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Ensino Superior

Uma avalanche a caminho?

Refletir acerca do impacto de novas tecnologias pode acordar as escolas para repensar seu papel e o da sala de aula   Aulas on-line datam de pelo menos quatro décadas, mas agora esse recurso tem ganhado especial atenção devido à propagação dos MOOCs (Massive Open […]

Publicado em 15/07/2013

por Ensino Superior

Refletir acerca do impacto de novas tecnologias pode acordar as escolas para repensar seu papel e o da sala de aula
 
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Aulas on-line datam de pelo menos quatro décadas, mas agora esse recurso tem ganhado especial atenção devido à propagação dos MOOCs (Massive Open Online Courses), tidos muitas vezes como o prenúncio do fim das escolas nos moldes tradicionais que conhecemos. Será?
Críticos dos MOOCs dizem que apenas os alunos motivados, que possuem certa dose de autonomia, seriam beneficiados pela plataforma. Reforçam ainda que servem apenas para distribuir conteúdo sem, contudo, desenvolver competências. Mas o mesmo não poderia ser dito da sala de aula tradicional, que ainda domina grande parte das instituições de ensino superior?
Uma nova geração de MOOCs, denominada 2.0, promete combinar entrega de conteúdo com monitoramento eletrônico, oferecendo ao aluno um ensino mais personalizado. Esse recurso permitiria ajustar o conteúdo ao nível de desenvolvimento do estudante, indicando bibliografias e links de acordo com as necessidades de cada um e aproximando alunos com interesses similares. Em salas de aula com muitos alunos, o professor raramente consegue acompanhar o desenvolvimento de cada um, dificuldade que o monitoramento eletrônico poderia resolver. Sob tal perspectiva, os MOOCs 2.0 poderiam constituir uma experiência de aprendizagem superior, se comparada ao ensino tradicional que trata todos os alunos de forma homogênea, sem representar custos adicionais à sala de aula.
De acordo com o relatório Horizon Report 2013, os MOOCs estão entre as seis tecnologias emergentes que transformarão a educação nos próximos cinco anos. Há diversos aspectos que apoiam a tese de que o ensino superior passa por um período de revolução. Isso se explicaria pela globalização e entrada de novos players, como os MOOCs ou provedores de outras tecnologias, que impõem pressões competitivas não só sobre as instituições de ensino superior como um todo, mas sobre cada um de seus componentes (sala de aula, professores, certificação, pesquisa).
Alguns advogam que os MOOCs poderão representar uma ruptura significativa no modelo de negócio das escolas, deixando a cargo do aluno montar sua própria grade de formação. Essa ruptura seria causada pela combinação de dois elementos: (1) conteúdos de excelente qualidade transmitidos pelos melhores professores do mundo gratuitamente, passíveis de certificação e crédito e (2) perda do monopólio na certificação de outras competências pelas universidades. À medida que aumenta o ceticismo de grande parte dos empregadores sobre o valor do diploma e sua relação com a preparação do aluno para o mercado de trabalho, ganham peso na contratação as expe-
riências pessoais e a formação não acadêmica.
Por exemplo, a degree.com rastreia o desempenho de alunos em MOOCs e certifica indivíduos em determinadas competências observadas. Outras empresas, como Mozilla e LinkedIn, planejam oferecer selos que atestam competências demonstradas em experiências de trabalho (amparadas na chancela de pares e resultados reais). Nesses termos, para algumas modalidades de ensino, selos e certificações baseadas em desempenho poderão ser mais atrativos para empregadores do que propriamente um diploma. E as escolas que se recusarem a rever o papel da sala de aula para além do currículo padrão correm o risco de se tornarem pouco relevantes para a construção da empregabilidade dos alunos.
No livro What matters in college, Astin (1993) analisa dados longitudinais de 24.847 alunos em 309 diferentes instituições para identificar o que determina a qualidade das experiência  dos alunos nas faculdades. Os dois fatores de maior destaque são as interações entre docentes e alunos e entre pares (pontos fracos dos MOOCs e que as escolas poderiam explorar melhor). A revisão da sala de aula exigiria novas habilidades do corpo docente e as escolas teriam de decidir se as desenvolveriam em seus docentes ou as adquiririam prontas no mercado. Uma pergunta que nortearia essa decisão é a respeito de qual o perfil dos docentes que tenderia a maximizar o impacto dos MOOCs na sala de aula? Por exemplo, se os MOOCs se constituírem como recursos didáticos adicionais, o professor seguiria com seu atual estilo de aula, recomendando o uso de MOOCs tal qual recomenda leituras complementares. Se os MOOCs se constituírem substitutos das aulas nos moldes atuais, qual seria o “novo” papel desse professor? Os alunos viriam à escola para qual finalidade, e como esse professor adicionaria valor à formação desses alunos?
Ainda que os MOOCs venham a se constituir apenas como mais um recurso didático, como uma nova classe de livros-textos, eles parecem ter conseguido acordar as escolas para um debate há muito necessário no ensino superior: como modelos de ensino nas escolas podem ser revistos e aprimorados para desenvolver profissionais mais competentes para os desafios da complexidade do mundo moderno. Sem essa reflexão, a tecnologia, que é sempre um meio, não as salvará.
 

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