NOTÍCIA
É mais do que urgente garantirmos que todas as crianças do nosso país sejam alfabetizadas
Por Andréa Luize e Regina Scarpa* | Um quase acidente de trânsito vivenciado na porta da escola mobiliza um grupo de crianças a pensar sobre a importância das placas de sinalização. O grupo decide sair pelo entorno para observar as placas presentes nas ruas. Na sequência, escrevem novas placas para serem distribuídas ao longo da rua em que fica a escola. As professoras da turma propõem duplas de trabalho e ofertam as condições e os apoios necessários. As crianças, de 4 e 5 anos, escrevem à sua maneira, para aprenderem a escrever, sustentadas pelo desejo de ofertar mais informações aos pedestres, ciclistas e motoristas que circulam ao redor da escola.
Situações como essa deveriam fazer parte do cotidiano de todas as crianças desde o início da escolaridade. As escolas têm o dever de assegurar às crianças o direito de acesso ao mundo da escrita, favorecendo e potencializando sua participação como leitoras e escritoras em diferentes contextos comunicativos.

Regina Scarpa lembra que no Brasil, segundo dados de 2025 da PNAD, cerca de 29% da população entre 15 e 64 anos é considerada analfabeta funcional (Foto: arquivo pessoal)
Esse compromisso deve se iniciar na educação infantil e guiar também o ensino fundamental. E ganha ainda mais relevância se considerarmos que, mesmo antes do ingresso na escolaridade básica, há diferenças de experiências entre as crianças nos diferentes contextos.
Algumas crianças começam seu percurso escolar já tendo participado de situações em que a leitura e a escrita são utilizadas socialmente: ouvem histórias lidas por seus pais, exploram livros de literatura, observam adultos lendo e escrevendo listas, bilhetes, convites, placas etc. Outras crianças, porém, não vivenciam de forma cotidiana contatos com as práticas de escrita e de leitura antes de ingressar na escola e deverá ser nesse ambiente que se iniciarão como leitoras e escritoras efetivamente.
No Brasil, segundo dados de 2025 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), cerca de 29% da população entre 15 e 64 anos é considerada analfabeta funcional. São pessoas sem a capacidade de ler e compreender textos com algum grau de complexidade e igualmente de produzir textos, exceto uma lista ou um bilhete.
Uma pessoa alfabetizada é capaz de atuar com competência nas mais diferentes práticas sociais de uso da leitura e da escrita. Ler e escrever são, assim, instrumentos de inserção social que conferem poder a quem transita com segurança nas culturas do escrito. Saber ler e escrever favorece uma atuação pessoal, profissional e cidadã mais competente e digna.

Ler e escrever são instrumentos de inserção social que conferem poder, reitera Andrea Luize (Foto: arquivo pessoal)
Estamos nos aproximando de novas eleições para a escolha dos governantes no âmbito estadual e federal. E mais uma vez, e no ano de 2026, ainda não zeramos os índices de analfabetismo e analfabetismo funcional no Brasil. Temos novamente a chance de fazermos escolhas nos atentando não às promessas de campanha, mas às propostas estruturadas e suas efetivas possibilidades de viabilização, ao lugar e à relevância dada às pautas que envolvem a educação, à formação inicial e continuada de professores e ao que se defende como política pública nessa área.
É mais do que urgente garantirmos que todas as crianças do nosso país sejam alfabetizadas e é mais do que urgente formarmos professores que compreendam o que é a alfabetização e como se dá o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. E para criar situações e condições para que as crianças, desde pequenas, leiam e escrevam em contextos comunicativos, para exercer sua cidadania ao participar e cuidar da comunidade da qual fazem parte.
Fonte:
Analfabetismo fica abaixo de 5% em 2025, mas 8,4 milhões ainda não sabem ler e escrever
*Andréa Luize é coordenadora do Instituto Vera Cruz, mestre em Educação pela Universidade de São Paulo. Regina Scarpa é diretora pedagógica da Escola e do Instituto Vera Cruz, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, integra o Conselho Consultivo da Red Latinoamericana de Alfabetização, e o Conselho Editorial da revista Educação.
Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte: