Para evitar o abre e fecha

Diferentes escolas, vários países, mas as recomendações são as mesmas. Olho nas crianças e muita orientação

O Colégio Dom Bosco, de São Luís, no Maranhão, viveu momentos de muita tensão no início da pandemia. Quando houve a determinação de fechamento, em março, imediatamente os professores foram mobilizados para a preparação de aulas assíncronas, o que foi feito por duas semanas, quando a direção dessa escola de tíquete mais alto da capital resolveu dar um mês de férias — não sem antes capacitar os professores na nova plataforma online. Na volta tudo foi diferente.

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Raissa Murad, a diretora pedagógica, é uma incansável pesquisadora. E neste caso da pandemia se valeu disso para buscar novas saídas para a escola. “Tudo era novo”, diz ela. Era novo para todo mundo, a ponto do Consed, que congrega os secretários de Educação dos estados brasileiros, elaborar diretrizes para ajudar redes e escolas no retorno: suspender atividades presenciais em grupos, limitar a quantidade de alunos à metragem da sala, revezar horários de entrada e saída, sinalização de rotas e criar rotina de triagem e higienização na entrada da escola.

O Colégio Dom Bosco reabriu para o ensino presencial em 3 de agosto, seguindo a orientação do governo. Primeiro chegou o último ano dos ensinos médio e fundamental. E a cada semana foram os demais. Como as salas de 75 metros quadrados acomodam muito bem os 30 alunos de cada ano, estabeleceu-se que a turma seria dividida pela metade. Quinze ficavam em casa, assistindo às aulas online que naquele momento eram ministradas presencialmente para os outros 15 alunos.

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Colégio Dom Bosco, de São Luís, Maranhão (foto: divulgação)

Escola e pandemia, momento atípico

Raissa Murad, doutora em metacognição pela PUC-SP, é a terceira geração da família que fundou a escola. Fala com emoção de cada ação para preservar os alunos. “Para a volta estabelecemos duas premissas: foco na saúde e olho na qualidade do ensino.” Foi criado um protocolo próprio, com a assessoria de uma infectologista. “Precisamos que as famílias se sintam seguras para que o filho frequente a escola; mas as aulas continuam online para quem quiser.” Detalhe, o aluno em casa não vê os colegas em sala de aula.

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Em artigo na revista científica Lancet, membros da Unesco falam da promoção da “alfabetização higiênica”: “professores devem agir como promotores da saúde para seus alunos desde cedo, estimulando ativamente hábitos de atividades físicas, boa higiene pessoal e dieta balanceada, e advertindo para as consequências de comportamentos de risco”, diz o texto divulgado na internet.

Na Dinamarca, onde as escolas estão reabertas desde 15 de abril, as crianças têm de lavar as mãos de cinco a seis vezes por dia. Classes de 20 foram divididas em dois, e as crianças são o dia inteiro lembradas por educadores a ficarem distantes entre si. No recreio, podem brincar em grupos de no máximo quatro, e cada grupo fica em um canto do pátio.

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Raissa Murad, a terceira geração à frente do colégio (foto: divulgação)

Raissa Murad montou um esquema de guerra: na entrada da escola ficavam os funcionários orientados para acolher a criança que chegava. Na porta do banheiro, mais funcionários para impedir alunos além do que o permitido. E ao lado de cada professor na classe, um auxiliar, com a denominação de anfitrião, para ajudar o professor.

E os problemas? Raissa Murad, que trabalha há 25 anos na escola, responde: “Passado o impacto e tensão dos primeiros dias, verificou-se que as crianças menores obedeciam ao protocolo de forma exemplar. Eles ficam um período só na sala, não tem intervalo. O lanche é feito em plena sala”.

O Colégio Dom Bosco busca se diferenciar. Todos os 100 professores frequentaram uma pós-graduação em metodologias ativas, promovida pela escola, há dois anos. “Nossa missão é formar jovens que venham a ser bem-sucedidos na vida pessoal e se saiam bem profissionalmente. Para tanto, nosso olhar é para a capacitação dos professores”, diz Raissa Murad.

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Sensibilidade ainda mais aguçada

“Para algumas crianças, a quarentena foi um período seguro e agradável. Para outras, foi traumática e desafiadora”, diz a Fundação Britânica de Saúde Mental em documento de orientação de volta à escola, lembrando que muitas famílias podem ter perdido entes queridos ou sua fonte de renda, ou enfrentado problemas mentais (como depressão) durante o período de confinamento.

No relatório Estratégias para a Reabertura de Escolas, feito por Unicef, Unesco, Banco Mundial e o Programa da ONU para Alimentação, os órgãos afirmam que “quanto mais tempo as crianças marginalizadas ficarem fora da escola, menor é a probabilidade de que retornem. Crianças de lares mais pobres já têm cinco vezes mais probabilidade de não estar na escola primária, em comparação com lares mais ricos. Ficar fora da escola também aumenta o risco de gravidez na adolescência, exploração sexual, casamento infantil, violência e outras ameaças”.

A organização Todos pela Educação recomenda um retorno gradual, atento à saúde emocional e física da comunidade escolar. Aconselha avaliação diagnóstica imediata para identificar os diferentes níveis de aprendizagem dos estudantes e uma comunicação mais frequente com as famílias.

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Segurança em primeiro lugar

Não é uma avaliação simples. Na França, por exemplo, onde a reabertura começou em 11 de maio, algumas escolas tiveram de fechar temporariamente na semana seguinte, depois que surgiram 70 novos casos de covid-19 no ambiente escolar (embora a percepção fosse de que, diante do tempo de incubação do coronavírus, o contágio dessas pessoas provavelmente ocorreu antes da volta às aulas).

Até mesmo o médico Drauzio Varella entrou nessa discussão e postou no seu blog: “as escolas têm papel fundamental na organização das famílias. Elas não servem apenas de espaço de aprendizado: é lá que crianças fazem refeições — para muitas, a única do dia —  e ficam em segurança enquanto os pais trabalham. A escola também ajuda a coibir a violência contra a criança, já que a maioria dos casos de abuso sexual e maus-tratos ocorre em casa”.

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