Jornalista, educador e escritor. Mestre em inteligência artificial e ética pela PUC-SP e apresentador do Idade Mídia (Canal Futura)
Publicado em 06/04/2026
Se a contemporaneidade tem como marca a aceleração — das tecnologias, das narrativas, das reações —, como lidar com o elemento tempo, tão decisivo para o exercício do pensamento crítico?
Coluna de Alexandre Sayad publicada na edição 319| No cotidiano, entre os muitos assombros atribuídos à inteligência artificial — do consumo de informação ao acesso ao conhecimento — convivemos com exageros (muitos deles alimentados por ficções científicas e pelo marketing das big techs) e com riscos bem reais. Entre estes, poucos parecem tão impetuosos quanto as deepfakes.
Se a fotografia — a imagem produzida a partir da luz — nasceu para registrar um instante do real, hoje ela frequentemente nos oferece mais dúvida do que certeza. Vídeos e imagens gerados por técnicas de aprendizado profundo se sofisticam a tal ponto que colocam especialistas, fotógrafos e jornalistas na defensiva: já não é simples reconhecer o que, ali, ainda é factual.
A manipulação de imagens, claro, não é novidade. Basta revisitar a história do stalinismo na antiga União Soviética para lembrar como o retoque, o apagamento e a ‘recomposição’ de fotografias ajudaram a moldar versões distorcidas de acontecimentos, a serviço da propaganda e do controle político. O que muda, agora, é a escala e o realismo.
Na era em que inteligência artificial e imagens digitais caminham juntas, esse tipo de operação pode ser elevado à enésima potência — com custo baixo, velocidade alta e alcance massivo. O desafio da escola, então, cresce de forma descomunal: como lidar com algo tão complexo justamente em um ano de eleições estaduais e federais?
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Não precisamos voltar muito no tempo para encontrar sinais desse cenário. O caos observado nas eleições da Índia, em 2024, foi emblemático. A inteligência artificial mostrou seu potencial de ampliar, com rapidez e capilaridade, o circuito das mentiras: candidatos e grupos de interesse recorreram à manipulação de vozes, imagens e vídeos e distribuíram o material em massa a milhões de eleitores. O resultado foi um pleito pouco transparente,
no qual fatos e distorções se misturaram em uma névoa informacional difícil de dissipar.
Diante de um fenômeno tão impactante — e de implicações éticas tão profundas — do que precisamos para pensar criticamente? De um lado, há respostas possíveis no campo curricular. Propostas como as lançadas pela Unesco ajudam escolas a desenvolver currículos mais compreensíveis e atividades que permitam aos estudantes compreender de que forma a inteligência artificial funciona como linguagem e infraestrutura de transformação nos processos políticos, econômicos e sociais do nosso tempo.
Mas há um ponto do desafio que ainda me inquieta. Se a contemporaneidade tem como marca a aceleração — das tecnologias, das narrativas, das reações —, como lidar com o elemento tempo, tão decisivo para o exercício do pensamento crítico?
O desafio da escola cresce de forma descomunal: como lidar com algo tão complexo justamente em um ano de eleições estaduais e federais?
Distância reflexiva e ceticismo saudável é uma síntese possível. Ainda assim, ‘pensamento crítico’ é um daqueles conceitos antigos que, de tanto circular, acabou empurrado para o território gélido do lugar-comum. É quase sempre bem-vindo, raramente definido. Soa importante, mas nem sempre sabemos explicar por quê. O uso generalizado — especialmente em campanhas publicitárias de instituições educacionais — transformou a epistemologia em mercadoria. Se qualquer gesto de recusa, qualquer arroubo opinativo, qualquer discordância instantânea podem ser chamados de pensamento crítico, então nada o é, de fato.
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Tive a pachorra de investigar a história do ‘pensar criticamente’ e o modo como essa ação foi encapsulada como conceito, no contexto posterior à Revolução Francesa, durante minha pesquisa de mestrado.
Sua origem é pré-socrática, e ele atravessa a história mudando de sentido político e de função cultural. Passa pela Revolução Francesa como símbolo burguês, reaparece como raiz marxista e ganha densidade na crítica cultural do século XX — uma linhagem que nos é mais familiar. John Dewey (1859–1952) aproxima o termo do horizonte educacional, e Anísio Teixeira (1900–1971) o reinscreve, no Brasil, como projeto de escola democrática.
A inquietação com o uso impreciso do termo — inclusive no ambiente escolar — também mobilizou o educador e filósofo John McPeck. Em sua pesquisa, ele defende que o pensamento crítico não é um ‘pacote’ de habilidades gerais de forma descolada dos conteúdos: trata-se de uma competência conectada a campos específicos.
Em outras palavras, pensar criticamente sobre os impactos da inteligência artificial exige um ‘pensar criticamente’ situado — capaz de compreender como diferentes sistemas, em diferentes contextos, reconfiguram mediações, curadorias e filtros da realidade; alteram o acesso ao conhecimento e à autonomia intelectual; e interferem, de maneiras diversas, na participação cidadã.
Ainda assim, há um DNA comum. Pensar criticamente costuma começar pela opinião — o impulso inicial diante de um fenômeno. Mas só se torna crítico quando aceitamos um segundo movimento: suspender o automatismo, dedicar tempo à análise racional, buscar evidências, reconhecer limites e, apenas então, construir uma conclusão (ou um juízo). É nesse percurso que o tempo deixa de ser pano de fundo e vira condição.
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O tempo, hoje, virou sinônimo de crise. Reivindicamos mais tempo para o trabalho, para as tarefas domésticas, para conviver com filhos e família, para descansar, para viver. Mas como encontrar tempo em um mundo que premia a urgência e converte reação em virtude? A imediatez é inimiga número um do pensamento crítico — e, em certos ambientes, chega a inviabilizá-lo.
Há, porém, uma distinção fundamental: o tempo que pedimos para dar conta da vida não é idêntico ao tempo necessário para aprender. A mitologia grega oferece uma imagem útil. Cronos é o tempo do relógio: linear,
regulador, implacável. Kairós, ao contrário, é o tempo oportuno e subjetivo — o tempo da experiência, do amadurecimento, da aprendizagem. É, por excelência, o tempo da crítica.

Kairós, ao contrário, é o tempo oportuno e subjetivo — o tempo da experiência,
do amadurecimento, da aprendizagem (foto: Shutterstock)
Abrir espaço para o Kairós na escola passa, sim, por currículos mais robustos — como os modelos citados anteriormente. Mas passa, sobretudo, pela arte. A fruição artística é talvez a tradução mais precisa do tempo kairótico: ela exige presença, demora, interpretação, ambiguidade, escuta — tudo o que a imediatez tenta expulsar do cotidiano.
Estaremos mais preparados para um ano eleitoral marcado por mentiras e deepfakes na medida em que conseguirmos endereçar o desenvolvimento do pensamento crítico em todas as suas nuances — não como slogan, mas como cultura: uma cultura que revaloriza o tempo necessário para compreender antes de concluir.