O que começou como um movimento espontâneo com jovens a partir de 12 ou 13 anos nas ruas, recebeu a solidariedade de alunos de universidades, de sindicatos e dos coletes amarelos
“Étudier est un droit qu´on négocierons pas”. Cantando esse refrão em que afirmam que a manutenção de seu direito de estudar é inegociável, milhares de jovens, estudantes dos lycées e collèges franceses, estão ocupando as ruas desde o dia 21 de setembro. Naquela data, alunos do Lycée, ou liceu, Antoine Saint-Exupéry, em Créteil, pequena cidade localizada a 11 km do centro de Paris, resolveram protestar contra a falta de recursos físicos e humanos, notadamente a falta de professores. Aliás, estes haviam entrado em greve e os alunos resolveram apoiá-los.
Como não se tratava de uma situação exclusiva da escola, mas de uma realidade que atinge instituições de todo o país, em especial as escolas de periferia, os protestos foram ganhando força entre o final de setembro e início de outubro, espalhando-se por várias cidades francesas como Lyon, Nice, Rennes e Marselha, entre outras.
Aquilo que começou como um movimento espontâneo com jovens a partir de 12 ou 13 anos nas ruas, recebeu a solidariedade de alunos de universidades, de sindicatos e dos coletes amarelos, cujos protestos contra o aumento de impostos em 2018 e 2019 registraram confrontos intensos com a polícia.
A ebulição agora atingiu o auge em 17 de outubro, quando mais de 500 mil pessoas foram às ruas, com registro de violência policial, saques e depredação de lojas de luxo, prisões e um manifestante que perdeu a mão em razão dos artefatos repressivos, o que já havia acontecido com outro jovem no início do mês. Como sempre, a resposta violenta da polícia ajudou a propagar o movimento, como vimos no Brasil em 2013.
Nesse mesmo dia, estudantes italianos também foram às ruas com reivindicações semelhantes. Em Milão e Turim houve registros de depredação e confrontos com a polícia. Nos dias subsequentes também ocorreram manifestações estudantis na Grécia, na Bélgica e na Albânia, de certa forma motivadas pela repercussão do movimento francês. No caso da Albânia, o tempero adicional fica por conta da família Trump cortejando áreas de proteção ambiental para fazer um resort de luxo.

Nos dias 22 e 24 de outubro, milhares de manifestantes voltaram às ruas, atropelando decisões governamentais, ainda que sob forte cerco policial (Foto: Júlia Meireles/Júlio Lamparelli)
O presidente François Macron chegou a proibir manifestações em todo país, depois liberadas pela justiça em Paris, porém com itinerário controlado e forte vigilância policial. Nos dias 22 e 24 de outubro, milhares de manifestantes voltaram às ruas, atropelando decisões governamentais, ainda que sob forte cerco policial.
Para Thomás Zicman de Barros, doutor em Teoria Política e pesquisador associado da Universidade de Sciences Po, dois fatores ajudaram a deflagrar os protestos estudantis. “Nas periferias, 10% das aulas não são asseguradas em razão da falta de professores. É nessas localidades que as famílias de imigrantes se instalaram. Ali estão as escolas com piores condições de ensino”, explica. Nelas, são alocados professores novatos, ainda sem bagagem como docentes. E, à medida que evoluem na carreira – e melhoram como professores – são deslocados para as escolas mais prestigiosas, no centro de Paris.

“Nas periferias, 10% das aulas não são asseguradas em razão da falta de professores”, relata Thomás Zicman de Barros, pesquisador associado da Universidade de Sciences Po (Foto: arquivo pessoal)
Durante a presidência do socialista François Holland (2012-2017), ele instituiu as Redes de Educação Prioritária, com o objetivo de estimular docentes a trabalharem nas escolas com populações mais vulneráveis. Com os cortes orçamentários posteriores, essas políticas foram abandonadas.
O segundo fator é “a reforma que introduziu a seleção de vagas para as universidades, instituída em 2018, com um novo sistema que gerou muita competição para o ingresso”, relembra Barros. Até então, após fazer o exame de saída do liceu, o Baccalauréat, os estudantes podiam se candidatar livremente às universidades, fosse qual fosse o resultado obtido, com as vagas sendo decididas por sorteio.
Como resposta a um sentimento de que os melhores alunos acabavam injustiçados por esse critério, instituiu-se o Parcoursup, sistema de análise do desempenho acadêmico dos estudantes desde o primeiro ano do liceu e escolha dos ingressantes universitários pelas próprias instituições. O método gerou muita competição e insatisfação pelo número insuficiente de vagas no ensino superior. Nas atuais manifestações, os estudantes deixam claro seu desejo de acesso ao ensino superior.
Como explica o pesquisador, na França não há sequer estatísticas raciais para aferir a composição da população. E também há forte rejeição à introdução de políticas de cotas. São ideias descartadas em função da defesa do conceito de absoluta igualdade de tratamento, característica do republicanismo local. “Para os franceses, se você começa a separar as pessoas por grupos, começa a fragmentar a nação.”
Para Jan Masschelein, teórico da educação belga e autor de Em defesa da escola, as manifestações dos jovens franceses deixam claro que eles buscam assegurar seu direito de estudar, visto como único caminho possível para sua futura inserção na sociedade de seu país. “É inequívoca a reivindicação que fazem pela escola.”
Sua visão é corroborada pelo casal de brasileiros Júlia Meirelles e Júlio Lamparelli, que estavam em Paris para visitas técnicas visando o ingresso em cursos de Pós-Graduação. Eles acompanharam as passeatas dos dias 17 e 24 e se impressionaram com o número de jovens ainda imberbes nas ruas. “A impressão que tivemos e o que ouvimos de amigos é que foi um movimento espontâneo dos estudantes dos liceus. E pareceu que havia muitos que eram de primeira ou segunda geração de imigrantes, gente de todas as cores na rua, desde aqueles que pareciam típicos franceses até outros com feições das ex-colônias”, contam.
A atmosfera de gás lacrimogêneo e som de bombas marcaram as manifestações. Tanto o casal de brasileiros como Thomás de Barros presenciaram a forte presença policial. Barros lembra que, num primeiro momento, o governo tentou desqualificar as manifestações, em vez de negociar. E acusou o líder de esquerda, Jean-Luc Mélenchon, fundador do movimento França Insubmissa, de insuflar os movimentos violentos.
Como no dia 17 as manifestações tiveram o que os franceses chamam de convergência de lutas, houve realmente muita depredação e sauvagerie, como dizem os franceses naquilo que no Brasil a imprensa qualifica de vandalismo.
O rastilho de pólvora aceso na França logo chegou à Itália, já imersa num clima de grande divisão política e insatisfação generalizada com o custo de vida. “Além da carestia, entraram na pauta dos protestos questões como a restrição a um máximo de 30% das vagas para estudantes estrangeiros; a reivindicação de uma reforma dos institutos técnicos e profissionais; o repúdio à decisão governamental de destinar recursos orçamentários para a defesa, e não para a educação; e a luta para sensibilizar a opinião pública para as péssimas condições das instalações escolares”, informa o jornalista free-lance e escritor Stefano Milioni, contatado pela reportagem.
O movimento estudantil, nascido sem nenhum tipo de direção ou porta-voz oficial, foi batizado pelos participantes de Movimento 17 de outubro. De acordo com o relato de Milioni, há três pontos centrais defendidos pelos estudantes: a desconfiança em relação às instituições e ao governo, que obstruem o dissenso e tratam os conflitos como questões de ordem pública; a desconfiança das estruturas políticas clássicas (partidos, sindicatos etc.); e o direito à autodefesa contra a repressão preventiva. Nesse último caso, os estudantes se insurgiram contra a apreensão prévia de manifestantes, alguns deles menores de idade, por até 12 horas, durante as manifestações. Houve um caso em que um garoto de 11 anos ficou “resguardado” pela polícia.
A proliferação da insatisfação nos países europeus se espalha. Pelas más condições estruturais da educação em muitos países, o que significa o não cumprimento de uma promessa histórica das nações democráticas, alimentada desde o final da 2ª. Guerra. Mas também pelo aumento do custo de vida, pelas condições precárias de moradia, como na Espanha e em Portugal, onde o aumento da destinação de imóveis para locação de curta temporada restringe a oferta para a população local. Ou pelo aumento do investimento em armas.
Mas o presidente americano Donald Trump parece ter a resposta para acabar com todos os problemas, como recomendou a seu colega francês: “A culpa é dos imigrantes. Livrem-se deles.”
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