Para que serve a alfabetização midiática e informacional (AMI)

Perceber, compreender e aprender a lidar com as mídias envolve o exercício de competências e habilidades

Desde o último dia 23, o mundo inteiro celebra a 9ª Semana Mundial da Alfabetização Midiática e Informacional (AMI), organizada pela GAPMIL, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da UNESCO, uma instituição composta por mais de 700 organizações, governos e indivíduos nos cinco continentes.

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A Global MIL Week 2020 vai abordar o tema Resisting Disinfodemic: Media & Information Literacy for everyone & by everyone (Resistindo à Desinfodemia: Alfabetização Midiática e Informacional para todos e por todos), enfocando a importância da AMI para combater essa epidemia de desinformação a que estamos assistindo, e que se acentuou assustadoramente durante essa pandemia.

Há 30 anos eu entrei para fazer mestrado na ECA/USP já preocupada em entender melhor e mais profundamente a relação das crianças e jovens com as mídias. Parti da minha trajetória pessoal como mote para a pesquisa, porque eu fui uma criança que, aos 11 anos, teve a oportunidade de publicar histórias e pequenas reportagens no Júnior, então Suplemento Infantil do Diário de Pernambuco.

A publicação desse material somado ao apoio dos meus pais e professores, fez com que eu decidisse ser jornalista. E isso mudou a minha vida.

alfabetização midiática

Foto: Envato Elements

Dessa forma, a proposta do meu projeto de mestrado era avaliar o quanto as crianças e jovens, quando tinham a possibilidade de compartilhamento de suas ideias e percepções por meio de uma publicação – no caso o jornal escolar –, transformavam a sua relação com a mídia e mais especialmente, ganhavam voz na comunidade e acesso aos meios de comunicação de uma maneira mais consciente, e com isso, sentiam-se empoderados para empreender ações que transformassem a sua vida e a do seu entorno.

Conscientizar para fortalecer

O resultado não poderia ter sido outro: confirmei a minha hipótese, e de lá pra cá ela foi se tornando, além de certeza, uma realidade no meu dia a dia, viajando por esse Brasil, fazendo oficinas com crianças e jovens e oferecendo formação para inúmeros professores.

Durante 13 anos integrei o programa Folha Educação, da Folha de São Paulo, que formou milhares de professores de todo o país para o trabalho com o jornal em sala de aula. Também nesse programa testemunhei a potência e a importância do trabalho de educação para as mídias na escola.

Em 2018, eu e Flávia Aidar, criadora do Folha Educação e de tantos projetos nessa área de alfabetização midiática e informacional junto comigo, lançamos o livro Como não ser enganado pelas fake news (ed. Moderna), dentro da Coleção Informação & Diálogo, que tenho o privilégio de coordenar.

Em síntese, é um livro voltado para jovens do 6º ao 9º. ano cujo objetivo é promover reflexões sobre as mídias e sobre como podemos lidar com elas como cidadãos curiosos e responsáveis pelo que lemos, curtimos, compartilhamos e produzimos na internet.

Alfabetização midiática em pauta

Sendo assim, recupero toda essa trajetória para dizer que chega em muito boa hora o movimento em prol da alfabetização midiática informacional e que o apoio de uma instituição como a Unesco só reforça a constatação de que esse é um assunto que veio para ficar, por muitas razões. A principal delas, a meu ver, tem muito a ver com o trabalho que comecei lá atrás, nos idos dos anos 80.

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É certo afirmar que somos nós quem fazemos e influenciamos as mídias e seus conteúdos, mas é cada vez mais evidente que as mídias nos direcionam, nos influenciam e, como diz seu próprio nome, mediam as nossas relações, sejam elas conosco mesmos, com a família, com a sociedade, com o governo e demais instituições.

Perceber, compreender e aprender a lidar com essa mediação envolve o exercício de competências e habilidades que fazem parte da formação de qualquer cidadão nos dias de hoje.

Ainda mais necessária

A alfabetização midiática e informacional está para além de fornecer elementos e ferramentas para o acesso, a criação de conteúdos e participação nas mídias. Hoje em dia, especialmente, essa área do conhecimento oferece, por exemplo, a possibilidade de cada um de nós refletir como se relaciona com as mídias para se informar e se expressar no meio em que vivemos.

Se a internet se tornou um mar de vozes, identificar, selecionar, criterizar e criticar aqueles que estão à nossa disposição, de modo a exercitar a criatividade, o pensamento dialógico e as diferentes possibilidades de participação cultural e social no contexto em que vivemos, é simplesmente fundamental.

Além de potencializar a compreensão do universo no qual estamos inseridos, a educação sobre as mídias é uma possibilidade de se trabalhar a empatia, o senso de unidade entre as pessoas, propiciando meios de participação social efetivos, reduzindo preconceitos, a polarização e a exclusão em todas as comunidades.

Falar sobre a educação para as mídias no momento em que vivemos é, portanto, lidar com o descrédito das instituições antes inabaláveis para nós como a ciência, a igreja, a família e a imprensa, é claro. Nas palavras do jornalista e escritor de tecnologia Cory Doctorow, “não estamos vivendo uma crise sobre o que é verdade, estamos vivendo uma crise sobre como sabemos se algo é verdade“.

Senso crítico

E o caminho para o questionamento criterioso das muitas verdades existentes nas ideias e conceitos alardeados na internet é a formação do pensamento crítico. Porque para duvidar é preciso perguntar e para perguntar é preciso conhecer hipóteses. A educação midiática é um convite para esse exercício cotidiano de construir trilhas em busca de informações que possam ser transformadas em conhecimentos, que possam resolver os nossos problemas e as questões candentes da humanidade.

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A AMI serve, sobretudo, para que sigamos perguntando, por exemplo, de que maneira a nossa atenção está sendo sequestrada, vendida, subtraída nos labirintos das redes sociais?

De que modo os nossos desejos, preferências, a nossa percepção do entorno está sendo mobilizada e “ajustada” pelos bots, pelos buscadores automáticos, e principalmente por essa meia dúzia de corporações que monopolizam as mídias? É preciso exercitar cotidianamente um certo ceticismo para encontrar caminhos que nos conduzirão às múltiplas respostas dessas questões.

Aliando os mundos de forma saudável

Por incrível que pareça, o uso, o compartilhamento e a produção de conteúdos nas mídias fizeram com que cada um de nós, hoje muito mais do que consumidores ou usuários das mídias, mas sobretudo produtores, chegássemos ao mesmo lugar dos nossos antepassados nos perguntando:

somos mesmo livres para expressar o que pensamos, queremos, negamos? Até onde vai a nossa liberdade de expressão, presente na maioria das constituições dos estados democráticos?

A educação por meio das mídias e sobre elas é uma poderosa ferramenta, em suma, para a formação cidadã, e tão somente porque as mídias nos revelam, em seu microcosmo, como funcionam as relações de poder entre os seres humanos. E como já sabiam os que pensaram nisso antes de nós, são essas relações que determinam todo o resto: desde a maneira como falamos, nos vestimos, nos enxergamos, até a maneira como trabalhamos, produzimos e contribuímos com a sociedade.

Talvez esse seja o maior papel da alfabetização midiática e informacional: nos ensinar a olhar, a juntar as partes para compreender o todo. O mundo está fragmentado, “líquido”, como diz o filósofo Zigmunt Bauman, e temos sido testemunhas de que tudo o que é sólido pode derreter.

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Sendo assim, aqui peço licença para citar um trecho de um dos livros que mais gosto do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, o Livro dos abraços (ed. L&Pm):

A função da arte 1

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.

Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

– Me ajuda a olhar! 

Aprender a olhar o que as mídias mostram e o que escondem, o que revelam sobre nós mesmos, nossos gostos, preferências, nosso lado mesquinho ou generoso, nossos vieses de confirmação, nossa negação e necessidade de afirmação. Talvez a maior função da educação midiática seja, ao fim e ao cabo, nos ensinar a olhar.

Em resumo, para participar da 9ª Semana Mundial da Alfabetização Midiática e  Informacional (AMI), compartilhando informações, ideias e projetos, sejam eles on ou offline, nas redes sociais, é só digitar a hashtag #GlobalMILWeek em suas postagens. Você pode também usar as hashtags abaixo para reforçar a campanha:

#GAPMIL

#globalMIL

#globalMILWeek2020

https://en.unesco.org/commemorations/globalmilweek

Januária Cristina Alves é mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira É pesquisadora do folclore brasileiro e da cultura popular. Também realiza palestras e oficinas para educadores, crianças e jovens sobre educação literária, alfabetização midiática e storytelling (www.entrepalavras.com.br).

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E no princípio eram as redes…

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