Linguagens do hip-hop como didáticas de letramentos

Por Fábio Roberto Ferreira Barreto*: A palavra hip-hop, em sua origem  etimológica,  se forma a partir da combinação de dois termos: saltar (hip) e mexer os quadris (hop).

Em sua fundamentação epistemológica, quatro fundamentais elementos compõem o hip-hop: dança, MC, rap e graffiti.

A dança – que também dá origem ao termo – é performatizada por b-boys e b-girls (meninos e meninas que praticam o break) por meio das expressões corporais.

O MC (abreviatura de mestre cerimônia) é vinculado ao uso da palavra e, mais especificamente, ao rap (forma reduzida de rhythm and poetry, que em português é pitmo e poesia), que canta seus sentimentos.


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O DJ (abreviação de disc jockey) também promove a parte musical, selecionando discos e músicas, bem como fazendo mixagens.

O graffiti, que representa a expressão por meio das artes visuais nos espaços urbanos, visa a deixar marcas pessoais de seus autores, por meio de registros pessoais e protestos diversos.

@kelly_neriah na 12ª Mostra Cultural da Cooperifa na escola EE Marcia Aparecida da Silva Faria Ries (foto: @ricardotvaz2)

Proposta construtiva a um mundo destrutivo

Oriundo dos guetos de Nova Iorque, por volta dos anos de 1970, para diferentes áreas do mundo, o hip-hop é um movimento cultural associado à expressão das vozes excluídas e emerge como manifestação cultural em prol da união dos excluídos, que disputavam de forma violenta os espaços urbanos mais afastados dos grandes centros.

Os conflitos resolvidos à base da agressão e das armas passaram a ser decididos por meio de batalhas de rima, de dança, de grafitagem, de discotecagem. O movimento instaura uma convivência harmoniosa  e a consciência de que os problemas não eram de indivíduo contra indivíduo, mas de oprimidos contra opressores.

Das áreas mais vulneráveis das grandes cidades estadunidenses, a filosofia do hip-hop se expande para outros lugares do mundo.


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O hip-hop no Brasil

No Brasil, nos de 1970, principia nas grandes capitais, consolidando-se nos anos de 1980 e 1990, entre jovens periféricos, primeiramente, ganhando outras classes sociais.

É a partir do elemento dança, na região central da cidade de São Paulo que o hip-hop se desenvolve, ganhando adeptos e novos contornos. Inclusive, o hip-hop encontra no Brasil elementos muito particulares. A capoeira, por exemplo, se mistura com o “break”. O repente, por sua vez, fazia parte da cultura brasileira quando o rap chegou.  A diversidade musical brasileira influencia a produção dos DJs. As arte visual do país, decerto, influenciou os grafiteiros em suas experiências estéticas. 

Ensinamentos do hip-hop nas didáticas escolares

O hip-hop se insere nos sistemas educacionais desde o início dos anos 90. A prefeitura de São Paulo, de modo pioneiro, criou o projeto Rapensando a educação.

No município paulistano, em 2022 foi realizada a 22a Edição do Mês do Hip-Hop (realizada pelas Secretarias de Cultura, de Direitos Humanos e de Educação).

Pelo Brasil, não são poucas as iniciativas educacionais que têm o hip-hop como protagonista. São numerosas – e, ao mesmo tempo, potentes – as experiências pelo país com o movimento.

BNCC –  Além de amplas referências ao potencial pedagógico do hip-hop na escola, é possível encontrar subsídio na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) no que tange ao trabalho com as linguagens atinentes ao movimento, tais como a dança, a produção de comentários sobre canções, de vídeos, de artes visuais, interpretar poemas, participar de eventos (saraus, competições orais [batalhas de rima, por exemplo]).

Das ruas pra escola

A EMEF Jardim Mitsutani I – Jornalista Paulo Patarra (da rede municipal de São Paulo), localizada na zona sul da capital paulistana levou as ruas para as salas de aulas. Os educadores da unidade escolar colocaram em prática o  projeto Das ruas pra escola: as linguagens do hip-hop como didáticas de letramentos

A proposta pedagógica visa a desenvolver e/ou ampliar as habilidades e as competências  leitora e escritora dos educandos  dos sétimos e dos oitavos anos da escola a partir dos diálogos entre a cultura hip-hop e a o Currículo da Cidade (de qual constam as orientações curriculares da rede de ensino do município da escola).


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O contexto como pretexto

Inserida em um bairro conhecido popularmente como “mutirão”, a EMEF Jardim Mitsutani I – Jornalista Paulo Patarra surgiu da luta de pessoas engajadas e compromissadas com a transformação social e com a promoção humana.

 Essa reminiscência foi relevante para na seleção de propostas e elaboração de intervenções pedagógicas não dissociassem as práticas de ensino da escola de sua cultura local.

Na diversidade cultural do território a que pertence a EMEF, a cultura hip-hop está bastante inserida. Além de contemplar a realidade local, um projeto a partir do  hip-hop vislumbrou-se pertinente aos fins didáticos do último ciclo da escola.

Beco do Batman: uma das etapas

A ida ao Beco do Batman consiste em uma das etapas.  As turmas dos sétimos anos A e B visitaram o famoso ponto de graffiti da Vila Madalena em 30 de março; no dia 31 do mesmo mês, foi a vez dos educandos do sétimo C e do oitavo A. Em 14 de abril, encerrando-se essa etapa, chegou a vez dos discentes dos oitavos Anos B e C.

Hayara Alves é rapper. Faz parte de uma linhagem de mulheres que se dedicam à produção e performatização de suas produções autorais. Dina Di (falecida), Tati Botelho, MC Soffia são apenas alguns  dos outros nomes expressivos. Escute “Fora do padrão”, composta por Hayara quando tinha 13 anos: https://youtu.be/nNIncIpVknc. Ainda é possível incluir artistas trans nessa lista, como a Linn da Quebrada, que participou da última edição do Big Brother.

Etapas anteriores

Mas antes de ir ao trabalho de campo, houve intervenções pedagógicas relevantes. Nas últimas semanas de fevereiro, os RAPs “Ismália”, de Emicida, e “Fora de padrão”, de Hayara Alves, bem como o FUNK “Rap do Silva”, de MC Marcinho (interpretada pelo Mc Bob Rum) em músicas, vídeos e saraus, bem como a reportagem “Museu a céu aberto” (Qualé, ed. 41, p.7-9) foram desenvolvidas para ativar conhecimentos prévios dos estudantes acerca do hip-hop, especialmente nos gêneros rap e graffiti.

No decorrer de março, aprofundou-se o trabalho, especialmente com as linguagens do graffiti e do rap. Nesse período, os gêneros notícia e carta do leitor também foram objetos de ensino e aprendizagem; inclusive, as cartas dos leitores dos educandos dos oitavos anos A  e B foram publicadas na Edição 45 da revista Qualé.

Próximos passos

Ainda em abril, os estudantes fizeram uma visitação virtual à exposição Segredos, dos grafiteiros OsGêmeos.  Entre o final de abril e o começo de maio, os estudantes irão ao Graffiti Contra a Enchente.

Em maio, a EMEF receberá a visita do arte-educador WELD, que também é um grafiteiro importante da região. Na ocasião, além de um bate-papo, será realizada uma oficina e, na sequência, uma intervenção com estudantes do colégio na própria escola.

Obviamente, o projeto terá o desenvolvimento, a partir deste mês, de raps. E, ainda neste semestre, o elemento dança será inserido nas aulas.

Para quem se interessar mais por rap, pesquise sobre Batalhas de Rima (muito presentes nas periferias de grandes cidades, como São Paulo). Também é interessante ir (ou acessar vídeos de performances de rappers) no Sarau da Cooperifa, no qual a literatura periférica e o rap convivem em irmandade.

Por fim, o programa “Balanço Rap”, líder de audiência aos domingos, na rádio 105 FM (São Paulo), sob o comando de Ice Blue (um dos membros do Racionais MCs).

*Fábio Roberto Ferreira Barreto é professor da rede municipal de São Paulo e mestre em literatura pela USP

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