a produtividade em detrimento da formação humana. Na narrativa, as crianças são vistas como indivíduos que precisam ser preparados para se tornarem úteis à sociedade, enquanto aspectos fundamentais de sua humanidade são deixados em segundo plano.

Momo

Contra a lógica desumanizadora representada pelos Homens Cinzentos, somos chamados, como educadores e famílias, a reafirmar a centralidade da pessoa humana. Capa da edição em português (Foto: Divulgação)

Não se trata de um depósito de alunos ou de crianças, mas de almas. A escolha dessa palavra é significativa porque aponta para aquilo que há de mais profundo na experiência humana: a interioridade, a imaginação, a liberdade, os afetos e a capacidade de construir relações significativas.

Quase cinquenta anos após sua publicação, a crítica de Michael Ende continua surpreendentemente atual. A cultura da performance, a ansiedade cada vez mais presente entre crianças e jovens, o excesso de avaliações e a valorização constante da produtividade infelizmente correm o risco de fazer parte do cotidiano de muitas famílias e instituições educativas. Nesse sentido, Momo nos conduz a uma pergunta necessária: nossas escolas correm o risco de se transformar em depósitos de almas?

A resposta sugerida pela própria narrativa passa pela recuperação do tempo como dom, relação, presença e escuta.

 

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Momo encarna uma verdadeira pedagogia da presença. Sua força não está na posse de conhecimentos extraordinários, mas na capacidade de escutar profundamente o outro. Sua escuta desperta potencialidades, fortalece vínculos e favorece a construção de comunidades. Nesse sentido, sua figura nos aproxima de um ideal educativo que se contrapõe à lógica da pressa, da produtividade permanente e da valorização exclusiva dos resultados.

Escola

Beatriz H.A.P.Gallian, “quase cinquenta anos após sua publicação, a crítica de Michael Ende continua surpreendentemente atual” (Foto: Arquivo pessoal)

O risco contemporâneo é reduzir a educação a um treinamento funcional, subordinado principalmente às demandas do mercado. Quando isso acontece, a pergunta “Que tipo de ser humano queremos formar?” é gradualmente substituída por outra: “Para que esse ser humano será útil?”. Quando a utilidade se transforma no principal critério de valor, dimensões fundamentais da vida humana, como a contemplação, a experiência estética, a amizade, a gratuidade e a busca de sentido, tendem a perder espaço.

Se desejamos formar pessoas em sua integralidade, é necessário formular uma pergunta diferente: como ajudar cada estudante a desenvolver plenamente sua vocação humana, em relação a si mesmo, aos outros, ao mundo e à transcendência? Essa perspectiva coloca no centro a dignidade da pessoa. O estudante não é um número, uma estatística ou um desempenho. É um ser único e irrepetível, cuja inteligência, afetividade, corporeidade, espiritualidade e consciência moral precisam ser cultivadas de forma harmoniosa.

Nesse horizonte, a excelência não se confunde com performance. Trata-se de desenvolver plenamente os dons e talentos de cada pessoa para colocá-los a serviço dos outros. Esse é o verdadeiro sentido da formação integral: formar homens e mulheres livres, capazes de discernir, servir e encontrar propósito em suas vidas.

Contra a lógica desumanizadora representada pelos Homens Cinzentos, somos chamados, como educadores e famílias, a reafirmar a centralidade da pessoa humana. Se eles roubam o tempo e enfraquecem a interioridade, cabe a nós devolver o tempo como espaço de encontro, crescimento, escuta e sentido. Cabe a nós fazer da escola um lugar onde cada criança e cada jovem sejam reconhecidos não apenas pelo que produzem ou conquistam, mas por aquilo que são.

Em última instância, a escolha que se apresenta a nós e às instituições educativas é decisiva: formar indivíduos apenas capazes de responder às demandas do mercado e do mundo ou formar pessoas verdadeiramente livres, capazes de transformá-lo. O futuro da educação depende da nossa escolha, como educadores, pela segunda opção. 

 

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