NOTÍCIA

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Autor

Juliana Fontoura

Publicado em 25/08/2026

Saúde mental: estamos medicalizando a educação?

Diante do crescente número de diagnósticos de saúde mental, o campo educacional também é convocado a compreender essa conjuntura

A saúde mental se tornou um dos temas mais debatidos na sociedade. O fenômeno que vivemos é complexo: a pandemia intensificou problemas como ansiedade e depressão, além disso, o maior acesso à informação permitiu que mais pessoas busquem ajuda profissional (o que contribui para a elevação do número de diagnósticos de transtornos mentais e de neurodesenvolvimento, até então subnotificados).

Por outro lado, com as redes sociais, também é possível observar a banalização de termos relacionados ao tema e uma onda de autodiagnósticos. No meio disso tudo, há o impacto para as escolas. Com mais diagnósticos de transtornos como TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e TEA (Transtorno do Espectro Autista), por exemplo, é preciso adaptar-se para garantir a inclusão. 

Mas, se tratando de um fenômeno tão complexo, como identificar se há uma medicalização da educação (e da vida, de maneira mais ampla) e uma ‘epidemia de laudos’ ou, de fato, um crescimento de diagnósticos que nascem do maior acesso à informação e ao atendimento profissional?

 

Saúde mental

Especialmente na infância e na adolescência, há uma busca por laudos para explicar os diferentes padrões que existem no processo de desenvolvimento (Foto Shutterstock)

 

Juliana Ferrari, doutoranda em Psiquiatria pela Unifesp e sócia-fundadora do Aura Educação e consultora da Academia Líderes de Educação, há dois movimentos. O primeiro é que, especialmente na infância e na adolescência, há uma busca por laudos para explicar os diferentes padrões que existem no processo de desenvolvimento.

“Na diversidade que a gente tem numa sala de aula, nem todo mundo vai seguir uma regrinha. Então, a gente vê famílias procurando respostas para essa diversidade, que é natural”, avalia. Ou seja: nesse caso, há uma busca de explicar as diferenças ou sofrimentos próprios da vida por meio da medicalização.

 

Leia: Saúde mental: “Não é papel do educador diagnosticar nada”

 

Saúde mental

Há uma busca por explicar as diferenças ou sofrimentos próprios da vida por meio da medicalização, diz a psicóloga Juliana Ferrari (Foto: Arquivo pessoal)

Por outro lado, segundo ela, há uma bolha de subnotificação. “São crianças que claramente têm condições que requerem atendimento especial e que não conseguem ser vistas, não conseguem chegar a esse lugar. E o que acontece com essas crianças também é um processo de medicalização: deixá-las quase em estado de repouso. Não peço para elas fazerem isso porque sei que não vão fazer, não faço isso com elas porque sei que não conseguem. Mas a escola se organiza desse jeito sem ter um laudo”, explica. 

“A gente acaba tendo, num país de desigualdade social como o Brasil, essas duas bolhas. Uma cheia de notificação, que a gente fala que é de uma epidemia de laudos. Laudos às vezes muito precoces. Por outro lado, a gente tem uma subnotificação de outras comunidades, que a gente entende que precisariam realmente desse acompanhamento e não conseguem acessar”, reforça.

‘Hiperfoco’ e ‘TOC’ 

A especialista analisa que o processo de medicalização não se restringe à escola, mas atinge a sociedade como um todo. Isso se dá, sobretudo, pelo acesso à informação em larga escala. “As gerações mais novas, especialmente, têm acesso a qualquer tipo de informação. A gente percebe que o acesso a critérios diagnósticos é muito fácil”, analisa. 

O resultado são autodiagnósticos e uso inadequado de termos da área. Hoje, é comum que as pessoas digam que estão com ‘hiperfoco’ (estado de concentração intensa que pode ocorrer com pessoas neurodivergentes) em uma série de TV em vez de dizerem que gostam muito de assisti-la, ou que possuem ‘TOC’ (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) de limpeza em vez de que gostam de ver a casa organizada. 

 

Leia: Saúde mental na escola: por que falar de esperança se tornou urgente

 

“A gente transformou a nossa linguagem em uma linguagem do sintoma”, afirma Juliana. De acordo com a psicóloga, o que ocorre é uma tentativa de “entrar em caixinhas”. No caso da educação, Juliana avalia que a escola fica ‘à deriva’ na próxima onda diagnóstica, o que impacta o planejamento pedagógico. 

“Isso é muito ruim, por exemplo, para a gestão escolar determinar a carga de trabalho do professor. A gente sabe que o professor tem uma megacarga de trabalho, mas, quando você começa a ter um grande número de laudos, essa carga triplica, quadruplica”, afirma.

Segundo a especialista, apenas ter mais professores ou mais recursos não significa, necessariamente, solucionar a questão. Ela exemplifica com uma sala que tenha três acompanhantes adultos: “Essa é uma configuração absolutamente nova para o professor, ele não faz a menor ideia do que fazer numa sala em que ele tem mais três adultos para lidar”, explica.

Outra avaliação

Para Rodrigo Bressan, psiquiatra, professor livre–docente da Unifesp, presidente do Instituto Ame Sua Mente e Consultor da Academia Líderes de Educação, o que observamos são três fenômenos que não se anulam, mas, sim, convivem: casos que estavam subnotificados e agora passam a ser vistos, a busca de laudos por ‘benefício secundário’ e a glamourização e banalização de transtornos mentais. Ele defende que não há medicalização no campo educacional.

Saúde mental

Presidente do Instituto Ame Sua Mente, Rodrigo Bressan defende avaliações (para laudos) mais complexos e que a escola participe (Foto: Arquivo pessoal)

Se os jovens realmente vêm tendo mais laudos do que deveriam, Rodrigo diz que não pode afirmar se esse é um fenômeno verdadeiro ou não. “Mas a melhor saída para isso são avaliações mais complexas, globais, e que a escola possa fazer parte dessas avaliações, ajudar a entender ou contribuir com quem está fazendo a avaliação clínica.”

 

Leia: Respeito à diversidade de corpos também se ensina na escola

 

Já Juliana afirma que há três pontos a serem observados na questão dos diagnósticos. O primeiro: uma pessoa que realmente tenha um laudo adequado tem grandes chances de apresentar resposta ao tratamento; o segundo: quando a criança tem um transtorno, ela tem em todos os lugares, não apenas na escola; já o terceiro: a psiquiatria tem ido para a lógica de fatores protetivos e fatores de risco, em vez de genética versus ambiente — e a escola deve acompanhar essa nova lógica.

Uma analogia para entender esse último elemento é imaginar cada pessoa com um potinho de areia que, quando está cheio, leva à manifestação de uma questão mental (seja um transtorno, seja um adoecimento). A genética é uma parte dessa areia, mas há também acontecimentos da vida que podem ir preenchendo ou não o recipiente. Há, portanto, os fatores que enchem esse potinho (de risco) e os que impedem a instalação de novos grãos (os protetivos) — ou podem até tirar uma parte deles de dentro do local.

Fatores protetivos podem ser, por exemplo, uma terapia bem-feita ou o acolhimento da escola. “Essa metáfora ajuda a gente a dizer que ‘não existe culpa de ninguém’, existe uma carga genética e a gente vai enchendo ou não esse potinho”, explica Juliana. Essa nova leitura, segundo ela, é desmedicalizante. “A gente não olha mais para o diagnóstico, a gente olha para o que aconteceu, para a história e para o que pode ser feito.”

ECA digital e proteção da infância e juventude

Saúde mental

Com o ECA Digital, o mundo digital deixa de ser um problema individual, explica o psiquiatra Pedro Mario Pan (Foto: Arquivo pessoal)

O evento da Academia Líderes de Educação*, que acontece em 7 de outubro, na cidade de São Paulo, terá dois ciclos (manhã e tarde), um voltado à saúde mental e outro focado em diversidade em inclusão. ECA Digital — cyberbullying e outras agonias digitais da escola é um dos painéis do primeiro ciclo.

Vale destacar que em março deste ano entrou em vigor o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/25), que atualiza a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online. A legislação inclui aferição de idade e a divisão da responsabilidade entre família, sociedade, Estado e plataformas.

Para Pedro Mario Pan, psiquiatra e orientador do programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da Unifesp — e que estará nesse painel sobre o ECA Digital —, um dos avanços da legislação é justamente o de que a proteção online deixa de ser um problema individual. 

“Nesses casos, quando a gente está falando de criança e adolescente, não é mais um problema somente das famílias. Ou, por extensão, das escolas, das instituições de ensino”, afirma. A responsabilidade, ele pontua, agora é sistêmica, sendo compartilhada pelo governo e também pelas plataformas.

“É um pouco diferente de como era antes, que basicamente elas se eximiam de qualquer responsabilidade somente porque o próprio adolescente ia lá e clicava no botão dizendo que era maior de idade ou criava um perfil falso com uma idade que era permitida”, explica.

*A psicóloga Juliana Ferrari e o psiquiatra Rodrigo Bressan estarão, juntos, no painel Estamos medicalizando a educação?, dia 7 de outubro de 2026, das 9h às 17h, em  evento da Academia Líderes de Educação, iniciativa da revista Educação. Apenas gestores de escolas públicas e particulares membros da Academia Líderes de Educação podem se inscrever gratuitamente em um dos ciclos, ou nos dois. Seja membro em:

Academia Líderes de Educação

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