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Escolas de elite querem desnaturalizar o racismo

Imposta por grupos de pais, mães e responsáveis, essas instituições vivem a onda da agenda antirracista. Eles querem um currículo longe de estereótipos e pedem mais negros na equipe escolar e no número de alunos

Publicado em 25/02/2021

por Laura Rachid

desnaturalizar-racismo-escolas-elite-sp Foto: Pexels

Racismo e negação sempre estiveram presentes na construção do Brasil. Primeiro com os povos indígenas — a maioria exterminados — e depois com os africanos forçados à escravidão. O fato é que o contexto de muitas leis já aplicadas no país é repleto de privilégios e preconceitos, impedindo o reconhecimento de uma população plural e mais ainda, diminui o acesso a oportunidades de um povo que carrega um histórico de injustiça. Essa situação chegou a um ponto de criarem uma lei que prendia quem estivesse de pés descalços, com o claro intuito de criminalizar indígenas e escravos. Até a capoeira já foi proibida.

Leia: Entenda o que é uma educação antirracista e como construí-la

Para Oswaldo de Oliveira Santos, mestre em ciências da religião, pesquisador sobre direitos humanos e professor universitário, o racismo tem por função a exploração do homem sobre o homem. A filósofa Djamila Ribeiro, em seu livro O que é lugar de fala (ed. Letramento), diz: “Numa sociedade como a brasileira, de herança escravocrata, pessoas negras vão experienciar racismo do lugar de quem é objeto dessa opressão, do lugar que restringe oportunidades por conta desse sistema de opressão. Pessoas brancas vão experienciar do lugar de quem se beneficia dessa mesma opressão. Logo, ambos os grupos podem e devem discutir essas questões, mas falarão de lugares distintos”.

E a escola com isso?

O racismo estrutural está enraizado na sociedade. E se é papel da educação preparar os meninos e meninas para o mundo, discutir privilégios e desigualdades está entre as questões urgentes. Pelo menos é o ponto de vista de famílias que estão praticamente exigindo que as escolas reconheçam essas e outras tantas injustiças e que façam algo para reverter a situação.

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista.” A fala que se tornou referência ao se tratar desse tema é de Angela Davis, intelectual, ativista e uma das principais vozes mundiais sobre feminismo negro. É desse princípio que muitos pais, mães e responsáveis estão partindo.

O cenário é a cidade de São Paulo — uma das mais ricas do país —, em que algumas escolas de classe média alta, cuja mensalidade varia de R$ 2.000,00 a pouco mais de R$ 4.000,00 estão vivenciando um processo de políticas afirmativas.

Fundada em 1963, a Escola Vera Cruz, localizada na zona oeste de São Paulo, entendeu que para adotar o antirracismo como um de seus nortes é preciso inserir ações contínuas no ambiente escolar. No caso, aplicar apenas a necessária lei 11.645 de 2008, que inclui no currículo oficial da educação básica a obrigatoriedade da temática história e cultura afro-brasileira e indígena, é tratar do problema em sua superficialidade É preciso ir além. No final do segundo semestre de 2020, por exemplo, o Vera lançou por tempo indeterminado o Projeto Travessias, em que uma das missões é matricular anualmente 18 crianças de cinco anos que estejam na última etapa da educação infantil e garantir bolsa a todas elas até a conclusão do ensino médio. A ideia é começar este ano.

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“São várias frentes. Tem essa de bolsas para alunos negros e indígenas. São bolsas totais e parciais, sendo que 50% vêm de um fundo aberto pela Associação Travessias, composta de pais e 50% da escola. A escola bancará 50% dessas bolsas”, explica a diretora pedagógica Regina Scarpa e cuja ajuda para esse fundo também virá de ex-alunos e empresas.

Aliás, outro compromisso do projeto é ampliar o quadro de profissionais negros na docência e gestão. Segundo a diretora, já há contratação para o início deste ano. “Temos o Instituto Vera Cruz que tem graduação em pedagogia e outras, cursos de extensão e núcleo de pesquisa e nesse núcleo estamos desenhando projetos de como se dá essa interação entre crianças negras que vão chegar para a gente ir aprendendo por meio do olhar delas o que é racismo, preconceito, discriminação, se essas coisas já aparecem e enquanto escola como vamos colocar isso em pauta para não ser um tema silenciado, colocado embaixo do tapete”, explica. “Com a chegada dessas crianças aumenta ainda mais a importância da representatividade. É a primeira vez que a escola faz uma política afirmativa”, acrescenta Regina Scarpa.

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Mildred Aparecida é mãe e professora no Gracinha e docente também no Santa Cruz (foto: arquivo pessoal)

Pais e alguns professores da Escola Nossa Senhora das Graças, o Gracinha, localizada no Itaim Bibi, São Paulo, criaram em 2020 um grupo de ações antirracistas composto de um núcleo geral e que também é dividido em três frentes. Uma é a de letramento e sensibilização da comunidade, a qual enviou no final do ano passado para todo o corpo escolar (famílias, funcionários e educadores) um material antirracista com dicas de livros e filmes. Para este ano a ideia é lançar um clube de leitura. “Entendemos que, por mais letrada que a pessoa seja, não dá para discutir racismo somente a partir do nosso achismo. Temos que discutir em cima do conhecimento já acumulado e que coloca por cima o que a gente acha”, alerta Mildred Aparecida Sotero, mãe e professora de educação física no Gracinha e docente também no Colégio Santa Cruz.

A segunda frente é a do currículo, que tem presença maior dos educadores do Gracinha, mas de cuja direção pais e mães também participam. Quando essa frente se estruturou, o grêmio estudantil e coletivos como o feminista foram convidados a colaborar. “A frente de currículo vai mexer no que é feito em sala de aula. No Gracinha e Santa já existe um trabalho nesse sentido, mas a ideia é potencializar e tirar equívocos que podemos cometer. Por exemplo, o que a gente faz com Monteiro Lobato, que é reconhecido como racista só que também não podemos negar o valor e alcance de suas obras? Continua falando dele, mas problematiza, busca encontrar onde está o racismo, falar de contexto”, detalha Mildred Aparecida.

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Contratação de profissionais negros é a terceira frente. Para isso, o grupo antirracista do Gracinha entrou em contato com empresas que atuam com diversidade no mundo corporativo. “Fizemos reuniões com várias e selecionamos três que passamos para a direção, que vai contar com serviços que tratem de tornar o Gracinha um ambiente atrativo para negros. Atrativo é ambiente confortável, lugar em que essa diversidade não seja incômoda para ninguém, tanto professores negros que possam vir a trabalhar no Gracinha quanto famílias que queiram matricular os filhos”.

Nesse processo, o grupo descobriu que faltam empresas que atuem nessa linha de contratação para escolas. Diante disso, o Gracinha e o Santa Cruz se uniram na criação de um banco de currículos negros e indígenas. “Estamos com mais de 300 currículos de professores, bibliotecários, estagiários, auxiliares de classe, coordenadores pedagógicos”, conta Mildred Aparecida. Para essa ação foi criada a página no Facebook Currículos negrxs e indígenas.

No Gracinha há bolsas filantrópicas, mas não afirmativas. Indagado se a escola pretende lançar bolsas raciais, o diretor Wagner Cafagani defende que uma iniciativa como essa precisa ser tratada de forma responsável, acolhedora e sincera. Não é do dia para a noite. A mesma coisa com a contratação de profissionais negros. Para ele é necessário um preparo rumo a uma construção efetivamente antirracista, que é o que se pretende com o Projeto Travessias no Vera Cruz.

“Dar bolsa não vai resolver o problema. Queremos incluir esse grupo, mas isso exige mudança de atitude de muita gente e de toda a instituição”, diz Cafagani.

Mildred Aparecida tem um menino de 23 anos e uma menina de 17 anos. Eles sempre estudaram em escola particular, muitas vezes sendo os únicos negros. Sua filha já teve vontade de operar o nariz por achá-lo largo e feio e chegou a alisar o cabelo três vezes.

“Essa falta de alguém que pareça com eles nesse ciclo passa a sensação de que são exceção ou de que o negro não é capaz de estar lá, seja por questão econômica, cultural ou social. E não é verdade. Isso não é uma impossibilidade. A falta de negros nesse ambiente de classe média é um fato. O baixíssimo número de negros é um fato que não pode ser olhado como impossibilidade, isso marcou muito a vida dos meus filhos. Para eles se reconhecerem como negros foi um processo no qual eu e meu ex-marido tivemos que trabalhar. E se você parar para pensar, uma família branca não tem que reafirmar que seu filho é branco”, desabafa.

Engênio Lima com seus filhos: Aurora e Jorge. Ele sabe que combater o racismo estrutural é mexer em privilégios, no caso, dos brancos

Sem salvacionismo

A comissão antirracista de pais, mães e responsáveis do Colégio Equipe, em Higienópolis, surgiu há seis meses e conta com cerca de 100 membros. A primeira ação foi com a ocupação por uma semana das redes sociais do colégio, em novembro do ano passado. A comissão divulgou conteúdos voltados à conscientização sobre racismo estrutural. Além disso, alguns dias de aula foram focados em histórias e mitos de criações africanos, hip hop e até participação negra nas eleições. Para essa ação, além dos professores residentes, educadores negros de fora também participaram. Live com a portuguesa, artista e especialista em pós-colonialismo, Grada Kilomba, que provoca sobre o racismo dizendo ser uma problemática branca, também foi outro momento marcante para o colégio.

Discussões sobre o tema do ponto de vista institucional ocorrem desde 2019, segundo a diretora do Equipe, Luciana Fevorini. O colégio pensa em oferecer bolsas para negros mas, assim como no Gracinha, falta um projeto estruturado, uma agenda antirracista. “Talvez criar um fundo em que ex-alunos possam apoiar financeiramente. E também estamos procurando fazer ações e parcerias com escolas públicas para trocas educacionais, pedagógicas, culturais, e aproximar as duas realidades”, conta.

Sendo assim, a diretora enxerga como positivo esse tipo de ação dos pais e também dos movimentos sociais em prol de justiça e igualdade com equidade.

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“Acho muito rico e, de fato, estão apontando para situações que eram e são pouco percebidas. Não é bom naturalizar situações de desigualdades, preconceitos, discriminações. Acredito que com esses movimentos todo mundo aprende e amplia o saber histórico, social e cultural”, defende Fevorini.

Eugênio Lima é pai no Equipe, DJ e ator-MC (intérprete que mistura aspectos do ator-narrador do teatro épico com o MC da cultura hip-hop). Ele enfatiza que o objetivo da comissão foge de uma proposta romântica e salvacionista. O intuito é mudar a estrutura, fazer uma grande reformulação curricular e de representatividade, incluindo mais alunos negros, professores, coordenadores e pessoas negras na equipe da direção escolar.

“Há uma diferença entre representatividade e diversidade. Não basta, por exemplo, aumentar a presença negra e o currículo continuar eurocentrado”, alerta Lima.

O DJ também sabe que, durante o processo, pode surgir algum problema com famílias com visão contrária. “Estamos mexendo com privilégios e o enfrentamento é natural, porque as pessoas brancas, de maneira geral, não enxergam os seus próprios preconceitos. Elas acham normal.”

O silêncio como cúmplice

No documentário lançado pela Netflix recentemente, AmarElo, do diretor Fred Ouro Preto, cujo rapper e compositor Emicida dá uma aula de história, identidade e referências de resistência negra, há um momento em que ele lembra de quando estava em um museu da escravidão em Angola, em frente a uma pia e “tava escrito um texto na parede que era mais ou menos assim: ‘foi nessa pia que os negros foram batizados e através de uma ideia distorcida do cristianismo, eles foram levados a acreditar que eles não tinham alma’. Eu olhei pro meu parceiro e naquele dia eu entendi qual era a minha missão. A minha missão cada vez que eu pegar uma caneta e um microfone é devolver a alma de cada um dos meus irmãos e das minhas irmãs que sentiram que um dia não teve uma”, diz o rapper.

Processo similar  viveram os indígenas no período da invasão do Brasil, com a igreja autorizando a morte deles por crer que não possuíam alma, uma vez que os indígenas não acreditavam no Deus dela.

É importante destacar que esses movimentos nas escolas não negam a história, mas entendem que há uma visão única de mundo que naturaliza o racismo e exclui os saberes e costumes indígenas, negros, ciganos e tantos outros grupos ainda marginalizados. O objetivo é ampliar, respeitar e dar oportunidade.

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Autor

Laura Rachid


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