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Educação no Mundo

A rotina do tráfico

No Rio de Janeiro, horário de escolas é condicionado pelo medo

Publicado em 10/09/2011

por Tetê Oliveira


Subida da Avenida Central, principal acesso ao Morro do Alemão: população espera o "sinal verde" para ir à escola

Seis escolas fechadas por tempo indeterminado e cerca de três mil alunos sem aulas durante quase dois meses con­secutivos, em período letivo. O quadro caótico da educação pública na Vila do Cruzeiro, favela do Complexo da Penha,  norte do Rio de Janeiro, é resultado da violência deflagrada pelo confronto direto e contínuo entre a polícia e o tráfico naquela comunidade e no vizinho Complexo do Alemão, desde o dia 2 de maio. Até o final de junho, essa guerra havia registrado 44 mortes e mais de 70 feridos.

Nunca antes as escolas nas favelas cariocas haviam sido obrigadas a fechar suas portas por tanto tempo. Mas há anos professores, pais e alunos, sob o domínio de facções criminosas, convivem com a suspensão temporária das aulas, tiroteios, ameaças e o corre-corre para não engrossar as estatísticas de vítimas de balas perdidas, em meio aos conflitos entre policiais e traficantes ou entre criminosos de facções rivais.

A atual intensificação da repressão policial aos traficantes na Vila do Cruzeiro e no Alemão teve o efeito de uma bomba nas escolas da região. No total, são 14 escolas municipais e 10.593 alunos matriculados. Por questão de segurança, as aulas foram suspensas em diversas escolas. Em seis delas – EM Monsenhor Rocha, EM São Vicente, Ciep José Carlos Brandão Monteiro, EM Joracy Camargo, EM Bernardo de Vasconcellos e EM Leonor Coelho Pereira – os portões foram fechados em maio e permaneciam assim em julho. E cerca de 3 mil alunos ficaram sem aulas por 47 dias.

Em caráter emergencial, a Secretaria Municipal de Educação decidiu remanejar, em 18 de junho, esses jovens para o Ciep Gregório Bezerra, que fica numa área próxima à do conflito, no bairro da Penha, e tem mil alunos matriculados.

As condições para o ensino, é claro, estão longe do ideal. Os alunos remanejados têm apenas duas horas de aulas, num dos quatro turnos criados para atendê-los. As salas receberam divisórias para abrigar até três turmas com professores diferentes ao mesmo tempo. Já os alunos do próprio Ciep têm de ficar confinados em um dos dois pavimentos do prédio. Não há previsão de volta à normalidade.

"Na minha sala tem três turmas e cinco professoras… não, peraí, são três professoras", confunde-se Paola dos Santos, 9 anos. "Tenho tido aula de português e matemática", diz sua irmã Paloma, 10 anos. Matriculadas na EM Monsenhor Rocha, as meninas estão entre os alunos que têm freqüentado as aulas no Ciep Gregório Bezerra. Dos três mil alunos das seis escolas, 60% deles, em média, têm assistido às aulas improvisadas. Os conflitos aumentaram a evasão escolar, pelo menos temporariamente. Mesmo com a retomada das aulas, a dona de casa Patrícia Maria da Silva evitou levar para o Ciep o filho Lucas, de 7 anos, du­rante uma semana. "Só trouxe ele nos últi­mos três dias. Essa escola é segura, mas temos de descer o morro, andar qua­se meia hora para chegar aqui. Nunca sabemos quando o tiroteio vai recomeçar. Fico  na dúvida: levo ou não para a escola?", relata.

Moradora do alto da Vila do Cruzeiro, Patrícia reclama ainda que a filha Karla, de 5 anos, aluna do jardim-de-infância, continua sem aula. Todas as crianças das turmas de educação infantil, creche e pré-escola das seis escolas fechadas estão sem qualquer atendimento. Segundo a Secretaria de Educação, "ainda não se fez possível atendê-las por conta das necessidades específicas de adequação do espaço físico". Até alguns dias, Karla perguntava à mãe quando voltaria à escolinha e chorava sentindo falta dos colegas, da professora e das atividades escolares. Com o tempo, a menina esperta  perdeu o estímulo para estudar.


O duro ofício de ensinar

No meio desse fogo cruzado, os professores têm de lidar com situações que fogem à vida escolar. Uma ex-docente de uma das unidades atualmente fechadas na Vila do Cruzeiro teve de ser transferida por ter desenvolvido a síndrome do pânico. "Nunca vi um período tão crítico como agora. Nem na época do assassinato do jornalista Tim Lopes", conta ela, que pediu para não se identificar e disse nunca ter sofrido uma ameaça direta na comunidade.  A professora não esquece os freqüentes tiroteios que interrompiam as aulas na favela. "A gente tinha de se proteger, se jogar no chão. As crianças chorando e desesperadas. Depois, a gente encontrava cápsulas no pátio da escola. Chegou um período em que qualquer barulho me deixava em pânico e não conseguia mais sair de casa", diz.

Sob tanta pressão, é comum os pro­fes­sores lecionarem nessas escolas so­mente o período obrigatório, logo após a aprovação em concurso. "Assim que vence o estágio probatório, a maioria pede pra sair. É como uma carta de alforria para quem trabalha ali", afirma a ex-profes­sora da escola na Vila do Cru­zeiro.

Quanto ao aprendizado dos alunos, também é muito prejudicado. "As crianças parecem ter um desvio que você não consegue identificar. Elas ficam na favela o tempo todo. Às vezes, não podem brincar na rua e têm de ficar presas em casa. Muitos casos de violência ocorrem à noite. Pela manhã, o aluno chega transtornado e o professor, que não mora lá, não sabe por quê. O pai pode ter sido preso, um vizinho ou amigo assassinado. Tudo isso deixa nas crianças uma seqüela que resulta na dificuldade de aprendizado", explica a docente anônima.

Autor

Tetê Oliveira


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