Por que as crianças têm resistência ao aprendizado escolar?

Trata-se de uma manifestação inata da inteligência, ligada à atenção seletiva baseada em propósitos e não um ato de rebeldia oca, como parece, afirma neurocientista

Por Álvaro Machado Dias*: Quando uma ideia se define, a compreensão dela começa a mudar e mudar e mudar, pois este é o processo inevitável para que não seja abandonada e desapareça. Um exemplo emblemático é o da maneira como a vida se organiza em fases. Até pouco tempo atrás, cem anos mais ou menos, o conceito de adolescência não existia. A nossa visão dos estágios da vida era mais simples e menos organizada. Hoje não apenas a gente conhece detalhes do desenvolvimento cerebral desta fase, como a gente aprendeu a valorizar seus aspectos positivos. Que, vistos de longe, não parecem tantos.

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Não só a ideia de adolescência surgiu, como ela se transformou ativamente na luta contra a desintegração e o desaparecimento. Um dia, quem sabe, a gente não vai mais entender essa fase como hoje, seja porque a compreensão vai mudar ou porque a vida em si vai. Se lhe parece algo remoto ou estranho, então considere as estimativas de que em alguns séculos ou menos, vamos viver indefinidamente ou quase. É óbvio que isso exigirá novas divisões das fases da vida. Por isto, é justo dizer que a adolescência é uma construção; um conceito que criamos para organizar a nossa cronologia, que nos ajuda a viver melhor, enquanto preserva algum sentido.

A infância não precisou ser explicitamente reconhecida como fase para que fosse tratada deste modo, já que ela é comum a tantas outras espécies. Mas, mesmo assim, foi necessário que gente como Jean Piaget e Lev Vitgotski mergulhassem em seus meandros para que pudéssemos atribuir-lhes sentido. Olhando por este ângulo, a infância também foi criada, junto com as visões e práticas que adotamos e que, como sempre, precisam se transformar para se manterem relevantes.

Conceitos como adolescência e infância servem para delimitar seu próprio fim. Um dia todo mundo cresce, quer dizer, todo mundo que atravessa etapas. E o que nós adultos fazemos é usar estratégias para garantir que essas se sucedam.

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Foto: Freepik

Diluições

Na sociedade atual, este papel de condutor recai fortemente sobre a escola, cuja missão praticamente impossível é converter o progresso da sociedade em conhecimento individual e de grupo, tanto em termos técnicos, quanto morais. Isto é feito a partir de estratégias de ensino que se apoiam em visões do aprendizado.

A tendência hoje em dia é considerar que a lógica do aprendizado é a do saber fazer. E é interessante notar como, mais e mais, as barreiras entre o aprendizado orgânico e o sintético vão sendo diluídas. Você escreve palavras num processador antigo de texto e ele não retém nada. Você seleciona um vídeo no aplicativo, e ele incorpora um princípio. Retenção de princípios é o sentido mais amplo de aprendizado. Memorização pura e simples, não.

A essência da diferença está na plasticidade envolvida: a da memorização é como uma nova gaveta, enquanto a do aprendizado é uma forma de construir armários. O ser humano não é muito bom de memorização, porém é campeão de aprendizado. E isso é uma vantagem, mas também um problema.

Existe um consenso de que aprender é sempre bom. Mas, como a maioria dos consensos, este também está errado. Uma relação conflituosa em casa, por exemplo, gera um conjunto de aprendizados profundos e disfuncionais, que idealmente deveriam ser evitados. Quem nunca se rebelou contra uma forma de fazer as coisas que julga errada? Isso tem um nome: resistência ao aprendizado. Sua função não deve ser subestimada; é praticamente tão fundamental quanto aprender em si mesmo.

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Fruto da inteligência inata

A ideia de que aprendizado ruim é pior do que nada dá o tom da vida escolar. Grande parte das crianças aprende por observação, que o ensino formal é uma espécie de obrigação, que as desumaniza e não lhes soma nada. Isto faz com que antevejam anos de apatia, um pouco como prisioneiros num campo de trabalho forçado, cuja percepção mais dura é a de que o esforço do dia a dia é basicamente inútil. Que poderia ser feito por uma máquina, ou mesmo eliminado de uma vez.

A resistência ao ensino escolar é uma forma de defesa dos princípios do aprendizado, que crianças e adolescentes põem em prática nos limites de sua capacidade de elaboração e autonomia. Trata-se de uma manifestação inata da inteligência, ligada à atenção seletiva baseada em propósitos e não um ato de rebeldia oca, como parece. É claro que o tiro acaba saindo pela culatra. A rejeição ao ensino formal cria um descompasso em relação ao progresso da sociedade, que por sua vez é a força que contrabalanceia a tendência à desorganização social e à barbárie. A versão futura da criança invariavelmente paga caro pelo comportamento refratário, assim como pagam seus pais e a escola.

Mas isso é meramente a consequência indesejável de uma tendência adaptativa em sua base, que a gente precisa entender melhor e acomodar, nem que para isso precisemos deixar para trás algumas premissas que até ontem pareciam válidas sobre a relação entre repertório inato e ensino. As pessoas nascem com uma inclinação natural para explorar o ambiente ao redor. Esta vem diluída na maneira como a realidade é espontaneamente incorporada, de maneira muito mais interativa do que intelectual. O mundo pra quem não o conhece é uma espécie de parque temático das oportunidades, conforme escrito no bilhete de entrada, é impossível conhecer todos os brinquedos.

Truques naturais

Por sorte, as crianças vêm equipadas com um senso espontâneo de relevância, que as faz reconhecer rapidamente onde estão as maiores recompensas. É o tal sistema 1, de que falam Kahneman e Tversky. É a tal intuição decisória, que descrevi no começo da década passada. No topo das prioridades, estão comida, conforto e segurança. Porém logo abaixo, vêm as simulações das coisas que um dia podem se provar úteis. Aquilo que os adultos convencionaram chamar de brincadeira.

A criança não brinca para se divertir. A diversão é uma experiência-prêmio que a evolução nos legou. Algo que as pessoas de todas as idades sentem quando interagem com aquilo que lhes parece interessante, o que de maneira geral quer dizer biologicamente relevante e que na infância e mesmo na adolescência recai com precisão sobre as habilidades simuladas da vida adulta. A satisfação da criança ao brincar é um truque evolucionário, para fazê-la se dedicar à elaboração de sua versão madura, o que à princípio, tem tudo a ver com a escola.

Porém, o cérebro vem de fábrica com uma regrinha que diz que as coisas relevantes são por si só evidentes. Não são tantos os adultos que definem aquilo que têm interesse, mas um sistema próprio, que apesar de altamente influenciável, não muda de uma hora para outra. A fábrica de onde vêm os cérebros é antiga, em termos evolucionários e a prensa não é compatível com as especificações do aprendizado formal. Antes de pensar o que fazer, é importante notar uma coisa.

Dez entre dez especialistas em carreiras dizem que a única defesa contra a automação é a cognição social.

Esses mesmos vivem reiterando a importância de “pensar fora da caixa”. Estourar caixas e interagir com os outros são duas das diversões que vêm de fábrica com o cérebro. O que sugere que a produção talvez não esteja tão obsoleta assim.

De olho no que “ditam”

Eu tenho minhas dúvidas se o futuro do trabalho vai ser tão diferente do nosso presente quanto se fala, mas fato é que se for metade do que estão dizendo, realmente vai importar mais a capacidade de forjar relacionamentos do que a de forjar o substituto do aço. Aliás, já é assim hoje em dia.

A criança-problema que galvaniza os amigos na sala de aula é o protótipo daquilo que os adultos buscam, mas raramente encontram: lideranças carismáticas. Mover-se rápido e quebrar as coisas é o lema N1 do Vale do Silício e da infância rebelde. Não estou dizendo que haja transferência de conhecimento de uma situação para outra. A liderança é dependente do contexto, não existindo por si só. E o mesmo perfil carismático vira o amigo sem rumo de baladas. Então, nada de se animar simplesmente porque seu filho ou filha toca o terror. O ponto que precisamos reconsiderar é outro.

Por que, afinal, tantas crianças e adolescentes resistem ao aprendizado formal? A resposta para mim é clara: porque eles entram em conflito com mecanismos internos cuja função nativa é justamente aprender. O aspecto central não está no narcisismo, hedonismo ou no egoísmo infantojuvenil. Estas são perspectivas válidas, mas parciais, que partem do ponto de vista de que o adulto está sempre certo.

Não, meu caro, do ponto de vista evolucionário, o adulto é o errado. A criança que resiste ao ensino está defendendo sua capacidade de aprender, usando o recurso que lhe cabe para tanto: a detecção de relevância, que estimula a prática de habilidades de valor atemporal, como empatia, as coalizações de grupo e o pensamento corporal.

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Mais quali do que quanti

A sociedade moderna tem suas formas de evoluir e de se contrapor à entropia, mas elas entram em conflito com modelos alternativos, forjados ao longo de milhares de anos para a mesma coisa. Aliás, a tradição psicométrica é medir a inteligência infantil, a partir da progressão entre fases. A idade em que a criança falou, antes, a idade em que deu os primeiros passos; a idade em que aprendeu a contar até 10. É isso que se vê em aplicativos de grande sucesso como o Kinedu e na lógica das séries escolares. Porém, muito mais importante do que a mera passagem por esta cronologia linear, é a natureza do processo exploratório: mais intenso, menos intenso, mais profundo ou superficial. Mais quali do que quanti. Por toda a vida será assim: as grandes sacadas, os verdadeiros insights quase sempre surgem de formas particulares de exploração do mundo, sustentadas pela motivação espontânea por tempo suficiente para que possam gerar frutos.

O papel do conhecimento adquirido na escola é servir de base para o pensamento livre, ágil, propenso a cortar através desses platôs, cuja importância está em estimular – e não sufocar – a motivação genuína.

É o uso da função relevância que serve de pivô para o neurodesenvolvimento da inteligência durante a infância, adolescência e vida adulta. É ele também que contrabalanceia o declínio cognitivo que tantas vezes acompanha o envelhecimento. O problema da resistência ao ensino escolar é muito mais profundo do que pode parecer. A defesa que a criança faz contra o formalismo expositivo e contra a ideia de que deve se engajar naquilo que gente tão diferente dela está dizendo que é relevante, apoia-se em um mecanismo que vai garantir saúde mental por toda a vida. E que se define pela capacidade de identificar por si só o que tem interesse e de explorar esta realidade por tanto tempo quanto o prazer recomendar.

O fantasma que lhe assola é o da apatia. É o de se tornar alguém capaz de aguentar…a escola. E acabar trocando isso pela vida.

Álvaro Machado Dias

Foto: reprodução

Claro, não qualquer vida, mas a virtuosa. E não qualquer escola, mas a pensada pelos adultos conformistas. A escola cuja função real é rechaçar tudo aquilo que a criança deixou de aprender, pois já nasceu sabendo.

*Álvaro Machado Dias é neurocientista, professor livre-docente de neurociências da Universidade Federal de São Paulo. Autor de 100+ papers internacionais. Fellow da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge). Membro do Painel Global do MIT Tech Review. Mestre, Ph.D., pós-doutor.

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