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Alexandre Le Voci Sayad

Jornalista, educador e escritor. Mestre em inteligência artificial e ética pela PUC-SP e apresentador do Idade Mídia (Canal Futura)

Publicado em 03/09/2026

‘Abundância’ não justifica quadro da desinformação

A desinformação está relacionada à qualidade e à equidade da educação básica, às desigualdades sociais, à confiança nas instituições, às plataformas digitais e às condições concretas de participação na vida pública

Há 10 anos, o Reino Unido decidia deixar o bloco da União Europeia. O plebiscito se tornaria uma marca histórica recente no uso da informação falsa aliada à tecnologia. Ainda sem o desenvolvimento da inteligência artificial generativa, a campanha pelo Brexit evidenciou como plataformas digitais, desinformação e uso de dados pessoais passaram a influenciar processos democráticos.

Um dado sutilmente manipulado, de que o Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico perderia cerca de 350 milhões de libras semanais enviadas à União Europeia, se tornou o alicerce da campanha. Por que não destinar esse montante para solucionar questões internas ao invés de enviá-lo a burocratas em Bruxelas?

Uma compilação de estudos recentemente divulgada pela União Europeia destaca a circulação de milhares de mensagens publicadas por contas associadas à Rússia nos últimos dias da campanha. Também menciona estratégias de amplificação de narrativas políticas nas redes sociais, embora não afirme que essas ações tenham determinado o resultado do referendo.

O fenômeno da desinformação ganhou força desde então — com a ampliação das redes de internet e desenvolvimento de tecnologias como a inteligência artificial — e atingiu em cheio o coração das ciências e da escola. Hoje é muito mais fácil, barato e efetivo produzir e distribuir informação falsa e, assim, poluir a compreensão sobre algum assunto ou mesmo prejudicar um grupo ou pessoa.

Quando o tema da desinformação é abordado na escola, é comum atribuir suas causas ao ‘excesso’ ou à ‘abundância’ de informações disponíveis. Uma década depois da campanha do Brexit, porém, já é possível perceber que essa explicação, embora intuitiva, é insuficiente e pouco precisa diante da complexidade do fenômeno. Compreender suas diferentes dimensões é fundamental para que educadores possam criar atividades e experiências pedagógicas capazes de preparar os estudantes para a realidade contemporânea.

 

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Períodos eleitorais, como o que o Brasil vive neste ano, costumam oferecer terreno fértil para novas estratégias de manipulação da informação. Por isso, torna-se ainda mais importante compreender as raízes da desinformação, seus agentes, seus interesses e os mecanismos pelos quais determinadas mensagens são produzidas, distribuídas e assimiladas pela população.

No início da década de 1990, o arquiteto e designer estadunidense Richard Saul Wurman já chamava atenção para o mal-estar provocado pela dificuldade humana de lidar com uma quantidade de informação superior à sua capacidade de assimilação. Em seu clássico livro Ansiedade de informação, Wurman demonstrava que esse desconforto não nasceu com as redes sociais. 

 

Abundância

“Para as novas gerações, a enorme quantidade de informação disponível já constitui parte natural do ambiente em que vivem” (Foto: Shutterstock)

 

Assim como a mentira não é uma invenção contemporânea, a sensação de estar cercado por mais informações do que se consegue processar também não pertence exclusivamente ao século 21.

Para as novas gerações, a enorme quantidade de informação disponível já constitui parte natural do ambiente em que vivem. A desinformação não atua apenas sobre essa abundância, mas principalmente sobre a forma como os conteúdos são selecionados, organizados, distribuídos e interpretados. Ela envolve tanto processos intencionais de manipulação quanto falhas de compreensão, ausência de contexto, ausência de estrutura, desigualdades de acesso ao conhecimento e baixa capacidade crítica para avaliar fontes e evidências.

A abundância informacional não explica o momento que vivemos; ela é parte do contexto (exerce influência), mas não tem necessariamente relação causal. A desinformação está diretamente relacionada à qualidade e à equidade da educação básica, às desigualdades sociais, à confiança nas instituições, ao funcionamento das plataformas digitais e às condições concretas de participação na vida pública. 

 

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Pude perceber essas relações de maneira prática ao percorrer, nos últimos anos, dezenas de países, ministrando aulas e entrevistando políticos, educadores, jornalistas e estudantes sobre o tema. Parte desse percurso resultou na série Os diários da desinformação, que será exibida em breve pelo Canal Curta!.

A partir desse material, selecionei três evidências importantes sobre o fenômeno da desinformação, acompanhadas de sugestões para que educadores possam desenvolvê-las em sala de aula.

A escassez de informação também faz parte do cenário contemporâneo

A falta de acesso à informação costuma ser tratada como um problema superado em uma sociedade marcada pela conectividade. No entanto, pelo menos cinco entrevistados da série, localizados em regiões de conflito armado e em países da África, do Leste Europeu e da Ásia, relataram que acessar notícias confiáveis — ou mesmo qualquer tipo de notícia — ainda representa um grande desafio. 

As dificuldades envolvem limitações de infraestrutura, censura, desigualdades territoriais e problemas na distribuição dos conteúdos. Em muitos desses contextos, emissoras públicas constituem a única fonte de informação disponível para parte significativa da população.

Sugestão para educadores: investigar as desigualdades de acesso e distribuição de notícias dentro do próprio Brasil. Uma possibilidade é utilizar como referência o trabalho da organização Saúde e Alegria, que desenvolve ações de comunicação e acesso à informação junto a comunidades ribeirinhas da região do Rio Tapajós.

A dificuldade de distinguir ficção e realidade amplia a vulnerabilidade à desinformação

A capacidade de reconhecer diferentes gêneros textuais, interpretar contextos e compreender narrativas complexas tornou-se ainda mais importante no ambiente informacional contemporâneo. Dois professores entrevistados na série investigam de que maneira elementos ficcionais que são interpretados como descrições realistas do presente podem alimentar compreensões distorcidas sobre as tecnologias existentes.

Sugestão para educadores: trabalhar com filmes ou obras literárias de ficção científica e compará-los com dados, pesquisas e notícias atuais. O clássico Blade runner, dirigido por Ridley Scott, oferece uma boa oportunidade para discutir inteligência artificial, identidade, vigilância, relações entre humanos e máquinas e os limites entre avanço tecnológico e imaginação ficcional.

Fragilidade do jornalismo profissional agrava o cenário de desinformação

Em contextos nos quais veículos jornalísticos contam com condições econômicas, institucionais e sociais para exercer seu trabalho com independência e qualidade, existem mais possibilidades de reconstruir a confiança pública e oferecer informações verificadas à população.

Entrevistas com profissionais da revista britânica The Economist e da rede CNN exploram práticas, métodos e critérios editoriais utilizados por essas organizações para preservar sua relevância em um ambiente marcado pela fragmentação das audiências e pela circulação acelerada de conteúdos enganosos.

Sugestão para educadores: desenvolver exercícios de comparação entre diferentes fontes sobre um mesmo acontecimento. Os estudantes podem analisar autoria, evidências apresentadas, diversidade de fontes consultadas, transparência, linguagem, separação entre opinião e informação e existência de mecanismos de correção. Por enquanto, as entrevistas na íntegra são lançadas semanalmente nas redes sociais da rede grego-americana DCN Global. O conteúdo é gratuito:  DCN Global

 

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