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Revista Educação

Publicado em 18/08/2026

Aprender com as evidências: estudos para apoiar a alfabetização abrangente no Brasil

Pesquisas recentes mostram como o estudo e o compartilhamento de práticas e os impactos de interrupções escolares podem orientar políticas públicas e estratégias mais equitativas

Por Gisele Alves*, gerente executiva do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21) |  Garantir o aprendizado de todas as crianças continua sendo um grande desafio da educação brasileira, mas os resultados do IDEB de 2025, divulgados no último dia 05, sugerem que estamos progredindo. Eles indicaram resultados positivos da série histórica em todas as etapas escolares, iniciada em 2005,  e a maior evolução acumulada em 20 anos. 

No caso dos anos iniciais do ensino fundamental, o avanço observado entre 2021 e 2023 foi semelhante em 2025: o IDEB passou de 6,0 em 2023 para 6,3 em 2025, superando a meta estabelecida em 0,3 ponto. Ao analisarmos os resultados de aprendizagem em língua portuguesa e matemática no mesmo período, os estudantes do 5º ano do ensino fundamental passaram de 215,1 para 219,3 pontos em língua portuguesa, e de 227,4 para 232,3 pontos em matemática.

Entretanto, ainda há muito espaço para seguir avançando nessa agenda e, para isso, é essencial acompanhar os resultados alcançados, compreender os fatores que contribuem para a qualidade deles e produzir evidências que orientem tanto a prevenção quanto a superação de dificuldades. 

Nesta edição da coluna, serão apresentados dois estudos recentes que dialogam com esse propósito: um investigou como interrupções prolongadas das atividades escolares podem afetar o aprendizado de diferentes grupos de estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental, enquanto o outro analisou o panorama de políticas, avaliações e práticas de alfabetização no Brasil, oferecendo subsídios para o planejamento de ações mais efetivas e equitativas.

 

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O artigo recentemente publicado “Impact of COVID-19 on Reading and Arithmetic According to School Level and Socioeconomic Status: A Comparison of Pre- and Post-Pandemic Cohorts” (O impacto da COVID-19 na leitura e na matemática segundo o ano escolar e o nível socioeconômico: uma comparação entre estudantes antes e depois da pandemia, em tradução livre), é resultado do Edital de Pesquisa 002, realizado com o apoio do Instituto Ayrton Senna e da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE). O trabalho foi conduzido pelas pesquisadoras Érica Prates Krás Borges, Gabriella Koltermann, Luciane da Rosa Piccolo, Emanuelle de Oliveira Silva, Júlia Beatriz Lopes-Silva e Jerusa Fumagalli de Salles.

 

Alfabetização

O Brasil avançou ao criar uma definição comum do que significa uma criança estar alfabetizada e ao buscar compreender quão comparáveis podem ser os resultados das avaliações estaduais entre si e com a escala nacional do Saeb (Foto: Shutterstock)

 

Este estudo investigou como interrupções prolongadas das aulas presenciais, especificamente a ocorrida durante a pandemia da COVID-19, afetaram o desempenho acadêmico de estudantes brasileiros e, principalmente, se esses impactos variaram de acordo com a idade (ou ano escolar) e o nível socioeconômico. Para isso, as pesquisadoras compararam o desempenho de 688 estudantes do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental avaliados individualmente antes da pandemia com o de estudantes avaliados após o retorno às aulas presenciais. 

Os resultados mostraram que em leitura, os maiores impactos foram observados entre os estudantes mais novos, especialmente aqueles que iniciaram o processo de alfabetização durante o período de fechamento das escolas. Já em habilidades matemáticas, como a transcodificação de números, as maiores perdas apareceram entre estudantes dos anos mais avançados. Em ambas as áreas, crianças de níveis socioeconômicos mais baixos apresentaram perdas significativamente maiores do que seus pares mais favorecidos, evidenciando que fatores como idade e contexto socioeconômico influenciaram fortemente a magnitude dos impactos do fechamento das escolas. 

 

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Essas evidências reforçam que as políticas de recomposição precisam ser direcionadas às necessidades específicas de cada público em vez de adotar uma estratégia única para todos, priorizando aqueles que se encontram em maior situação de vulnerabilidade. Essa perspectiva é especialmente relevante tanto para responder aos efeitos da pandemia, quanto para eventualmente preparar sistemas educacionais para interrupções prolongadas das atividades escolares, decorrentes de crises sanitárias, eventos climáticos extremos ou outras emergências e situações atípicas.

O relatório Panorama da Alfabetização no Brasil foi elaborado pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação e Economia Social (LEPES), sob coordenação geral de Maria Helena Guimarães de Castro e coordenação da pesquisa de Luiz Guilherme Scorzafave, Maria Isabel Accoroni Theodoro e Roberta Loboda Biondi Nastari. Publicado no ano passado, o estudo contou com o apoio do Instituto Natura, da Fundação Lemann e da Parceiros da Educação, e foi desenvolvido no âmbito da Cátedra Instituto Ayrton Senna de Inovação em Avaliação Educacional.

O material apresenta um diagnóstico sobre a alfabetização no país e  a implementação do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA). Para isso, os pesquisadores combinaram diferentes estratégias: revisaram a literatura e documentos oficiais, entrevistaram gestores, especialistas e responsáveis pelas avaliações nacionais e estaduais, e realizaram um estudo de caso em redes de ensino do estado de São Paulo. Além disso, identificaram municípios que alcançaram resultados acima do esperado em alfabetização, considerando seu contexto socioeconômico, para compreender quais práticas ajudam a explicar seu desempenho. 

Entre os principais resultados, o estudo sugere que o Brasil avançou ao criar uma definição comum do que significa uma criança estar alfabetizada e ao buscar compreender quão comparáveis podem ser os resultados das avaliações estaduais entre si e com a escala nacional do Saeb. 

 

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A pesquisa também destacou que o regime de colaboração entre União, estados e municípios fortaleceu a coordenação das políticas de alfabetização, ampliando ações de formação de professores, monitoramento e apoio técnico às redes de ensino. Ao mesmo tempo, evidenciou desafios importantes: em 2023, apenas 56% das crianças brasileiras haviam atingido o nível esperado de alfabetização, revelando grandes desigualdades entre estados e municípios. 

O estudo de caso realizado em São Paulo identificou elementos em comum entre redes que obtiveram resultados superiores ao esperado. Entre eles, destacam-se o acompanhamento frequente da aprendizagem dos estudantes, o uso sistemático de avaliações diagnósticas para orientar o trabalho pedagógico, a formação continuada dos professores, o apoio próximo das equipes gestoras às escolas e uma atuação articulada entre secretarias de educação, gestores escolares e docentes.

Os resultados reforçaram que bons níveis de alfabetização não dependem de uma única iniciativa, mas de um conjunto consistente e bem coordenado de práticas de qualidade implementadas de forma contínua e alinhada. 

Em conjunto, os dois estudos reforçam a importância de produzir evidências que retratem a realidade da alfabetização abrangente no Brasil e sejam capazes de informar decisões para aprimorá-la. Enquanto um indica a importância de um planejamento diferencial das estratégias de apoio de acordo com a etapa de ensino e o contexto socioeconômico dos estudantes em função de desafios de cada grupo, o outro identifica práticas e políticas associadas a bons resultados em diferentes redes de ensino. 

Esses trabalhos representam uma oportunidade para que o Brasil aprenda com o próprio Brasil: compreender os desafios enfrentados, identificar soluções de qualidade construídas em diferentes realidades e transformar esse conhecimento em fontes ricas para apoiar o desenho e a implementação de políticas públicas e práticas pedagógicas cada vez mais efetivas, equitativas e baseadas em evidências.

Para saber mais

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. (2025). Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2025: Resultados. Brasília, DF: INEP.

Borges, E. P. K., Koltermann, G., Piccolo, L. da R., Silva, E. de O., Lopes-Silva, J. B., & Salles, J. F. de. (2026). Impact of COVID-19 on reading and arithmetic according to school level and socioeconomic status: A comparison of pre- and post-pandemic cohorts. Revista AMAzônica, 19(3), 833–874. Acesso em 22 de julho de 2026.

Castro, M. H. G. de, Scorzafave, L. G., Theodoro, M. I. A., Nastari, R. L. B., Szermeta, I., Rocha, M. F. A., & Medeiros, B. A. (2025). Panorama da alfabetização no Brasil: Relatório consolidado. Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação e Economia Social (LEPES). Acesso em 04 de agosto de 2026.

 

* Gisele Alves é psicóloga, mestre em Psicologia com ênfase em Avaliação Psicológica pelo Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco. Gerente executiva do eduLab21, o Laboratório de Ciências para Educação do Instituto Ayrton Senna, Chairholder da Cátedra UNESCO em Educação e Desenvolvimento Humano e Site Project Manager do Estudo Survey on Social and Emotional Skills (SSES) da OCDE no Brasil.

 

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