NOTÍCIA
Todos nós sentimos desconforto diante de um “não”, de uma espera ou da perda de um privilégio. Amadurecer é aprender — e ensinar — que frustração não é abandono, limite não é rejeição e desejo não precisa ser atendido imediatamente
Por Rubens Harb Bollos * | Uma criança recusa um abraço; outra esconde o rosto ao ser corrigida; um aluno reage com irritação à uma crítica que, para o professor, era apenas um ajuste de rota. Em todos esses momentos sentimos um desconforto no corpo: um aperto no peito, um nó na garganta, uma tensão na voz, uma secura na boca, uma sensação de afundar — antes mesmo de qualquer palavra ser dita. A pergunta que poucas vezes fazemos é: o que esse desconforto está nos informando? Ele pede proteção ou sustentação?
A resposta não é simples. Mas conceitos vindos da neurociência, da imunologia e da filosofia ajudam a construir um raciocínio útil para quem educa: nem tudo que é estranho, diferente ou desconfortável representa dano ou perigo. Essa é a base do que chamo aqui de uma educação dos sentidos para uma imunologia social.
Na imunologia, a pesquisadora francesa Polly Matzinger propôs, há décadas, uma mudança importante: o organismo não reage apenas ao que é “estranho”, mas sobretudo ao que sinaliza perigo ou dano. Um sistema que reagisse a tudo que é diferente tenderia à autoimunidade, atacaria o próprio organismo, inclusive partes saudáveis.
A ideia ajuda a pensar a educação. Sistemas vivos adoecem quando confundem diferença com ameaça. No início da vida, o leite humano é o primeiro alimento de referência; outros alimentos são introduzidos gradualmente, conforme o tempo e a maturação. Ainda assim, podem surgir intolerâncias ou dificuldades de adaptação. Isso mostra que nem toda reação ao novo é rejeição definitiva, nem toda diferença é ameaça.
Com crianças e jovens, ocorre algo semelhante. Nem todo desconforto é dano, às vezes, é parte do desenvolvimento. Quando família ou escola trata todo desconforto como dano, pode acabar atacando o que deveria proteger: curiosidade, diversidade, autonomia e desenvolvimento.
Essa distinção dialoga, por analogia, com o paradoxo da tolerância, formulado por Karl Popper. Tolerar tudo, sem discernimento, pode destruir as condições da convivência. Por isso, limite e tolerância não são opostos.
Na educação, a pergunta central é: esta reação — minha ou do outro — responde a um dano real ou a uma diferença desconfortável?
É aqui que a biologia acrescenta uma peça essencial. O médico neurocientista português António Damásio mostrou que corpo e decisão caminham juntos. Sensações ligadas às emoções, os marcadores somáticos, orientam nossas escolhas antes mesmo de conseguirmos explicá-las racionalmente. Estudos com pacientes com lesões no córtex pré-frontal mostraram que, mesmo preservando lógica, linguagem e raciocínio, muitos tinham dificuldade em tomar decisões simples no dia a dia.
A lição é importante para quem educa. Razão, emoção e corpo não são polos opostos. O desconforto que sentimos não é um inimigo a ser silenciado; é uma informação a ser compreendida. Educar não é eliminar esse sinal, mas aprender a interpretá-lo melhor. Essa escuta pode ser ensinada, praticada e refinada. É nesse sentido que se pode falar em uma educação dos sentidos.
Uma mesma sensação — tensão, recuo, irritação — pode indicar dano ou desenvolvimento. Se há humilhação, ameaça ou invasão, a resposta é proteger, e para isso interromper, separar, investigar. Mas, se o desconforto surge diante de frustração, crítica, espera, limite ou erro, pode ser amadurecimento em curso. Nesse caso, a resposta é sustentar o desconforto, validar a dificuldade e ajudar a atravessar.
Confundir desconforto com dano tem custo. Proteger demais limita o amadurecimento; exigir resistência diante de dano real normaliza violações. Educar exige discernir quando acolher, sustentar ou interromper.
Na sala de aula, uma correção diante dos colegas pode gerar desconforto. Como corrigir faz parte da aprendizagem, o limiar pode ser entender que crítica não é condenação e que errar faz parte do processo.
Sem aumentar sua sobrecarga, o professor pode cuidar da forma, reconhecendo a participação e incluindo o coletivo — “ponto importante; quem também pensou parecido?”. Assim, o erro vira aprendizagem, não exposição. Se a correção expõe, ironiza ou humilha, o desconforto pode sinalizar dano. Tom de voz, reação do aluno ou voz não ouvida ajudam a perceber se a intervenção educa ou fere. A dignidade na relação entre aluno e professor é condição da aprendizagem.

Corrigir faz parte da aprendizagem, o limiar pode ser entender que crítica não é condenação e que errar faz parte do processo (Foto: Shutterstock)
Todos nós sentimos desconforto diante de um “não”, de uma espera ou da perda de um privilégio. Amadurecer é aprender — e ensinar — que frustração não é abandono, limite não é rejeição e desejo não precisa ser atendido imediatamente. Mas medo, retraimento, silêncio excessivo ou evitação repetidos merecem atenção. A diferença está no padrão. Antes de chamar de “birra”, é preciso observar, ouvir e perguntar.
Educar os sentidos é perceber antes de reagir, perguntar antes de classificar e decidir quando acolher, sustentar, interromper ou reparar. Em tempos de intolerância, polarização e escuta fragilizada, três perguntas podem orientar esse caminho.
A primeira é corporal: foi confortável ou desconfortável — para mim e para o outro? Observar gesto, tom de voz, silêncio, respiração ou vontade de recuar ajuda a perceber antes de reagir.
A segunda é relacional e ética: desconforto diante de um limite necessário ou porque alguém foi ferido? Um “não”, uma espera ou uma correção podem educar. Mas humilhação, medo, ameaça ou exclusão pedem interrupção e cuidado.
A terceira é pedagógica e restaurativa: como transformar essa experiência em aprendizagem? Às vezes, é reconhecer o esforço da criança, “o que você disse é importante”. Em outras, é o adulto rever-se, “fui rápido demais; vamos retomar”.
Nenhum critério elimina a ambiguidade das relações humanas. Mas esta pergunta ajuda: o desconforto sinaliza um dano a interromper ou um desenvolvimento a acompanhar?
Ela é mais útil do que a oposição entre rigidez e permissividade. Feita com regularidade, pode melhorar a qualidade das relações na educação, proteger a saúde mental e cultivar uma cultura menos reativa, mais cuidadosa e mais humana.
Nota: As referências deste texto também podem inspirar atividades transdisciplinares. Polly Matzinger ajuda a discutir, em ciências, a diferença entre o estranho e o perigoso. António Damásio permite trabalhar, em biologia, filosofia e projeto de vida, a relação entre corpo, emoção e decisão. Karl Popper abre caminho para debates em história, sociologia, ética e cidadania sobre liberdade, limites e convivência democrática.
*Rubens Harb Bollos é médico e counsellor. Mestre e doutor (Ph.D) em ciências da saúde (Unifesp) e pós-doutorado em Biologia do Desenvolvimento (USP/ICB). Pesquisador nas áreas de imunologia, epigenética, salutogênese e cultura de paz com foco no estudo de indicadores de êxito em saúde. É presidente-fundador da ABMPP.org (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão)