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Autor

Paulo de Camargo

Publicado em 29/08/2025

David Rodrigues: uma escola de direitos e deveres humanos

Democracia, equidade e o respeito pela diversidade devem fazer parte do dia a dia escolar, defende professor português que também elenca cinco ideias da escola do presente — ou futuro

Para o pesquisador português David Rodrigues, a escola deve promover os direitos humanos por meio dos deveres humanos. “A escola é o melhor meio que conhecemos para diminuir a desigualdade e isso consegue-se por meio da inclusão”, diz.

Autor e pesquisador internacionalmente respeitado quando o tema é inclusão, David Rodrigues tem uma relação de amor com o Brasil, desde que, há quase 30 anos, começou a participar de projetos entre a Universidade de Lisboa, que integrou, e instituições como a Unicamp. Desde então, tem viajado por todo o país, ora como professor convidado, como palestrante ou consultor de governos em âmbito federal e estadual.

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“Adoro o Brasil não com o olhar superficial do turista, mas com o olhar comprometido com a complexidade de alguém que se sente corresponsável pelo que se passa no país. O Brasil é um enorme e criativo laboratório social: o país fervilha de movimentos, ideias, perplexidades, confrontos, generosidades, espiritualidade e violência”, diz David Rodrigues, que também viaja mundo afora, em projetos da Unesco, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI).

De seu apartamento em Lisboa, sempre bem-humorado, David Rodrigues concedeu à revista Educação a entrevista que você confere a seguir.

David Rodrigues

“Apesar de muito se falar em inclusão, na maioria dos países, o lucro e a meritocracia são valores bem dominantes”, diz professor David Rodrigues (Foto: arquivo pessoal)

Sua perspectiva é de que toda educação deve ser por princípio inclusiva ou não é educação, estou correto?

‘Educação sem inclusão não é educação’ é um slogan. Eu mesmo o tenho usado, mas gostaria de problematizar esta frase. Pode haver sim educação sem inclusão. Pode. Mas sempre será uma educação privada, restrita e local. Quando falamos de educação pública, não é possível pensar numa educação ética, verdadeiramente humana, se ela não acolher todos, se não valorizar todos, se não for de qualidade para todos. Uma educação que promova a equidade, que respeite a diversidade, que respeite o que é (e onde está) cada jovem é, essa sim, uma educação de qualidade. 

A qualidade da educação de cada país não se avalia pelas ilhas de excelência que consegue criar (na verdade, todos os países — mesmo os mais pobres — conseguem criar ilhas de excelência), mas sim pelo que o sistema consegue oferecer aos alunos mais pobres com condições mais desafiantes. Talvez seja este um bom ponto de partida para a educação: trabalhar com a diferença para diminuir o impacto da desigualdade.

Desse ponto de vista, como reposicionaria os desafios da educação global, quando falamos tanto das novas demandas sociais, da tecnologia, do trabalho — e de sistemas avaliativos que miram tanto a performance dos alunos?

É verdade que, apesar de muito se falar em inclusão, na maioria dos países, o lucro e a meritocracia são valores bem dominantes. Vivemos em sociedades dominadas pelos valores do domínio dos mais fortes (uma minoria) sobre os que são julgados mais fracos (a maioria). 

Promover a educação inclusiva não é promover uma metodologia educativa: é promover uma visão da educação e de mundo que respeite a diversidade e procure a equidade. Por este motivo, a promoção da inclusão não pode se circunscrever a modelos pedagógicos centrados na aprendizagem de um currículo acadêmico; se não existir uma vertente de interação com os outros, de entendimento e respeito pelas suas posições, e de solidariedade, a inclusão entraria no superlotado arquivo dos modelos pedagógicos. Por esta razão, a inclusão deve ser entendida como uma reforma educacional que abrange desde as práticas (e, nomeadamente, a avaliação) e os valores que dirigem, inspiram e orientam essas práticas.

O tema da tecnologia é uma das temáticas incontornáveis nos debates educacionais modernos. Como acha que os recursos tecnológicos baseados em inteligência artificial (IA) podem impactar as escolas no que se refere a torná-las mais inclusivas ou excludentes?

Estamos na crista da onda de uma enorme mudança social desencadeada pelo aparecimento, utilização e hegemonia das tecnologias. O desafio que a escola enfrenta é como usar as tecnologias para promover os valores que achamos mais éticos, honestos e humanos. E as possibilidades são enormes. 

A IA permite que o lugar de partida seja bem mais à frente, isto é, disponibiliza plataformas que nos permitem ir mais longe. Presentemente, estamos ainda maravilhados e até um pouco desorientados, isto é, pensávamos que o que tínhamos de fazer é o que a IA já fez. Acredito que com o tempo, com a experiência e a reflexão poderemos então usar este lugar privilegiado de partida que a IA nos proporciona para chegar mais longe. 

Uma coisa é certa: recusar ou restringir o uso da IA é uma tarefa destinada ao insucesso: os humanos são bem melhores que a IA, e só precisam de algum tempo para se convencerem disso.

David Rodrigues

David Rodrigues durante palestra no Colégio Rio Branco (SP) (Foto: arquivo pessoal)

Como vê o desafio das escolas em ajudar a formar pessoas que aceitam diferentes pontos de vista, respeitem a diversidade e argumentem sem violência?

A educação para a cidadania está no tutano da escola. A cidadania aprende-se na ‘cidade’, isto é, na sociedade. Não é a família que pode dar este conhecimento (pode complementá-lo, sim). 

O lugar para aprender cidadania é com pessoas que aprendam diferente de nós, que tenham culturas diferentes da nossa, sonhos diferentes dos nossos, vidas com condições e valores diferentes dos nossos. Mas é certo que temos muitas vezes de enfrentar atitudes que desvalorizam e atacam a diversidade. Alguns professores discordam, por terem sido formados para trabalhar com classes homogêneas (ainda que ninguém saiba bem o que isto quer dizer…). Alguns pais estão tão focados no que acham que é o bem dos filhos que promovem os valores mais tradicionais da escola (semelhantes aos que viveram), na esperança de que os filhos sigam estritamente o caminho que lhes indicaram. 

A escola é um lugar de direitos humanos e um lugar de deveres humanos. O nosso trabalho como educadores (e tendo como aliados muitos pais, muitos alunos e técnicos) é criar, insistir, voltar a criar, voltar a insistir em valores que fundaram o melhor que as nossas sociedades podem apresentar: a democracia, a equidade e o respeito pela diversidade.

No Brasil, há uma crítica ao que parece ser uma explosão de diagnósticos de transtornos, como o TEA (Transtorno do Espectro Autista). Acha que isso se deve a excessos ou realmente estamos incorporando grupos populacionais que estavam excluídos?

A política de considerar que a escola comum é o meio mais adequado para educar todas as crianças trouxe para a escola uma maior diversidade de alunos. Esta maior diversidade ajuda a entender a diversidade que já existia na escola e que muitas vezes estava soterrada debaixo do mito da ‘homogeneidade’. Há, sem dúvida, uma maior diversidade na escola que — se soubermos trabalhar com ela — traz enormes proveitos para a aprendizagem e participação de todos. 

Outra questão é a do diagnóstico (‘o laudo’). Há pouco tempo ouvi no Brasil uma comunicação de um adulto com autismo que dizia orgulhosamente: “Tive de lutar muito pelo meu laudo e finalmente consegui”. Achei estranho… como é que a vitória tinha sido por ter um laudo e não por ter uma vida feliz e bem-sucedida. 

Na legislação portuguesa sobre educação inclusiva é explicitamente mencionado que “Afasta-se a concepção de que é necessário categorizar para intervir”. A verdade é que ninguém fica a saber como educar uma criança só por saber qual o seu ‘laudo’. 

O laudo perpetua uma visão superada, ultrapassada e funesta de que as pessoas que têm um mesmo laudo são mais ou menos parecidas, devem ser tratadas de forma semelhante. 

A ‘epidemia’ dos laudos é prejudicial à criança (porque a rotula de ‘laudada’), prejudicial à escola (que a desautoriza face a ‘especialistas’ que não têm nada a ver com a educação) e às famílias (que, procurando ser úteis ao seu filho, avaliam mal o impacto segregativo que este laudo vai ter na sua vida). Dito isto, os educadores estão longe de saber tudo e precisam de muita interação com outros técnicos — psicólogos, médicos, terapeutas, etc. Só que esta relação deve ser de colaboração e nunca de hegemonia.

Como enxerga o futuro das escolas? É com esperança e otimismo ou está cético em relação aos desafios que temos pela frente?

Pois é… esqueci a bola de cristal. Não sei falar sobre o futuro que se tornou agora, com a explosão da comunicação, ainda mais imprevisível. Prefiro falar do presente que, se for cuidado, pode vir a florir no futuro. 

Deixo cinco ideias rápidas:

1. Antes de mais nada, é preciso que se acredite e robusteça a escola. A escola deve ter a convicção de que é essencial. Os poderes públicos devem, sinceramente, achar o mesmo. No Brasil, penso que é incontornável o debate pela generalização da escola em tempo integral. No meu país isso fez toda a diferença e hoje todas as escolas em Portugal funcionam em tempo integral.

2. Precisamos apoiar mais e mais os professores. Eles estão na ‘trincheira da frente’ e é a eles que compete acolher, acarinhar, ensinar, negociar não só com os alunos, mas com a direção da escola, com os políticos, com as famílias e com a comunidade. Apoio aos professores em salário, em condições, em formação.

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3. Precisamos apetrechar as escolas: bibliotecas, laboratórios, para que haja instrumentos que permitam às escolas ter uma ‘mais valia’, para serem ‘diferentes’, motivadoras e atrativas para os alunos. Precisamos de uma escola aberta a projetos, à voz dos alunos, uma escola, enfim, que saiba que a sala de aula é mesmo só mais um lugar para nos sentarmos, para aprendermos e nos relacionarmos. 

4. Uma escola que se apresente coesa, que tenha um pensamento, um modo de atuação que lhe permita falar com técnicos, com famílias, com políticos numa perspectiva de igualdade e não de subserviência. Sem arrogância — que a escola está longe de saber tudo —, mas sem subserviência. 

5. E, por fim, uma escola ética, uma escola que promova os direitos humanos por meio dos deveres humanos. Onde nunca e ninguém seja desvalorizado ou sobrevalorizado pelas condições que criaram a injusta desigualdade no mundo: o gênero, a riqueza e a cultura da família, a etnia, a orientação sexual, enfim, tantas outras coisas pelas quais, apesar de não termos feito nada para as ter, condicionam a nossa vida e a vida de quem vive conosco. A escola é o melhor meio que conhecemos para diminuir a desigualdade e isso consegue-se pela inclusão.

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