Arquiteta paisagista e especialista em educação para a sustentabilidade, com atuação na ONU e Comissão Europeia. Integrou a criação do programa Escola Azul Global
Publicado em 03/11/2026
São os pais ou as escolas que ainda têm medo de colocar as crianças do lado de fora?
Minha filha tem um ano e meio e estou em busca de uma escola para ela. Desde o começo, uma das coisas que eu mais queria era que fosse uma escola aberta ao ar livre. Que tivesse natureza, espaço para explorar, correr, tocar, observar, experimentar. Queria um espaço onde ela pudesse brincar, ao ar livre, em especial.
Talvez porque, profissionalmente, isso me pareça tão óbvio. Sou especialista em educação para a sustentabilidade, já trabalhei com mais de trinta países nesse tema e fiz parte da equipe da UNESCO na promoção do currículo azul, trazendo o oceano para dentro dos conteúdos escolares com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Conheço muito bem os dados. Sei dos benefícios da educação outdoor. Sei que o contato com a natureza está associado ao bem-estar, ao desenvolvimento motor, à autonomia, à capacidade de exploração e a diferentes possibilidades de aprendizagem.
Mas, quando comecei a visitar escolas para a minha filha, uma pulga ficou atrás da minha orelha. E se a educação outdoor não for segura?
Eu, que tantas vezes falo sobre a importância de levar as crianças para fora, fiquei insegura diante da possibilidade de fazer isso com a minha própria filha. Porque uma coisa é falar sobre educação e conhecer tecnicamente seus dados e benefícios. Outra é quando a criança é seu filho. E foi justamente essa contradição que me fez pensar nos outros pais, nas escolas e nas barreiras que ainda existem para que a educação outdoor aconteça de verdade.
Há alguns anos, vivi uma situação parecida na Itália. Eu estava convidando professores para participar de um projeto de Escola Azul e sugeri que levassem os alunos para atividades nas zonas costeiras, para que pudessem experimentar o mar. O primeiro olhar que recebi foi de reprovação. Era aquele olhar que dizia:
“Você não sabe do que está falando.”
Em vez de insistir, fui entender. Descobri que muitos professores se sentiam inseguros com atividades ao ar livre. Tinham medo de serem responsabilizados caso alguma coisa acontecesse com as crianças e, ao mesmo tempo, não sentiam que tinham formação suficiente para conduzir essas experiências. Não era simplesmente uma questão de não querer. Faltavam formação, conhecimentos sobre gestão de risco, primeiros socorros, planejamento e condução de atividades com segurança, antecipando possíveis riscos.
Conversando com professores de diferentes contextos e países, percebi outra coisa: em alguns lugares, essa resistência era menor. Então não era apenas uma questão de treinamento, mas também cultural.
O que chamamos de segurança?
Aqui está uma das questões mais importantes. Nós, adultos, temos a tendência de confundir segurança com controle absoluto. Queremos eliminar o risco antes mesmo que a criança tenha a oportunidade de saber que ele existe. E muitas vezes já colocamos como proibido: pisar na grama, subir, correr, tocar, sujar, experimentar.
É claro que existem riscos, e também não podemos fechar os olhos para eles, mas a educação na natureza não significa colocar crianças em situações perigosas. Existe uma diferença fundamental entre risco e perigo.
O perigo é uma condição que pode causar dano e que precisa ser evitada ou controlada. O risco controlado, por outro lado, também pode fazer parte do aprendizado. É a possibilidade de uma criança testar seus próprios limites, perceber consequências, tomar pequenas decisões e descobrir o que consegue fazer sozinha.
Uma criança que sobe em uma árvore está, por exemplo, em uma situação de risco: está aprendendo muito mais do que simplesmente subir em uma árvore. Está aprendendo a avaliar altura, equilíbrio, força, distância e seus próprios limites. Aprende que consegue se equilibrar, que pode comer certas frutas, que não deve fazer determinados movimentos, senão pode cair.
Quando observa um inseto, começa a perceber que aquele mundo existe independentemente dela. Que, se o tocar, pode se queimar ou ser picada. Aprende também sobre cooperação ao ver uma fila de formigas andando com folhas nas costas e sobre o poder do coletivo.
Quando aprende que uma planta pode ser tóxica, não está simplesmente decorando uma regra. Está construindo conhecimento sobre o mundo natural e passando esse conhecimento adiante para os seus colegas.
Existe ainda uma contradição que me incomoda particularmente quando falamos de educação para a sustentabilidade. Queremos que as crianças cuidem da natureza, mas muitas vezes não permitimos que elas tenham uma interação real com ela.
Ensinamos sobre árvores em livros fechados na sala de aula com o ar-condicionado ligado. Mostramos animais em telas de celular e em vídeos de realidade virtual. Falamos sobre biodiversidade em apresentações de PowerPoint.
Mas, quando uma criança encontra uma folha, um pouco de terra, um inseto ou uma poça de água, nossa primeira reação pode ser: “não toque nisto, é sujo”, “isso não presta, pode jogar fora!”. Ou até mesmo, acreditem se quiser, “tire a mão do lixo”.
Como criar vínculo com aquilo que não podemos experimentar? Com o que é proibido e desincentivado? Como desenvolver pertencimento em relação a um mundo que aprendemos a observar pelas telas?
A sustentabilidade não deveria começar apenas pela absorção de informação, mas também pelos vínculos e pelo contato direto. E vínculo se constrói com experiência.
Dentro do Brasil, temos muitos Brasis. Temos escolas com árvores frutíferas no pátio e escolas sem nenhuma sombra. Temos crianças que crescem brincando na rua e outras que praticamente só conhecem os apartamentos e seus espaços de lazer. Temos praças públicas maravilhosas e outras onde a natureza foi retirada. E isso nos leva a uma pergunta:
Como podemos falar em educação para a sustentabilidade em escala se nem sempre conseguimos garantir que os espaços públicos sejam lugares onde uma criança possa explorar a natureza?
A educação outdoor não depende apenas da escola, ela é uma construção de uma mentalidade. E não é apenas dos professores e do método de ensino, mas dos pais, da cidade, da formação dos professores, das políticas públicas e do nosso voto.
E depende, sobretudo, da relação que nós, adultos, temos com a própria natureza. E de como a espelhamos para as crianças. Talvez essa seja a parte mais difícil de admitir: que eu também preciso reaprender. Reaprender a lidar com meus medos e soltá-los para criar uma criança livre.
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