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A língua inglesa na BNCC

Na BNCC a língua inglesa é vista não como língua estrangeira ou do outro, mas como um bem cultural mundial que pode ser incorporado de várias formas

Publicado em 22/09/2019

por Informe publicitário

Em algum lugar do passado…

Maria: Flávia você pode ir lá pra casa depois da aula?
Flávia: hoje não posso Maria, tenho curso de datilografia.
Maria: e você Regina? Pode ir?
Regina: não Maria, a gente precisa fazer o trabalho de história lembra? Depois da aula vou passar na papelaria comprar papel almaço e te encontrar na biblioteca.

Presente

Curso de datilografia! Fazer trabalho em folha de papel almaço!
Quanta coisa mudou não é mesmo?
De acordo com alguns economistas, estamos vivendo a quarta revolução industrial. A inteligência artificial, o desenvolvimento e uso de aplicativos, robôs, o conceito de big data, entre tantos outros, estão causando mudanças significativas nas indústrias e na forma como trabalhamos, estudamos, nos comunicamos, nos relacionamos enfim, vivemos.
Leia: BNCC: desafio é a histórica carência na formação de professores
Sabemos que a convivência em comunidade pede para que seus cidadãos dominem habilidades que vão além da memorização e da repetição, práticas por muito tempo adotadas como pedagógicas em sala de aula e consequentemente reproduzidas no mercado de trabalho. No entanto, para contribuir de forma bem-sucedida e significativa neste novo cenário mundial é preciso que cada indivíduo tenha consciência do seu papel no contexto cultural em que está inserido, que saiba se comunicar, que tenha postura crítica e analítica, que seja participativo, dedicado e que busque soluções colaborativas para questões que nos rondam há muito tempo.
E é para isso que vamos à escola: para nos desenvolver. John Dewey já dizia em 1916 (sim há mais de 100 anos) que “a escola não é uma preparação para a vida. A escola é a própria vida”. Uma escola que possibilite reflexão, desenvolvimento e transformação.
Alunos autônomos e encantados com seu próprio processo de aprendizagem.
Estamos falando sobre aprender a aprender. Não é mais (apenas) sobre acessar informação (já que temos muita coisa disponível no Google), mas como nos relacionamos e agimos perante esta informação.
Jovens de todo o mundo têm ganhado destaque nas mídias por criarem inovações em diversas áreas de conhecimento. Estes jovens foram e são estimulados a desenvolver sua curiosidade, criatividade, empreendedorismo, protagonismo, entre outras competências.
Pesquisas como a do Fórum Econômico Mundial defendem que cerca de 65% das crianças e jovens de hoje exercerão profissões que ainda não existem. Estas mesmas pesquisas recomendam que é preciso fomentar desde cedo, competências que vão além dos conteúdos das áreas tradicionais de conhecimento.
Encontramos também em nossas escolas, uma mudança significativa no perfil das crianças e jovens que já nascem conectados e absorvidos da cultura digital. Assim, os currículos e as metodologias de ensino das nossas escolas precisam incorporar inovações que estimulem a formação integral de jovens protagonistas para que estejam prontos para desafios atuais e futuros. Competências? Inovação? Cultura digital? Formação integral? Protagonismo?
Onde encontramos uma orientação para trabalhar estes temas em nossas escolas?
Na BNCC!

O que é a BNCC?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é a política pública que define os direitos de aprendizagens de todos os alunos do Brasil da educação infantil ao ensino médio. Para nortear o trabalho das escolas e dos professores em cada uma das etapas de ensino, a BNCC traz como pilares 10 competências gerais que vão além dos saberes cognitivos (como Língua Portuguesa e Matemática). As competências gerais apontam para a necessidade do desenvolvimento integral do estudante.
Aprovada em 2018, a BNCC está em fase de implementação em salas de aula de todo o país. Escolas das redes públicas e particulares devem tê-la como referencial em seus currículos até o início do ano letivo de 2020.
A BNCC incentiva o respeito à igualdade e a diversidade cultural, o que traz a necessidade de se planejar e rever o currículo e prática segundo a cultura e experiência local de cada escola.
Leia: A expansão das escolas bilíngues no Brasil

A BNCC é o currículo da minha escola?

A BNCC não é currículo, é uma referência nacional e obrigatória, que orienta para as competências que queremos que os alunos alcancem em cada etapa de estudo.

BNCC e o inglês

Foto: Shutterstock

Competências? 

Segundo a definição que consta na BNCC, competências são “mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atividades e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”.
Na prática, significa que nossos alunos possam utilizar os saberes para a própria vida (dentro e fora da escola), conhecendo e valorizando princípios universais, como a ética, os direitos humanos, a justiça social e sustentabilidade ambiental.
Assim as escolas passam a promover não apenas o desenvolvimento intelectual, mas também o social, o físico, o emocional e o cultural, compreendidos como dimensões fundamentais para a perspectiva de uma educação integral.

A BNCC mudou o ensino da língua inglesa?

De língua estrangeira para língua franca:
“Nessa proposta, a língua inglesa não é mais aquela do “estrangeiro”, oriundo de países hegemônicos, cujos falantes servem de modelo a ser seguido, nem tampouco trata-se de uma variante da língua inglesa. Nessa perspectiva, são acolhidos e legitimados os usos que dela fazem falantes espalhados no mundo inteiro, com diferentes repertórios linguísticos e culturais, o que possibilita, por exemplo, questionar a visão de que o único inglês “correto” – e a ser ensinado – é aquele falado por estadunidenses ou britânicos”
(trecho da Base Nacional Comum Curricular)

Então não tem mais essa de falar que o inglês da escola é americano ou britânico?

A BNCC considera o contexto social e político do idioma e considera a língua inglesa como uma ferramenta de comunicação e oportunidade de acesso em um mundo globalizado.
Ao ter contato com a língua inglesa em uma perspectiva que valoriza a interculturalidade, amplia-se a compreensão de um idioma que não é só falado em países como os Estados Unidos ou Inglaterra permitindo assim que, todos os jovens e crianças possam exercer a cidadania e ampliar suas possibilidades de interação nos mais diversos contextos.

E na prática? As aulas continuam com foco na leitura e interpretação de textos?

De acordo com a BNCC o ensino da língua inglesa, deve colaborar para desenvolver competências que vão além de ler, interpretar e resolver problemas. Nesse contexto, o eixo da oralidade foi ampliado e agora envolve práticas de linguagem com foco na compreensão (escuta) e na produção oral (fala).
O documento também organiza as habilidades da área em cinco eixos:
Oralidade – Práticas de compreensão e produção oral de língua inglesa em diferentes contextos
Leitura – Práticas de leitura de textos diversos em língua inglesa (verbais, verbo-visuais, multimodais)
Escrita – Práticas de produção de textos em língua inglesa relacionados ao cotidiano dos alunos
Conhecimentos linguísticos –  Práticas de análise linguística para a reflexão sobre o funcionamento da língua inglesa
Dimensão Intercultural – Reflexão sobre aspectos relativos à interação entre culturas (dos alunos e aquelas relacionadas a demais falantes de língua inglesa), de modo a favorecer o convívio, o respeito, a superação de conflitos e a valorização da diversidade entre os povos.

Teremos mais tecnologia nas aulas de língua inglesa?

Como mencionamos anteriormente, encontramos em nossas escolas uma mudança significativa no perfil das crianças e jovens que já nascem conectados e absorvidos da cultura digital. A BNCC reconhece e valoriza esta mudança ao entender que a formação do indivíduo também é concebida nas práticas sociais do mundo digital. Sabemos que a língua inglesa potencializa as possibilidades de comunicação e participação, ao mesmo tempo que entrelaça diferentes linguagens (verbal, visual, corporal, audiovisual).

Então a língua inglesa passa a ser vista como prática social?

Sim! O idioma agora é visto não como língua estrangeira ou do outro, mas como um bem cultural mundial que pode ser incorporado de várias formas, para usos diversos, por falantes multilíngues ao expressarem suas múltiplas culturas. Assim, na BNCC, a língua inglesa é concebida como uma prática social que reconhece, valoriza e fortalece as diferenças culturais e variações linguísticas decorrentes de seus diferentes usos, acolhendo os diversos repertórios linguísticos presentes em sala de aula e fora dela.

Em algum lugar do presente

Talita – mãããee! Vou fechar a porta do quarto pra fazer o trabalho de ciências humanas tá?
Mãe – ok…sobre o que é o trabalho?
Talita – influências do imperialismo na contemporaneidade
Mãe – vai fazer com a Yasmim e a Rafa?
Talita – também…mas também com o Antoine da França, o Fabian da Alemanha e a Heidi da Inglaterra…não entra no quarto pra ninguém te ver na câmera hein!
Ter uma adolescente em casa fazendo trabalho de imperialismo com a ajuda de amigos que conheceu no intercâmbio das férias ajuda a entender a língua inglesa como prática social.
Quando que em nossa época, podíamos fazer um trabalho sobre o imperialismo discutindo (em inglês claro) com jovens da França, Alemanha e Inglaterra?
É, o mundo mudou prezado gestor, e nossas reflexões e perguntas não cabem mais em uma folha de papel almaço.
Carpe diem!
Sandra Rodrigues é fundadora da Smart Learning Brazil, pedagoga especialista na Abordagem de Reggio Emilia e mestre em Educação pela Open University do Reino Unido.
Conteúdo apresentado por Oxford University Press

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