NOTÍCIA
Cada vez mais a instituição escolar é chamada a desempenhar um papel central na formação para a convivência democrática e o respeito às diferenças — além da aplicação de uma cultura de paz que envolva a gestão, professores, estudantes e famílias
Para além dos projetos pedagógicos e do ensino das disciplinas tradicionais, gestores e professores enfrentam tensões e até embates cujas origens extrapolam a sala de aula, mas, apesar disso, permeiam as relações entre estudantes e famílias, tanto no dia a dia das atividades escolares como em outros espaços, por exemplo, o das redes sociais. É fundamental a compreensão de que a convivência democrática não é algo necessariamente natural, mas, acima de tudo, algo que se aprende e, portanto, pode (e deve) ser ensinado.
Na prática, trata-se, sim, de um ‘conteúdo escolar’, que demanda estruturas de aprendizagem para que os alunos saibam viver na coletividade. Ao reconhecer que não está alheia às questões que muitas vezes dividem a sociedade, a escola deve enxergar eventuais conflitos como oportunidades pedagógicas para o exercício do diálogo e do respeito mútuo.
No colégio particular Santa Marcelina, em Botucatu, interior de São Paulo, os estudantes são estimulados a exercitar o protagonismo por meio de um projeto que fortalece a autonomia, o pensamento crítico e uma visão de mundo em que a convivência produtiva com o diferente se mostra não apenas possível como desejável. A iniciativa, chamada de Santa Mundi, simula as várias etapas das conferências da Organização das Nações Unidas (ONU), reunindo estudantes do 9º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio com idades entre 14 e 18 anos.

Camila, David e Laylah, estudantes do Colégio Santa Marcelina de Botucatu (SP), durante iniciativa que simula as conferências da ONU (Foto: divulgação)
“Além do preparo técnico para debater os mais diversos assuntos, os alunos e as alunas desenvolvem capacidades socioemocionais. É preciso, por exemplo, ter empatia, saber ouvir, saber negociar, entre outras habilidades”, destaca a professora de história, Roberta Bemfica, que está à frente do projeto.
Ela explica que o próprio processo de planejamento e execução do Santa Mundi contribui para isso. Nos comitês temáticos que buscam reproduzir os fóruns de discussão da ONU, os jovens devem defender os interesses dos países que representam, mesmo que, pessoalmente, tenham posicionamentos divergentes. O objetivo final de cada comitê, após dois dias intensos de trabalho, é redigir e votar um documento de resolução com propostas para as questões abordadas. O foco é encontrar pontos em comum e soluções coletivas, a partir do reconhecimento da legitimidade dos vários pontos de vista representados.
“As simulações nos permitem expandir horizontes tanto na perspectiva pessoal quanto de aprendizado”, diz o estudante Davi Celestino, do 3º ano do ensino médio, que participa do projeto desde o final do ensino fundamental. “No Santa Mundi, tive contato com ideias e pensamentos que antes não conhecia. Somos incentivados a reconhecer as diferenças e superá-las procurando o que existe em comum. Para isso, é preciso abrir a cabeça.”
Camila Leite, também aluna do ensino médio, acredita que esse processo passa, necessariamente, por um maior autoconhecimento. “O exercício de fundamentar argumentos para representar um país nos ajuda a amadurecer e estruturar nossas próprias ideias”, atesta.
“A escola é o espaço de convivência em que crianças e jovens experimentam o diferente e, assim, emergem estranhamentos, desconfortos e até conflitos”, explica Hamilton Harley, gerente da área de educação em direitos humanos do Instituto Vladimir Herzog (IVH).
“Tudo isso faz parte do processo educativo e do processo da formação dos estudantes enquanto sujeitos.” Para ele, o debate é valioso também por convocar todos a pensar qual é a função social da escola, assim como analisar que tipo de convivência queremos como sociedade e, portanto, que tipo de convivência devemos ensinar. “Para que o espaço escolar possa ser de celebração da diversidade, de exercício do diálogo e do respeito mútuo”, destaca.
O primeiro passo para as escolas é ter presente no horizonte, sempre, o reconhecimento de que os conflitos são inerentes à natureza humana e, por isso, não podem ser simplesmente evitados. O caminho é desenvolver mecanismos que propiciem a solução dos problemas sem uso da força, abrindo as portas para a mudança e o crescimento, individual e coletivo. As abordagens e ferramentas da chamada Educação para a Paz trazem uma ajuda valiosa para o trabalho cotidiano (veja boxe).
A ONU define a Cultura de Paz como um conjunto de valores, atitudes, tradições e comportamentos que rejeitam a violência e priorizam a resolução pacífica de conflitos, incluindo pilares como ‘ouvir para compreender’, com base na liberdade de expressão e na diversidade cultural, e promover o respeito à vida, a generosidade e a solidariedade.
Na escola esse conceito se traduz em uma abordagem pedagógica que promove o diálogo, a convivência e a empatia, por exemplo, constituindo a chamada Educação para a Paz. Para isso, conta com ferramentas crescentemente disseminadas no meio educacional:
Ferramentas para mediação, em espaços seguros em que todos têm voz para expressar
emoções, restaurar relações e compreender o impacto de suas ações.
O respeito às diferenças e a valorização da diversidade constituem um dos fundamentos da convivência democrática. Porém, como alerta a professora Nilma Lino Gomes, valorizar a diversidade não significa apenas dar visibilidade aos diferentes grupos sociais, étnicos, raciais, entre outros, ou promover atividades em datas comemorativas.
Significa incorporá-la ao projeto pedagógico da escola, ao currículo, às práticas de ensino, à avaliação e às relações cotidianas. Assim, a diversidade deixa de ser um tema e passa a constituir um princípio ético, político e pedagógico da educação. Um bom exemplo disso é o trabalho realizado em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza. O município conquistou o Selo Unicef na edição 2021-2024, graças, em boa parte, às ações que envolvem a população jovem e a rede de ensino, marcada por ampla diversidade territorial, cultural e étnica. As escolas da região abrigam populações tradicionais, como grupos indígenas e quilombolas, assim como moradores de áreas rurais e do litoral do estado.

Caucaia (CE), criou o Núcleo de Cidadania de Adolescentes, o NUCA, a fim de intensificar a escuta ativa e participação cidadã (Foto: divulgação)
Segundo Andréa Herculano, coordenadora de Programas e Projetos Educacionais da secretaria municipal de Educação de Caucaia, o primeiro passo é enxergar a diversidade como um elemento a ser valorizado. “O entendimento da realidade local, a relevância das características de identidade, a união de esforços e equipes multidisciplinares, combinando diferentes políticas públicas, são capazes de promover a convivência democrática e o combate à violência”, destaca. “A escola sozinha não dá conta.”
No final do ano passado, por exemplo, a prefeitura de Caucaia lançou uma nova etapa do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA), a fim de intensificar a escuta ativa e participação cidadã, com o envolvimento de novos estudantes, abordagem de novas temáticas e fortalecimento da inclusão de indígenas e quilombolas. Desse modo, os adolescentes podem dialogar diretamente com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, contribuindo para a construção de políticas públicas mais inclusivas e efetivas. “Trata-se de um grupo formado por diferentes vozes, realidades e etnias, que traz contribuições valiosas por meio do diálogo e da troca de opiniões”, destaca Andréa.
“Em um contexto de crescente intolerância, fortalecer a convivência democrática nas escolas não é um tema acessório. É uma condição para formar cidadãos capazes de participar da vida pública, enfrentar diferenças sem recorrer à violência e contribuir para uma democracia mais sólida”, afirma Ricardo Henriques, economista e superintendente executivo do Instituto Unibanco.

“A convivência democrática não se decreta; ela se constrói diariamente”, resume o economista Ricardo Henriques (Foto: Washington Costa/CDN)
Ele conta que o Instituto Unibanco apoia o projeto Cidadania e Democracia na Escola, desenvolvido pelo Instituto Auschwitz, em busca da promoção do diálogo plural, do respeito mútuo, do reconhecimento da diversidade e da participação dos jovens na construção de uma cultura democrática dentro da escola. Nesse sentido, o estudo realizado recentemente pela entidade — Entre normas e prática: um panorama da educação em direitos humanos, cidadania democrática e convivência escolar em secretarias estaduais da Educação do Brasil — indica que o tema ganha relevância e espaço nas políticas educacionais.
No entanto, alerta Ricardo Henriques, o levantamento evidencia que ainda existe uma distância importante entre o que está previsto nas normas e o que efetivamente acontece no cotidiano das escolas. “Essa distância aparece porque construir uma cultura de respeito não depende apenas de documentos orientadores. Exige formação de professores, apoio às equipes gestoras, protocolos para mediação de conflitos, participação dos estudantes e acompanhamento contínuo das práticas de convivência”, explica. “Em outras palavras, convivência democrática não se decreta; ela se constrói diariamente.”
O diagnóstico é semelhante ao de Hamilton Harley, do IVH, para quem o processo de mudança cultural que pode colocar a convivência democrática no centro do projeto pedagógico da escola é, necessariamente, gradual e coletivo, incluindo conhecimento sobre as características de cada escola e a identificação das raízes das tensões e potenciais conflitos.
“Não existe fórmula mágica”, garante o especialista. “De forma bastante prática, a escola deve pensar em projetos e estratégias que sejam contínuas, que se tornem uma agenda e uma pauta da unidade escolar, que envolva a gestão da escola, envolva os professores, envolva os estudantes, que envolva as famílias”, sugere.
Nessa área, o IVH conta com o projeto Respeitar é Preciso, iniciativa desenhada com o propósito de contribuir para a transformação do ambiente escolar por meio do diálogo, da participação de todos os atores e do entendimento de que a paz é uma construção cotidiana e compartilhada. São realizadas ações de formação baseada em grande parte em conteúdos próprios desenvolvidos pelo instituto, a fim de influenciar as práticas de sala de aula.
Uma das dimensões que emergem das experiências vivenciadas em projetos como os do Instituto Auschwitz e o IVH é a centralidade do protagonismo dos estudantes. Em vez de se limitar a impor regras verticalmente, gestores e professores devem criar ambientes escolares mais acolhedores, participativos e seguros para toda a comunidade, em especial para crianças e jovens.