NOTÍCIA

Entrevistas

Autor

Laura Rachid

Publicado em 22/10/2026

Ednéia Gonçalves une saberes científicos às matrizes brasileiras

Em atuação coletiva, a educadora transforma as diversidades em potência pedagógica para a escola cumprir sua função social

Sendo a função social da escola assegurar o direito a aprendizagens significativas para a vida, é crucial articular o conhecimento científico com a memória coletiva e os saberes territoriais, buscando unir as matrizes históricas à realidade atual de alunos e famílias. Essa concepção pedagógica é de Ednéia Gonçalves, e apresenta também como ela vem atuando no campo educacional há mais de 44 anos.

Ednéia é coordenadora executiva adjunta da respeitada ONG Ação Educativa, socióloga e educadora, além de trabalhar há mais de 20 anos em cooperação técnica internacional para a educação de jovens e adultos e formação docente. Já atuou em países como Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, sendo que desse último retornou em novembro passado, após 60 dias de trabalho. Participa ainda do Fórum Permanente de Pessoas Afrodescendentes da ONU em Nova York e Genebra. E tem mais: ela assina o prefáciodo livro de bell hooks Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança (ed. Elefante).

“Minha trajetória tem a ver com as inúmeras possibilidades de ser uma educadora no Brasil, mas, sobretudo, uma educadora negra”, avalia Ednéia Gonçalves, nomeada a Educadora do Ano por esta publicação — o reconhecimento integra o Prêmio Top Educação, que está em sua 20ª edição. 

A seguir, confira a entrevista.

Quais devem ser os pilares centrais ao se formular material e/ou curso sobre racismo para a gestão e a docência?

O primeiro ponto que me mobiliza quando formulo uma aula, formação ou material é assumir que, no Brasil, o sistema educacional não foi construído, nos seus primórdios, para resolver questões de desigualdade. E não só ele, mas também os sistemas jurídico e político foram construídos num ambiente colonial e escravocrata. Ou seja, a educação foi construída para a manutenção de privilégios. Tudo o que acontece depois é reação a isso. É uma educação que não foi construída pensando que as pessoas negras e indígenas também possuem conhecimentos, culturas de diferentes territórios e que também dialogam com a cultura europeia e norte-americana.

 

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Quando temos esse ponto de partida, precisamos, sobretudo, de processos de formação e práticas educativas que deem conta de construirmos uma contra-educação de reparação à subordinação de saberes. Hoje, ao pensar em educação de qualidade como um direito para todas as pessoas — e é isso que eu faço —, é preciso resgatar a função social da escola. O que significa dar o direito a todas as pessoas de construírem aprendizagens significativas para a vida a partir da articulação de conhecimentos da ciência, sistematizados nas áreas de conhecimento, com outros conhecimentos oriundos da memória coletiva das culturas que construíram os países. Para, assim, elaborar um processo de outros saberes significativos para todas as pessoas. Essa é a função social da escola. E quando se articula o conhecimento que está no território, a memória coletiva, encontramos a narrativa dos movimentos sociais.

É assim que trabalho e entendo como a educação escolar deve se pautar para que todas as pessoas saiam dessa experiência escolar sabendo mais, sabendo diferente, articulando o que já sabiam e valorizando as diferentes matrizes culturais que o Brasil tem.

Ednéia

“O primeiro ponto que me mobiliza quando formulo uma aula, formação ou material é assumir que, no Brasil, o sistema educacional não foi construído para resolver questões de desigualdade” (Foto: Rogério Albuquerque)

Ou seja, a escola cumpre seu papel quando enxerga potência nas diversidades.

A educação antirracista se constrói a partir da apropriação da narrativa do movimento negro, da história de resistência às opressões. E isso incide sobre vários aspectos, como aprender que durante o período escravocrata os quilombos foram territórios que forjaram — e forjam, porque existem quilombos urbanos — o modelo de sociedade baseado na liberdade a partir de múltiplas culturas. É uma prática social territorializada que ensinou ao Brasil o que é a liberdade e o valor dela para todas as pessoas.

Paulo Freire [e Sérgio Guimarães] tem um livro maravilhoso, A África ensinando a gente (ed. Paz e Terra). Quando vou a cidades históricas no próprio Brasil adoro procurar adinkras, símbolos do povo Akan que contam seus saberes e filosofia. As pessoas que vieram escravizadas ao Brasil imprimiram esses símbolos nas ferragens, dentro das igrejas. 

Em São Paulo, ao observar os portões, notamos que aquele coraçãozinho com curva para dentro se chama sankofa, símbolo poderosíssimo e importantíssimo adinkra. São povos que foram escravizados e trazidos ao Brasil, e que trouxeram inteligência, intelectualidade, tecnologias e linguagens. E isso não se esquece, isso permanece.

 

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Como funciona a metodologia dos Indicadores da Qualidade na Educação – Relações Raciais na Escola, criada pela Ação Educativa (com a sua coparticipação) em conjunto com o Unicef e outros, e como tem sido utilizada?

Os indicadores, que chamamos de ‘indiques’, são uma metodologia de autoavaliação participativa para a educação infantil, ensino fundamental e ensino médio que se atentam também e, com o mesmo grau de importância, para gênero e relações raciais. Funciona por meio de perguntas e cartões de sinais. Vermelho significa que é preciso parar, prestar atenção no que está sendo feito; há algo errado. Amarelo indica avanço, mas atenção. E verde é quando se conclui que as coisas estão andando corretamente.

Nesse processo, reunimos um grupo de referência da escola (o guardião) composto de professor, gestor, aluno, representante do grêmio, família, equipe da cozinha, portaria e outros para levantar e mapear o que já existe de bom acontecendo na instituição. Depois esse grupo organiza um encontro com toda a comunidade escolar, o que inclui a divulgação por meio de cartazes no bairro, por exemplo, para, a partir das perguntas, todos participarem das respostas.

Para nós, da Ação Educativa, os indicadores trazem como elemento central a gestão democrática, porque essa metodologia está na participação múltipla e diversa.

E o que as respostas, pelos cartões, geram?

As respostas que receberem cartão vermelho e amarelo serão expressas em plano de ação pela escola para resolver tais questões. Inclusive, acabamos de atualizar os ‘indiques’ olhando para as dimensões específicas dos anos finais do ensino fundamental, porque antes havia um ‘indiques’ para anos iniciais e anos finais [agora há planos diferentes].

O que tem de inovador nos ‘indiques’ é a possibilidade de qualquer rede se espelhar e mexer na metodologia, trazer dimensões e elementos novos. Porque os indicadores são nacionais, mas é possível construir dimensões específicas para um determinado território.

Para exemplificar, construímos no Maranhão indicadores específicos para trabalhar a qualidade olhando para a infância negra, sempre por meio da autoavaliação. Também construímos indicadores olhando para a juventude quilombola maranhense que tem especificidades também incríveis.

De que maneira o racismo institucional se manifesta nas redes de ensino?

 Já que o racismo estrutura a sociedade, as relações sociais, ele também está presente dentro do pátio e na diretoria. Acontece que o racismo não vem apenas de fora para dentro; ele também se produz por meio de manifestações institucionais. Como isso acontece? Nas diferentes dimensões do fazer pedagógico; numa formação que não discute relações raciais e desigualdades; quando os materiais e o próprio currículo apresentam uma versão romantizada da história das relações sociais no Brasil, propagando o mito da democracia racial.

 

Prêmio Top

“Como não é relevante pensar que a escola precisa romper esse ciclo? O racismo é o grande desafio da democracia brasileira” (Foto: Arquivo pessoal)

 

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O racismo aparece ainda na escola quando é confundido com bullying. Racismo é coletivo, é sistema. Quando uma criança ou professora sofre racismo, ocorre a dupla violência. Bullying é individual, é uma violência sistemática impingida a uma criança ou adulto por uma pessoa ou um grupo, mas é um indivíduo que sofre. Já no racismo, se alguém é chamado de macaco ou é tratado de maneira negativa por ser de religião de matriz africana, a pessoa não está sofrendo sozinha. odas as pessoas da sua religião, todas as pessoas negras que têm as suas características fenotípicas sofrem junto.

Se a escola trata o racismo como bullying, ela vai focar uma pessoa só. Aquele que está sendo vitimado por um grupo ou uma outra pessoa. Sendo que o racismo precisa ser tratado de maneira coletiva, daí a necessidade de protocolos que orientem a escola em como acolher o indivíduo que sofre a violência direta, explicando para essa pessoa que há formas coletivas de reação. Diante disso, se trabalha com o grupo inteiro dizendo que racismo é crime, é a manifestação de um processo de desumanização das pessoas. E aqui, nesse ambiente escolar, a gente reage a ele não silenciando.

A melhor forma, o ponto de partida para que possamos enfrentar o racismo dentro da escola que atinge estudantes, professoras, professores, profissionais da cozinha, serviços gerais, é rompendo primeiro o silêncio.

Quando acontece uma manifestação de racismo, a escola precisa parar tudo. O racismo se trata na hora. É preciso estar muito preparado enquanto coletivo para saber como acolher a pessoa e o grupo que está sofrendo.

E considerar ainda que aquele grupo que sofreu o racismo vai precisar de um acolhimento de longo prazo, porque vai impactar a aprendizagem, a evasão, e temos ainda a necessidade de fazer com que o registro aconteça. Porque precisamos de dados para pesquisa.

Os dados e pesquisas sobre esse tema são escassos?

Os dados existem. Há um estudo importante realizado pelo Geledés e Instituto Alana indicando que em torno de 30% dos municípios brasileiros não aplicam a LDB, no caso, a obrigatoriedade de o currículo escolar apresentar a história da África, dos africanos e a cultura afro-brasileira. E a maioria nem conhece. Então, pesquisar é um ponto de partida e necessidade urgente.

 

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O Instituto da Cor, o Instituto de Referência Negra Peregum são organizações que têm produzido dados, mas, além dos dados específicos sobre o racismo, precisamos olhar para os dados do IBGE, Pnads. Devemos analisar os estudos que apresentam as desigualdades educacionais com o olhar racializado. E o que é racializar os dados? É olhar quem é que está conseguindo na trajetória escolar fazer a transição de um nível para outro. Será que os estudantes negros e brancos terminam o ensino médio com a mesma faixa etária? Será que conseguem fazer o Enem e entrar na universidade? Por que ainda precisamos e muito de ações afirmativas?

A partir dos dados desenvolvemos políticas públicas, como as cotas, para que essa desigualdade tenha solução e impulsione a igualdade de acesso, de permanência e de qualidade de processos. Não podemos parar de falar de desigualdade enquanto ela existir. Porque ela impacta. Um dos dados que me chamou a atenção foi uma pesquisa do Projeto Seta (Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista) com o Peregum o qual apresenta que 38% da população negra tem uma lembrança de racismo sofrido no processo de escolarização, que pode ir da educação básica ao ensino superior.

Como não é relevante pensar que a escola precisa romper esse ciclo? O racismo é o grande desafio da democracia brasileira. Não podemos naturalizar os traumas e a violência ainda presentes dentro da escola. 

No seu prefácio para o livro de bell hooks, diz que o reconhecimento das desigualdades raciais implica a necessidade de ampliação de ações afirmativas. Que tipo de ampliação?

Ampliar a ações afirmativas no acesso ao ensino superior na universidade pública, por exemplo, foi importantíssimo. Mas ainda temos um grande desafio, o da presença negra no mestrado e no doutorado. Precisamos de políticas públicas de acesso. Há muitos estudantes negros que têm o grande terror, por exemplo, do ‘será que vou passar no processo de mestrado da universidade, na proficiência em língua estrangeira?’

Ampliando essa presença alargo também a necessária transformação das fontes e referências de pesquisa. Inclusive, precisamos estudar o continente africano, a África pré-colonial, pós-colonização, pós-escravização. Quem são os cientistas? Quem são os grandes pesquisadores? Os grandes nomes da literatura?

 

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