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Resenha

Autor

Revista Educação

Publicado em 29/09/2026

A aprendizagem que o aluno traz faz toda a diferença para o professor

A educação é um processo de valor adicionado, em que cada etapa funciona como um "teto" para a seguinte: o que o estudante aprende ou deixa de aprender numa etapa limita o que ele consegue alcançar na próxima

Por David Saad*, diretor-presidente do Instituto Natura para a América Latina | Um professor de matemática do 1º ano do ensino médio, por exemplo, que recebe uma turma em que a maior parte dos alunos tem aprendizagem ao menos no nível básico consegue se dedicar ao currículo previsto para essa etapa. Outro, cuja turma chega, em sua maioria, abaixo desse patamar, passa boa parte do ano precisando retomar conteúdos de etapas anteriores. Os dois podem ter a mesma formação e dispor das mesmas condições, mas os resultados serão bem diferentes. O que muda é o percurso que seus alunos fizeram, ao longo de nove anos de ensino fundamental, até chegar ali.

Essa cena resume o que chamo de visão integrada da educação básica, um dos pontos de partida de Aprender com qualidade na idade certa: uma visão integrada para a Educação Básica, livro que organizei, publicado pela Fundação Santillana.

Nele, defendo a tese de que a educação é um processo de valor adicionado, em que cada etapa funciona como um “teto” para a seguinte: o que o estudante aprende ou deixa de aprender numa etapa limita o que ele consegue alcançar na próxima. Nossos principais indicadores de desempenho (Saeb, Ideb e Ica) captam esse encadeamento apenas em parte. São valiosos para analisar cada etapa em profundidade, mas, por olharem para etapas isoladas ou tratarem de fluxo e aprendizagem separadamente, tornam mais difícil enxergar o conjunto. 

Aprendizagem

Troca da dispersão de uma miríade de projetos por algumas poucas boas políticas públicas continuadas e ajustadas ao longo do tempo tem se mostrado um caminho mais efetivo, afirma David Saad (Foto: arquivo pessoal)

Falta uma visão do processo educacional como um todo que possa responder à pergunta: de cada geração de brasileiros que entra na educação básica, qual percentual consegue concluir o ensino médio na idade certa e com aprendizagem ao menos no nível básico em português e matemática? O Índice de Inclusão Educacional (IIE), desenvolvido pela Metas Sociais com apoio do Instituto Natura, nasceu para respondê-la. O dado mais recente, de 2023, revela uma realidade desafiadora: só 15,5%.

Este número mostra de maneira mais direta do que outros indicadores fragmentados, o desafio que há pela frente e a necessidade de um olhar estratégico e transformador para a educação básica.

 

Leia: Qual o futuro da aprendizagem?

 

A adoção de políticas públicas robustas e sustentáveis para cada uma das etapas da educação básica, bem como para os temas transversais a elas, como agenda sistêmica docente, gestão escolar, tecnologia e outras, é fundamental para avançarmos mais rápido.

A troca da dispersão de uma miríade de projetos por algumas poucas boas políticas públicas continuadas e ajustadas ao longo do tempo que mirem avanços em resultados finalísticos e não intermediários tem se mostrado um caminho mais efetivo para a transformação necessária ao invés de melhorias incrementais que se perdem nas descontinuidades políticas. 

Exemplos de alguns estados em temas específicos como Alfabetização no Ceará e Ensino Médio Integral em Pernambuco saltam aos olhos e também mais recentemente a mobilização feita em torno da alfabetização em todo o país que conta com um amplo regime de colaboração, políticas nacional e subnacionais.

O Indicador Criança Alfabetizada (ICA), do Ministério da Educação, chegou a 66% das crianças alfabetizadas na idade certa em 2025. Somado ao resultado dos anos iniciais no Saeb, esse avanço tende a elevar o teto das etapas seguintes à medida que essas gerações progredirem na trajetória escolar.

O livro propõe uma forma de nos organizarmos, como país, para que as boas soluções que já existem cheguem aos 46 milhões de estudantes da educação básica e permaneçam.

Para quem está na escola, a visão integrada tem uma consequência prática. Ela ajuda a compartilhar a responsabilidade pelo resultado de uma turma entre o professor que a recebe e o sistema que a formou até ali, sem tirar de ninguém o compromisso com a etapa que lhe cabe.

“A obsessão educacional é nossa velha companheira”, escreveu Eduardo Giannetti. Temos retórica, leis e indignação de sobra. Falta converter isso em prioridade real, medida por um objetivo que a escola, a secretaria e a sociedade possam compartilhar e cobrar.

 

*David Saad é diretor-presidente do Instituto Natura para a América Latina e organizador de Aprender com qualidade na idade certa: uma visão integrada para a Educação Básica (Fundação Santillana, 2026), escrito com Karina Stocovaz, Lucila Ricci e Maria Slemenson.

 

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